Uma vida dedicada à arte

Uma vida dedicada à arte

À frente da galeria há quatro décadas, Marcelo Guarnieri relembra desafios e conquistas em Ribeirão Preto

"Nasci em São Paulo, em uma família que prezava a cultura. Minha mãe, Maria Cecília Guarnieri, artista plástica, foi minha maior influência nessa formação. Ela nos levava a todas as exposições e concertos que considerava importantes. Conviver com a arte dentro de casa foi um privilégio, que me ofereceu uma educação fora dos padrões e me aproximou definitivamente desse universo.


A galeria nasceu como consequência de trabalho, muito trabalho! No início da década de 1980, minha mãe atravessava um período emocional difícil e decidimos mudar para Ribeirão Preto. Aqui ingressei na Faculdade de Arquitetura do Moura Lacerda e percebi que havia um espaço expositivo praticamente sem uso. Propus aos diretores criar um calendário de mostras e assumi a missão de ocupá-lo. Passei a viver intensamente a faculdade entre 1982 e 1985: de dia participava das aulas e à noite cuidava da sala de exposições. Ainda conseguia visitar exposições em São Paulo e ampliar meu contato com artistas e movimentos que me inspiraram.


Em 1985, último ano do curso, montei com o arquiteto José Carlos Besson a primeira galeria, que se chamava Ribeirão Preto Promoções de Artes Plásticas. A sociedade durou dois anos e, em seguida, passei a dirigi-la sozinho. Desde então, ela se tornou minha casa e minha vida.


Os desafios sempre foram uma constante. Comecei muito jovem, cheio de sonhos, e isso me ajudou a enfrentar as dificuldades. Conviver com artistas era uma experiência enriquecedora. Não havia a estrutura de mercado de arte que conhecemos hoje, e isso criava uma relação de grande proximidade e apoio mútuo. Em Ribeirão conheci parceiros fundamentais, com os quais convivo até hoje. Lembro com carinho de João Figueiredo Ferraz, que aparecia quase diariamente na galeria para conversar e compartilhar ideias. Ele foi fundamental nas transformações do Salão de Arte de Ribeirão Preto, com o qual trabalhei em várias edições.


Em 40 anos, foram muitas exposições e momentos únicos. É difícil escolher apenas alguns, mas destaco mostras de Flávio de Carvalho, Mira Schendel, Iberê Camargo, Waltercio Caldas, Liuba e Maureen Bisilliat. Cada exposição foi um aprendizado e um degrau nessa longa caminhada. Nunca pautei a galeria apenas pelo viés comercial. Sempre acreditei na atemporalidade da arte e na importância de compreender a trajetória de um artista ao longo de sua produção.


O mercado de arte mudou radicalmente ao longo dessas quatro décadas. Escuto com frequência a pergunta: “Qual é o melhor artista para investir?”. Minha resposta é simples: se tratasse arte apenas como investimento, seria um banco e não uma galeria. Ribeirão ainda carece de incentivo às artes, de maior atenção aos espaços institucionais, de formação de público e de circulação de informações. Nos anos 1980, havia uma efervescência cultural notável na cidade, envolvendo literatura, cinema, música e artes visuais. Hoje vivemos um tempo de excesso de informações, mas muitas vezes sem profundidade. 


As lições desses 40 anos são inúmeras. Não teria como enumerar todas, mas certamente aprendi que o tempo é um grande aliado para amadurecer escolhas. Meu trabalho segue um pouco da intuição que carrego no DNA e vivo pensando o presente, mas sempre rememorando a história que aprendi com as gerações anteriores.


Seria impossível listar todas as pessoas que foram fundamentais nessa trajetória. Agradeço a todos que, direta ou indiretamente, colaboraram comigo e com a galeria ao longo desse tempo. Aos amigos que permanecem constantes na vida, na casa, na memória e na saudade. Em especial, agradeço a Silvia Velludo, aos meus filhos, noras e netos.


Mais do que construir uma história, estar em Ribeirão Preto significou poder contribuir para formar um novo olhar para as artes. Fomentar cultura fora das capitais é essencial, pois descentraliza o olhar e fortalece a identidade local. Foi um privilégio viver esse processo de perto, com todas as suas dificuldades e com as grandes alegrias que ele proporcionou.


Acredito que pessoa física e profissional acabaram se fundindo nessa relação. Foram 40 anos de galeria, mas também uma vida inteira dedicada à arte. É difícil separar o que sou como indivíduo do que construí como galerista. Afinal, essa é a história da minha vida.” 

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