Arte em alta: investimento ganha espaço entre jovens e interioriza mercado de colecionadores
Com liquidez crescente e valorização consistente, mercado de arte ganha força entre investidores que buscam unir paixão estética e estratégia patrimonial
"A arte é, sem sombra de dúvidas, um bom investimento, porém, a liquidez não é imediata”, afirma o galerista Marcelo Guarnieri. A observação resume bem o momento de amadurecimento do setor, que tem atraído investidores e colecionadores em busca de estabilidade em um cenário global de incertezas financeiras. Nos últimos anos, enquanto ativos tradicionais enfrentam oscilações intensas, a arte consolida seu papel como uma forma sofisticada de diversificação patrimonial. Mais que um refúgio emocional, ela se transforma em um ativo de longo prazo, amparado por história, originalidade e escassez, valores que resistem às flutuações do mercado.
Com décadas de experiência no mercado, Guarnieri vê um processo de evolução em curso, embora o país ainda ocupe posição tímida no ranking global. “Estamos em um processo cada vez mais evidente de profissionalismo no mercado de artes, mas ainda distante no comparativo com outros investimentos. Os Estados Unidos lideram com cerca de 45% das vendas, o Reino Unido com 18%, a China com 15%, enquanto o Brasil não chega a 1%”, observa. Esse abismo, diz ele, não diminui o potencial de crescimento local, sobretudo em um momento em que a arte volta a ser percebida como reserva de valor.
Em 2025, o mercado de arte global movimentou mais de US$ 70 bilhões, segundo relatório da Art Basel e UBS, e parte desse volume veio da busca por alternativas tangíveis diante de juros flutuantes, tensões geopolíticas e a crescente desconfiança nos ativos digitais. “O investidor quer algo que possa ver, tocar, guardar e que não se desvalorize de um dia para o outro”, explica o economista Marcelo Bosi, que estuda o comportamento de portfólios híbridos. “Nesse sentido, a arte funciona quase como um ativo emocionalmente estável, mas financeiramente sofisticado. Ela une razão e afeto, algo que poucos investimentos conseguem fazer”, acrescenta.

“A produção de um artista não é uma constante. Há fases mais valorizadas, períodos que despertam maior interesse de colecionadores e instituições, e isso influencia diretamente no preço”, explica Guarnieri. A lógica se distancia do curto prazo das ações ou do giro veloz das criptomoedas: o valor de uma obra é construído no tempo, alimentado pela trajetória do artista e pelo contexto histórico em que sua criação se insere.
O arquiteto e colecionador Sérgio Coelho entende bem essa dinâmica. Seu interesse começou pela estética, a partir de um olhar treinado pela arquitetura que o levou a perceber a arte como extensão daquilo que desenha, mas evoluiu para um entendimento mais racional do investimento. “É importante ter conhecimento para poder investir em artistas e obras que têm potencial de valorização”, diz. Ele conta que já revendeu peças com mais de três vezes o valor de compra após dez anos. “Os modernos são muito valorizados, mas já com preços elevados. Os contemporâneos você pode adquirir por preços mais reais e aguardar a evolução e a trajetória do artista.”
O comportamento de Coelho reflete um tipo de colecionador que vem se expandindo: o que equilibra o impulso afetivo e o cálculo de longo prazo. “Normalmente, vejo o colecionador como um apaixonado pela arte e isso acaba gerando um olhar apurado, um conhecimento maior do meio que, por consequência, influencia diretamente na valorização de uma obra”, diz Guarnieri. Em outras palavras, o amor pela arte se converte em valor de mercado. O olhar treinado, a pesquisa, a convivência com artistas e galeristas: tudo isso molda não apenas o gosto, mas também a percepção do que pode ou não se tornar uma peça de valor histórico.
Os galeristas Ana Vannucchi e Marcus Cotrim observam essa tendência de aumento expressivo do interesse de investidores desde 2023. “Há uma produção e circulação de arte cada vez maior e o público cresce continuamente”, afirma Ana. “Há dois anos, vimos um crescimento de mais de 20% no mercado nacional de arte, e esse reflexo vem chegando rapidamente ao interior.” O fenômeno, diz ela, é impulsionado pela soma de dois perfis: os compradores emocionais, que se conectam à obra pela estética ou pela história; e os compradores estratégicos, atentos à trajetória e à projeção do artista.
