Produtores e economistas explicam como o "tarifaço" de Trump pode impactar Ribeirão Preto

Produtores e economistas explicam como o "tarifaço" de Trump pode impactar Ribeirão Preto

Apesar de ampliar a oferta e reduzir preços, a tarifa de 50% anunciada por Trump sobre produtos brasileiros ameaça gerar desemprego e pode afetar fortemente a região

Na aparente normalidade nos corredores de um supermercado na avenida Antônio e Helena Zerrener, na zona Oeste de Ribeirão Preto, o principal assunto entre consumidores e funcionários, conhecidos de outras visitas ou trocando as primeiras palavras, era “a taxa dos Estados Unidos”. Com tom de fofoca, análise e apreensão, as breves trocas têm motivo. O presidente norte-americano Donald Trump prometeu aplicar uma tarifa de 50% sobre todos os produtos importados do Brasil a partir do dia primeiro de agosto. A justificativa oficial é genérica, supostas "práticas comerciais desleais" e "retaliações diplomáticas", mas nos bastidores políticos e econômicos, a leitura é outra: chantagem e pressão política. Para Ribeirão Preto, um dos pólos exportadores agrícolas do país, a medida representa uma possível ruptura com um dos seus principais parceiros comerciais.

 

A cidade e seu entorno respondem por exportações de etanol, açúcar, carne, café, suco de laranja e soja, produtos que lideram a pauta de vendas ao exterior e que têm nos Estados Unidos um mercado-chave. “Uma tarifa desse porte torna a competição desleal. Nossos produtos deixam de ser competitivos lá fora, o que compromete diretamente receita, investimentos e empregos no campo”, explica Paulo Junqueira, presidente do Sindicato Rural, que espera um efeito dominó inevitável. “Já temos relatos de cooperativas e grandes produtores que estão em alerta, inclusive com contratos sendo reavaliados. O mercado internacional exige confiança. Um anúncio como esse congela negócios.”

 

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) foi enfática em sua nota oficial. “Medidas desta natureza prejudicam as economias dos dois países, causando danos a empresas e consumidores. Não se justifica do ponto de vista histórico, diplomático ou comercial”.

 

“Se a exportação quebra, o produtor segura o plantio, demite, deixa de comprar insumos. Quem sofre é o Brasil que dá certo”, explica o presidente do Sindicato Rural de Ribeirão Preto, Paulo Junqueira

 

Segundo o consultor econômico José Rita Moreira, “os produtos mais afetados serão justamente os de maior valor de mercado e dependência logística, como açúcar, café, carnes e máquinas agrícolas. Com a nova tarifa, esses itens devem perder competitividade frente a concorrentes internacionais, como Canadá e México.”

 

Nas ruas, a principal dúvida recai sobre os preços e a oferta de produtos. “A gente fica esperando para ver como isso vai refletir no valor do cafezinho e da proteína que a gente consome diariamente”, explica o torneiro mecânico Marinaldo Camilo, enquanto aguardava sua vez no açougue do mercado, ainda na dúvida se compraria patinho ou coxão duro moído.

 

“Por enquanto, o consumidor continua comprando como antes do anúncio dessa tarifa”, afirma Noventa, gerente da unidade varejista. “Mas o que há é uma apreensão e expectativa, principalmente por parte dos consumidores. Sabemos que muita coisa pode acontecer.” Com mais de vinte anos no setor, Noventa aposta que “numa primeira etapa, com a exportação travada, a oferta interna vai aumentar e os preços devem cair. Mas, se o mercado externo continuar fechado, os produtores vão recuar, diminuir produção, gerar demissões e, aí sim, o consumo interno também despenca”, alerta Noventa. “A médio e longo prazo, seria desastroso.”

 


O gerente de supermercado Antônio Norberto Noventa conta que “o que se vê nos corredores do mercado ainda é especulação. Precisamos esperar.”

 

E se não há impacto inicial nos hábitos dos consumidores, os primeiros sinais já são visíveis nas cooperativas, que têm limitado a renovação de pedidos futuros. Armazéns de grãos, que deveriam estar acelerando a preparação para a próxima safra, relatam suspensão de investimentos. E transportadoras de médio porte estão revendo planos de expansão. “É um ciclo de retração que começa discreto, mas pode se intensificar com rapidez caso a tarifa se consolide”, analisa Moreira.

 

Mas há outros setores na linha de tiro. O professor de Economia da Unesp de Jaboticabal José Giacomo Baccarin acredita que o maior baque paulista talvez não venha do campo. “O efeito mais severo pode recair sobre a Embraer. É a terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo e depende fortemente das companhias aéreas norte-americanas. Um encarecimento de 50 % torna seus jatos praticamente inviáveis para esse mercado.”

