Uma vida de cinema
O cineclubista Fernando Kaxassa fomentou e toca projetos culturais – acessíveis a todos os públicos – há quase 50 anos
"Sou Fernando, casado com a Bárbara Garcia, pai de um biólogo de 31 anos e anarquista. Nasci em 20 de fevereiro de 1961, em Barretos. Meu pai tinha uma farmácia, mas desde pequeno eu sabia que “minha praia” era a cultura. Quando assisti a “O Grande Momento”, do Roberto Santos, na TV Tupi, fiquei apaixonado e pensei: ‘quero fazer isso’. Aos 7 anos, no Grupo onde estudava, um pessoal de teatro precisava de uma criança no ensaio de uma peça. Eu fui e acabei fazendo parte. Passei a me meter com teatro nas escolas onde estudei. Hoje chamo Kaxassa porque, nos meus 12 anos, para subir no palco, eu pegava um frasquinho de remédio na farmácia, punha cachaça e dava um biquinho para ir bem.
Depois que meu pai morreu, trabalhei com minha mãe na farmácia, dos 11 aos 14 anos. Quando pintou a chance de vendê-la, minha irmã mais velha já morava em Ribeirão Preto. Minha mãe falou: “vamos pra lá?” Topei na hora. No começo, não consegui entrar em nenhuma escola, por ter vindo de ensino supletivo, mas me dei bem na noite ribeirão-pretana. Conheci artistas marginais, como Paulo Camargo e Leopoldo Lima; e acadêmicos como Bassano Vaccarini, Pedro Manoel e Francisco Amêndola, do Cine Foto Clube - todos bem mais velhos. Foi o Paulo Pereira, o PP, quem conseguiu uma bolsa para mim no Colégio Santa Úrsula, onde comecei a fazer teatro como assistente de direção dele.
Aos 17, queria fazer faculdade e o PP falou que todos os nossos amigos estavam na Unesp Araraquara, e o Zoom Cineclube, de lá, estava precisando de programador. Exerci o cargo enquanto fazia Ciências Sociais, que não terminei. Logo montamos o Cineclube Ribeirão Preto aqui, com o pessoal do Cine Foto. Quando Vaccarini disse que queria fazer cineclubismo igual ao de Araraquara, disputamos a eleição para a diretoria e ganhamos, mas impugnaram. Aí montamos outro, que ele sugeriu chamar Cauim (nome de uma bebida indígena), como o meu grupo de teatro na época.
Por essa época, tentei fazer um filme que não consegui terminar: peguei um conto do escritor Marcos Diamantino, fui para São Paulo com o Fernando (Fê) Souza conseguir equipamento emprestado e fomos filmar na Festa do Peão de Barretos. O querido Luís Carlos Arutin tinha acabado de ganhar o Prêmio Molière e foi atuar para nós sem ganhar nada e pagando a própria passagem.
Em 1979, aluguei a sala do antigo Cine Mirage [rua Lafayette] para o Cauim. O intuito era ficar um pouco e passar pra frente, mas aquilo foi grudando em mim. Então fiz o filme “Bóia Fria”, em Guariba, que ganhou prêmios. Em 1981, a Débora Duboc [atriz], então com 14 anos, veio trabalhar com a gente. Ela me apresentou seu tio Ademar Cardoso de Souza (o poeta ‘Cachorro louco’) e uma prima que fazia Medicina e me odiava, mas hoje está casada comigo há 43 anos. O Sócrates – um “irmão” – brincava que me casei com a Bárbara porque ela tem “bar” duas vezes no nome.
Como eu sabia dirigir, em 1982 montei a Tech Imagem Cauim, primeira produtora de TV da cidade, com o Luiz Eduardo Garcia e o Fê. As agências começaram a nos procurar para filmar propagandas. Ganhávamos prêmios e grana que sustentava o Cauim e outros projetos. Mas chegou uma hora que cansei – eu ficava viajando para gravar, perdia as jornadas do cineclube e só via a Bárbara de vez em quando.
Quando o Collor fechou Concine e Embrafilme, ficamos sem nada para exibir. Passei a trabalhar na ideia que eu tinha com o Pedro José Braz, de agência cultural. Depois ele colocou em prática outra nossa, das Oficinas Culturais – trabalhei por um ano na Cândido Portinari, de Ribeirão Preto. Depois criei, com o Odônio dos Anjos Filhos, a agência cultural da Vila Virgínia, no Banco Ribeirão Preto, e o Templo da Cidadania, em uma casa com 3 mil m². Ali criamos a revista “O Berro”, os programas “Papo com o doutor” (com Sócrates) e “Boca Livre”. Quando o jornalista Gilson Filho se juntou a nós, criamos a Cooperativa Teatro Cauim, que virou o Ribeirão Em Cena. E com o Jeziel Paiva, criei o Quarteto de Cordas, hoje projeto Kabuki.
O cinema brasileiro se recuperou com o FHC, mas a retomada da difusão e distribuição veio com o Gilberto Gil no Ministério da Cultura do Lula. Ele me chamou em Brasília e falou: ‘Kaxassa, vamos reativar os cineclubes no Brasil’. Eu topei, mas da ideia de instalar um em cada cidade, só vingou o Cauim, que passou a funcionar em um cinema de rua [antigo Bristol] de mil lugares. Passamos a exibir, aos finais de semana, todo tipo de filme a R$ 6 e R$ 3 – entrada e meia, respectivamente, que os outros cinemas cobravam R$ 20 e R$ 10. Durante a semana, passamos a trazer estudantes da rede pública para assistir filmes, pelo projeto “Escola vai ao Cinema”. Mas, com o [Michel] Temer nossos patrocínios públicos foram reduzidos, e com o Bolsonaro acabaram.
Durante a pandemia, coloquei à venda meus livros para não mandar nenhum funcionário embora. Peguei dinheiro emprestado com bancos e parceiros para começar a construir a sede atual do Cauim [rua Olavo Bilac, 135], em terreno doado pelo amigo Marcelo Carneiro. Voltamos a receber recursos com Lula e emendas de deputados e passamos a exibir filmes de graça para todo mundo. Porque cinema é hábito, precisa formar público, e a gente forma os dois."