Vida pós tarifaço
Taxa de 50% para produtos brasileiros nos Estados Unidos faz empresários da região mudarem rotas para sobreviver com mercados alternativos
Pouco mais de semana após a vigência das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre a maior parte dos produtos brasileiros, os efeitos já começam a se fazer sentir na prática. O Brasil é o segundo maior fornecedor para os EUA. No setor de confinamento de gado no interior de São Paulo, por exemplo, produtores reportam uma queda de até 10% no faturamento, além de impactos diretos na exportação de carne bovina. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), as perdas podem chegar a até US$ 1 bilhão.
O médico veterinário André Perrone Reis, diretor de um confinamento em Barretos, explica que “a carne brasileira é usada principalmente para a produção de hambúrgueres nos EUA” e que o setor busca mercados alternativos para diminuir os impactos das tarifas. Desde 6 de agosto, quando elas entraram oficialmente em vigor, as relações bilaterais voltaram a um patamar de tensão não visto desde os anos 1980.
Além de Barretos, municípios como Ribeirão Preto, Sertãozinho, Cravinhos e Jardinópolis têm empresas que exportam para os Estados Unidos. “Pode parecer algo restrito ao comércio exterior, mas é um efeito dominó: exportamos menos, produzimos menos; produzindo menos, investimos menos e contratamos menos”, afirma o consultor econômico José Rita Moreira.
A usina São Francisco, com sede em Sertãozinho, exporta açúcar orgânico para 74 países. No ano passado, mais da metade das exportações foram para os Estados Unidos. Leontino Balbo, diretor da usina, diz que os efeitos devem ser sentidos em médio prazo, se as tarifas se mantiverem. “Temos um trabalho de inteligência que deve diminuir impactos a curto prazo, mas investimos pesado para sermos distribuidores confiáveis para o mercado americano e não será simples encontrar caminhos para as mais de 40 mil toneladas exportadas anualmente para esse mercado”, explica.
EXCEÇÃO, ‘PERO NO MUCHO’
Cerca de 700 produtos do Brasil continuam a pagar 10% de tarifa. Embora alguns setores, como os de suco de laranja, energia, aeronaves civis e fertilizantes, tenham sido poupados, áreas como café, carnes, calçados e produtos industrializados já sofrem o impacto direto. A Zinho Indústria de Alimentos, nascida em Ribeirão Preto e exportadora de pães, está entre as que precisaram rever estratégias. “Uma tarifa desse porte inevitavelmente afeta custos e, por consequência, o preço final nos EUA”, explica Jaime Fabreti Jr., gerente internacional de vendas. “Isso nos obriga a reposicionar os produtos, reforçando atributos como uso de poucos ingredientes e baixa industrialização.”
Fabreti aponta que a demanda americana por alimentos naturais e menos processados pode, paradoxalmente, abrir novas oportunidades para a empresa. “Vamos explorar isso ao máximo enquanto buscarmos alternativas de mercado.”
Hoje [13 de agosto], passados sete dias de vigência do chamado “tarifaço”, Fabreti diz que, embora contratos fechados antes do decreto não tenham sido afetados, o ambiente de negócios mudou. “O mercado ficou mais cauteloso e passou a questionar a continuidade dos contratos”, relata. “Com as tarifas já valendo, estamos ajustando a rota estratégica de exportação para os EUA.”
A empresa iniciou o redirecionamento de parte da produção para México, Argentina, Uruguai e Paraguai, e avalia expandir para mercados como Canadá e Europa, que demonstram interesse por alimentos brasileiros de valor agregado. Hoje, 5% do faturamento da Zinho vem das exportações, e a meta é triplicar esse percentual em dois anos. Curiosamente, a crise com os EUA pode acelerar essa diversificação. “Apesar do desafio, a tarifa nos força a explorar oportunidades que estavam no radar, mas não eram prioridade.”
O México, aliás, deve ser importante parceiro do mercado brasileiro para diminuir o impacto em alguns setores. Uma comitiva brasileira composta por membros do Governo e empresários fará, ainda em agosto, uma série de encontros e reuniões por lá para firmar novos acordos e abrir novas negociações bilaterais.
CAFÉ
Ao contrário de previsões mais pessimistas, ainda não há cortes de pessoal ou redução da produção local. Na Alta Mogiana, produtora de cafés especiais que ganharam espaço no mercado americano, sobretudo nos segmentos gourmet e orgânico, a margem de lucro ficou ameaçada. “Na relação comercial do café, Brasil e EUA são fundamentais um para o outro. Os cafés brasileiros representam mais de 30% do mercado americano, e os EUA compram 16% de nossa produção, sendo nosso principal cliente”, diz Márcio Ferreira, presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Ele defende a inclusão do café na lista de exceções. “A cada US$ 1 que os EUA importam, injetam US$ 43 na própria economia.”
Segundo Moreira, a perda de mercado para Colômbia, Peru ou Etiópia é um risco real. E há outra consequência: “Sem preços remuneradores no exterior, o produtor investe menos em qualidade e sustentabilidade e podemos ter retrocessos.”
No setor sucroalcooleiro, o etanol e seus derivados ficaram de fora da tarifa, mas existe o temor de que a medida provoque disputas comerciais que levem os EUA a inundar o mercado global com produtos subsidiados, deslocando exportações brasileiras. Em Sertãozinho, um representante da Usina São Francisco diz que “o impacto é certo, mas ainda é cedo para medir”.
Indústrias de Sertãozinho, principalmente de máquinas agrícolas e equipamentos para usinas também dependem, ainda que indiretamente, de contratos internacionais. “Se nossos clientes que exportam desaceleram, nós desaceleramos também”, afirma Márcio Trindade, diretor de uma metalúrgica com 120 funcionários.
O Governo Federal anunciou um chamado plano de contingência para reduzir os impactos econômicos do tarifaço. A prioridade será atender os pequenos produtores que não têm alternativas à exportação para os Estados Unidos. Até o fechamento desta edição, os detalhes ainda não haviam sido publicados.
O economista Luciano Nakabashi atenta para outros caminhos que podem se abrir para o mercado interno. “Se os EUA comprarem menos do Brasil, precisarão comprar de outros. Esses fornecedores, por sua vez, vão redirecionar suas vendas e aí surgem nichos onde os brasileiros podem entrar.”
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