 

No agronegócio paulista, prossegue Baccarin, o epicentro estará na citricultura. “O suco de laranja é exportado majoritariamente por produtores do interior do Estado. Os Estados Unidos ainda compram pouco mais de 40 % do nosso volume. Se esse canal se fecha, o estrago é direto na renda dos pomares e nas agroindústrias que fazem o processamento.”

 

“É uma demonstração de força, um caminho que o presidente norte-americano tomou desde o início do seu governo”, reflete o professor de Economia José Giacomo Baccarin

 

“Se essa tarifa for mesmo implementada, os impactos no agronegócio serão reais, principalmente no setor sucroalcooleiro e na citricultura, em que os Estados Unidos são um dos principais compradores”, aponta o economista Luciano Nakabashi. “Há também a questão da Embraer, que é muito mais difícil de redirecionar. Um jato não encontra novo mercado tão rápido quanto uma commodity.”

 

Nakabashi ressalta, porém, que redirecionar parte da produção agropecuária é possível, mas com obstáculos. “Não é automático. É preciso encontrar compradores, fechar contratos, adaptar a logística. Dá pra fazer, mas leva tempo. E, nesse meio-tempo, quem sofre é o produtor”, conclui.

 

Diplomacia em xeque

 

Para alguns representantes do setor agroindustrial, a resposta brasileira às ameaças de taxas precisa ser diplomática. Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), afirma ser “extremamente importante que questões políticas sejam colocadas de lado e o foco recaia sobre a importância dos Estados Unidos no saldo da balança comercial brasileira”.

 

Segundo Meirelles, os Estados Unidos representaram cerca de US$ 40 bilhões nas exportações brasileiras em 2024. Só de café verde, foram US$ 1,9 bilhão. “O governo precisa agir. Ainda temos uma janela diplomática até agosto, mas ela está se fechando rapidamente”, conclui.

 

O professor de Direito Internacional da Universidade de Ribeirão Preto Danilo Garnica Simini foi além: “A carta enviada por Trump ao governo brasileiro configura ameaça. Os EUA estão tentando interferir em decisões do Supremo Tribunal Federal, o que viola frontalmente o princípio da não intervenção previsto na Convenção sobre os Direitos e Deveres dos Estados.”

 


Para o professor de Direito Internacional Danilo Garnica Simini, “os EUA trata o Brasil como uma colônia ao elevar taxas sem critério técnico”

 

Simini aponta ainda que a retaliação tarifária parece ser uma reação aos posicionamentos do Brasil na última cúpula dos BRICS (grupo de países emergentes que, além do Brasil, conta com Rússia, Índia, China e África do Sul), onde o país se uniu a críticas aos EUA sobre conflitos no Oriente Médio e reacendeu o debate sobre uma moeda comum. “O pano de fundo é político, mas os efeitos são econômicos. E quem paga essa conta são os trabalhadores e empresários da base produtiva.”

 

Para Nakabashi, professor da USP Ribeirão Preto, a manobra tem claro conteúdo político. “Acho que é mais uma pressão política. Não dá para saber exatamente a real intenção ali do Donald Trump. Ele costuma usar questões econômicas para tentar fazer o que deseja”, afirma. “Pode ser que acabe não vigorando, ou que vigore por um período e ele volte atrás, como já fez em outras situações.”

 


“O mercado norte-americano oferece rentabilidade melhor em muitos casos. Vender para a China ou Coreia pode até ser viável, mas com margens menores”, afirma o economista Luciano Nakabashi

 

Impacto Real, Alternativas Incertas

 

Na prática, o cenário é nebuloso. “Estamos sim buscando alternativas, como Ásia, Oriente Médio, Europa”, afirma Junqueira. “Mas nenhum mercado substitui, no curto prazo, o volume e o poder de compra dos Estados Unidos. Diversificar é possível, mas exige tempo, logística e segurança jurídica.”

 

O Sindicato Rural já iniciou articulações com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), enquanto a Sociedade Rural Brasileira (SRB) confia na diplomacia para conter o avanço das tarifas. “Será necessário um acordo muito bem coordenado”, afirma Sérgio Bortolozzo, presidente da SRB. “Temos uma posição confortável em algumas cadeias, como café e carne bovina, mas isso não basta.”

 

A preocupação maior é com o impacto na cadeia produtiva como um todo. A Faesp estima que, se a medida vingar, Ribeirão Preto pode ver um corte de até oito mil empregos diretos nos próximos seis meses. O setor de máquinas agrícolas, fortemente dependente das exportações, já enfrenta atrasos em pedidos e hesitação de compradores estrangeiros.

 

Enquanto isso, a especulação nos mercados futuros de commodities brasileiras só aumenta. Com a oferta potencialmente redirecionada para o consumo interno, os preços podem cair no curto prazo, o que, paradoxalmente, pode beneficiar o consumidor nas gôndolas. Mas por pouco tempo. “Não se iludam. Essa é uma queda que precede um tombo maior. Se o produtor perde, ele para. E quando ele para, o impacto chega a todos os cantos da economia”, alerta Junqueira.