“O comprador afetivo se sente tocado de alguma forma e quer levar para casa aquilo que conta também um pouco de si. Já o comprador estratégico procura artistas com originalidade e potencial de valorização contínua”, explica Marcus. Em ambos os casos, a arte assume um papel que vai além do decorativo. Torna-se um espelho do tempo e, ao mesmo tempo, um ativo financeiro singular. Não há outro mercado onde emoção e patrimônio convivam de maneira tão íntima.
Essa interseção também ajuda a explicar o perfil mais diverso de quem compra arte hoje. Se antes o colecionismo era território de elites financeiras e intelectuais, hoje ele começa a se democratizar. “Há arte para todos os gostos, bolsos e intenções”, diz Ana. “Você pode comprar algo de R$ 100. Se aquilo te toca, ou pode investir em obras com muitos dígitos no valor. Qualquer faixa de investimento é segura se você é um comprador afetivo”, acrescenta. E, para os que desejam investir de forma mais estruturada, galerias como a deles têm apostado em fundos de investimento em arte, que permitem a entrada de cotistas com valores reduzidos, ampliando o acesso a um mercado antes restrito.
TECNOLOGIA E NOVOS PÚBLICOS
Esses novos mecanismos vêm acompanhados de transformações tecnológicas que alteraram a forma de comprar e vender arte. Feiras internacionais, plataformas digitais e até fundos tokenizados têm ampliado o alcance de artistas brasileiros e permitido que obras circulem em mercados antes inacessíveis. “As feiras propiciam uma maior circulação de artistas de renome e abrem espaço para novos nomes, inclusive fora dos grandes centros. Galerias sérias funcionam como filtros e garantem a credibilidade do processo, desde a curadoria até a publicação de catálogos e livros”, observa Guarnieri.
Esse movimento também trouxe um público mais jovem. Muitos deles, conectados ao digital e atentos às redes sociais dos artistas, começaram a perceber a arte como forma de investimento alternativo. “Há um novo público, mais jovem, olhando para a arte como ativo. Mas é necessário fomentar esse interesse, ampliar o acesso à educação artística e incentivar o consumo cultural desde cedo”, diz Ana. A galerista lembra que, historicamente, cidades como Ribeirão Preto já mostraram como a cultura pode ser vetor de desenvolvimento econômico: “Quando exportávamos café, no fim do século 19, o dinheiro era reinvestido aqui e isso garantiu que resistíssemos à quebra da Bolsa de 1929. A arte tem potencial semelhante como motor de criatividade e de identidade econômica”, compara.
A valorização de uma obra, lembra Guarnieri, não é apenas fruto da técnica: “a originalidade da obra em relação ao período em que foi executada, o contexto em que ela foi produzida, a repercussão do artista no cenário das artes visuais, a representatividade dele em coleções particulares e institucionais são fatores determinantes”. Assim, o valor de mercado se constrói em um emaranhado de dimensões simbólicas e financeiras. A boa arte, ele insiste, tende à valorização independente do período em que foi criada.
Do ponto de vista econômico, esse comportamento reflete uma tendência global. “O mercado de arte é resiliente e, historicamente, menos sujeito a choques externos do que os mercados financeiros tradicionais. Enquanto ações caem com mudanças de juros ou crises políticas, obras-primas continuam a mudar de mãos em leilões recordistas. Isso cria uma narrativa de estabilidade e, ao mesmo tempo, de prestígio”, analisa Bosi. Segundo ele, o crescimento do interesse brasileiro pelo setor se alinha a um movimento de diversificação patrimonial que inclui ouro, imóveis de alto padrão e, agora, arte.
Ainda que a arte não garanta retorno rápido, há algo de profundamente humano em investir nela. A aquisição de uma pintura, escultura ou instalação não é apenas uma transação: é uma forma de pertencimento. “O papel da arte é muito maior do que o belo. É desafiador, transformador”, diz Guarnieri.
Em um país de desigualdades, onde o investimento cultural muitas vezes é visto como luxo, talvez o verdadeiro desafio esteja em compreender a arte como parte de um ecossistema econômico mais amplo, um espaço onde emoção e razão não se excluem, mas se fortalecem mutuamente. Talvez o segredo de investir em arte esteja menos em prever o mercado e mais em entender o tempo. Como aconselha Guarnieri, “não há investimento em arte a curto prazo. Procure uma galeria profissional, leia, estude, visite exposições”, diz. E Coelho complementa: “É importante gostar e buscar estar sempre atualizado. Assim você forma um gosto pessoal e um patrimônio que crescem juntos”, conclui.