Brechós consolidam novo hábito de consumo
Camila Felix de Campos Cordeiro, do Burguesinha Brechó Chic, aposta na moda circular

Brechós consolidam novo hábito de consumo

Exclusividade, economia e consciência ambiental impulsionam a moda circular e transformam a relação com o guarda-roupa

Cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis são descartadas todos os anos pelos domicílios brasileiros. Apenas em 2024, cada residência do país jogou fora, em média, 44 quilos de roupas e calçados, segundo levantamento da consultoria internacional S2F Partners, especializada em gestão de resíduos e economia circular. O dado ajuda a dimensionar o impacto ambiental da indústria da moda e o ritmo acelerado de compra e descarte que acompanha as tendências. Em meio a este cenário, os brechós deixaram de ser vistos apenas como alternativa econômica. Hoje representam estilo, exclusividade e posicionamento ecologicamente consciente.


A advogada Camila Felix de Campos Cordeiro encontrou no brechó a possibilidade de unir paixão e propósito. Consumidora de peças de segunda mão desde antes de abrir o próprio negócio, ela decidiu investir no segmento ao perceber que poderia trabalhar com moda, de alinhada a seus valores pessoais. “Nos primeiros meses eu pensava: por que não fiz isso antes? Foi unir o amor pela moda com uma proposta consciente e acessível”, resume. Para ela, o brechó também se tornou um espaço de fortalecimento da autoestima feminina, ao oferecer roupas de qualidade e de grife por valores mais democráticos. “Muitas mulheres saem daqui se sentindo mais confiantes, porque conseguem se vestir bem sem gastar muito”, completa.


Ao longo dos anos, Camila percebe uma mudança clara de motivação no comportamento das clientes. Se antes o principal atrativo era o preço, hoje a exclusividade ganhou protagonismo. Peças que já saíram de linha, bolsas difíceis de encontrar e marcas desejadas passaram a ser fatores decisivos na escolha. “Hoje a cliente quer algo que não vai encontrar em qualquer lugar. Às vezes é uma peça que já saiu de linha e só vai achar aqui”, explica. Sustentabilidade e custo-benefício continuam relevantes.


CURADORIA É TUDO!


Outro ponto que ajudou a transformar a percepção sobre os brechós foi o cuidado com apresentação e curadoria. Lojas organizadas, climatizadas e com identidade visual próxima à de butiques contribuíram para quebrar antigos estigmas associados às roupas de segunda mão. No dia a dia do negócio, a seleção das peças é tratada como etapa essencial. “Hoje a gente já conhece muito bem o que a cliente procura, então a curadoria é muito mais direcionada”, afirma Camila.

 


Sarah Araújo Oliveira atua principalmente online com seu Brechó Armário de Sarah

 

A trajetória de Sarah Araújo Oliveira segue caminho semelhante, mas com proposta diferente de operação: o brechó funciona majoritariamente no ambiente online, com vendas realizadas pelas redes sociais e transmissões ao vivo. Ligada ao universo da moda desde cedo, ela sempre alimentou o desejo de empreender na área e encontrou no ambiente digital a possibilidade de alinhar vocação e independência financeira. Para Sarah, o consumo consciente deixou de ser um discurso distante e passou a integrar o cotidiano das pessoas. “Hoje vemos práticas mais sustentáveis em várias áreas da vida, e a moda acompanha esse movimento”, avalia.


No contato com as clientes, ela percebe que o atrativo costuma ser uma combinação de fatores, mas destaca o equilíbrio entre preço e qualidade. “Muitas clientes dizem que só compram em lojas convencionais quando realmente não encontram a peça em brechó. Existe uma migração real de hábito”, afirma. A curadoria, segundo ela, é o diferencial do negócio e envolve seleção minuciosa, higienização e, quando necessário, ajustes antes da venda. “Sem uma boa compra, não existe venda. A escolha da peça é tudo”, pontua. 

 


O OLHAR DE QUEM CONSOME 


Se as empreendedoras observam a transformação do lado de dentro, as consumidoras confirmam o movimento do lado de fora. Sandra Andrade dos Santos frequenta brechós há mais de duas décadas. O primeiro contato surgiu por necessidade, quando buscava uma sandália específica para aulas de dança e encontrou em um brechó uma opção acessível e rara. O que começou como solução pontual virou hábito e, com o tempo, a motivação deixou de ser apenas financeira. “Antigamente eu buscava preço. Hoje eu penso muito em estilo e meio ambiente”, conta. 


Ela explica que o consumo de segunda mão influenciou diretamente sua forma de se vestir, tornando-a mais atenta a combinações e reaproveitamento de peças. “Hoje eu olho a roupa e penso no que combina com o que eu já tenho. Não compro mais por impulso”, diz. Sandra também destaca a variedade como um dos principais encantos dos brechós e afirma que passou a cuidar mais das roupas pensando na possibilidade de revender ou doar no futuro. Entre os achados mais marcantes, ela lembra de vestidos de festa, eletrodomésticos e até uma mala de viagem. “A mala foi meu melhor achado, foi comigo na minha primeira viagem de navio”, relembra.


Rauane Carla Schiavetto Vinhadelli vê o brechó como parte da própria construção de identidade. A motivação inicial foi encontrar roupas que refletissem seu estilo pessoal por valores mais justos, mas o hábito acabou se tornando algo natural em sua rotina. “Sempre fez parte de mim. Meu estilo também foi construído dentro de brechós”, afirma. O encanto, segundo Rauane, está nas histórias por trás das peças e na possibilidade de descobrir itens que já não estão disponíveis nas lojas tradicionais. “Tem muita coisa que você não vê mais nas vitrines e continua sendo linda”, comenta. 


Ela também observa que o consumo de segunda mão ganhou força com o apoio das redes sociais. “Hoje ficou mais popular. Tem muita gente mostrando achados e isso incentiva outras pessoas”, diz. Para ela, quanto melhor a curadoria, maior o interesse do público. 

 

 

 

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