 

Encruzilhada

 

No plano político, o momento é crítico. A resposta brasileira até agora limitou-se a protestos formais, inclusive com a devolução da carta de Trump sem resposta oficial, e à regulamentação recente da chamada Lei de Reciprocidade Comercial, sancionada pelo presidente Lula, que autoriza medidas semelhantes contra países que impuserem barreiras aos produtos nacionais. Mas, no campo prático, ainda não há sinal de retaliação ou renegociação.

 

“A economia e o comércio não podem ser injustamente afetados por questões de natureza política”, disse a CNA em sua nota. “Esse tipo de medida só pode ser resolvido por meio do diálogo incessante e sem condições entre os governos e seus setores privados.”

 

O tempo, no entanto, é um inimigo. Com agosto se aproximando, a janela para reverter a tarifa vai se estreitando. E Ribeirão Preto observa, com olhos atentos entre os corredores de supermercados, nas reuniões de cooperativas, nos armazéns que silenciam diante da incerteza. “Precisamos esperar”, é o que mais de uma fonte ouvida nessa matéria respondeu à pergunta: “o que fazer?”.

 

Perda, adaptação e benefício

 

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, respondendo por 12% das exportações e 15% das importações nacionais. Em 2024, a corrente de comércio entre os dois países movimentou cerca de US$ 80 bilhões, o equivalente a 1,9% do PIB brasileiro. Na ponta das exportações, os principais produtos são commodities como petróleo (18,8%), ferro e aço (14,7%), equipamentos de transporte e café. No sentido inverso, o Brasil importa sobretudo equipamentos de geração de energia, derivados de petróleo, plásticos e produtos químicos.

 

Segundo relatório da XP Investimentos, embora parte dos produtos afetados possa ser redirecionada para outros mercados, como Ásia ou Europa, a adaptação traz perdas de margem, eleva custos logísticos e exige tempo. No curto prazo, empresas que dependem fortemente das exportações para os EUA enfrentarão um dilema, absorver o custo das tarifas ou repassá-lo ao consumidor, arriscando perder competitividade. A Embraer é o caso mais crítico. Com cerca de 24% de sua receita oriunda do mercado norte-americano, a fabricante brasileira de aeronaves pode perder até 6 pontos percentuais de margem EBIT (indicador financeiro que mostra quanto uma empresa lucra com suas operações principais antes de pagar juros e impostos), o que representa um impacto anual estimado entre US$ 80 e US$ 90 milhões.

 

Entre os demais setores com maior exposição à nova tarifa estão papel e celulose (Suzano, com 16,6% da receita exposta), açúcar (Jalles Machado), carne bovina (Minerva, com até 15% da receita) e bens de capital como Tupy, Frasle, Randon e Weg. Ainda que algumas dessas companhias possam contornar parte dos efeitos por meio de operações fora do Brasil ou realocação de produção, como a Weg, que possui base industrial no México, a avaliação geral é de que o golpe será sentido nas margens e na confiança dos investidores.

 

“Embora a diferença de preço entre vender para os EUA e para países como China ou Coreia do Sul não seja tão significativa, os EUA oferecem margens mais altas, especialmente em produtos como beef trimmings, carne de menor valor, mas vendida com boa rentabilidade”, explica o trecho do relatório dedicado ao setor de alimentos e bebidas.

 

A XP também chama atenção para os efeitos indiretos: a pressão sobre o câmbio, o aumento do risco-país e a possível retração de investimento direto estrangeiro (IDE). Hoje, os EUA detêm quase 27% do estoque total de IDE no Brasil, com cerca de US$ 280 bilhões alocados. Um agravamento nas tensões comerciais pode frear esse fluxo, afetando tanto multinacionais instaladas no país quanto projetos em fase de expansão.

 

Se há setores vulneráveis, há também empresas que podem se beneficiar. A Braskem, por exemplo, poderia ganhar espaço no mercado doméstico de resinas plásticas caso o Brasil opte por retaliar produtos químicos importados dos EUA. Já empresas de grãos como SLC Agrícola e BrasilAgro tendem a sair ganhando se a China redirecionar sua demanda dos EUA para o Brasil em resposta à nova onda de tarifas globais, como já ocorreu em guerras comerciais anteriores.

 

No horizonte político, o relatório também destaca a importância de acompanhar os desdobramentos diplomáticos e os reflexos na eleição presidencial de 2026. Desde abril, em outras situações semelhantes, os EUA recuaram de tarifas anunciadas após negociações bilaterais. O mesmo pode ocorrer aqui, caso o Brasil opte por uma estratégia de contenção e diplomacia ativa.

 


Fotos: Revide - Lucas Nunes / Divulgação

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