Escola busca equilíbrio entre lápis e tecnologia para formar leitores críticos

Escola busca equilíbrio entre lápis e tecnologia para formar leitores críticos

Educadores de escolas de Ribeirão Preto tentam equilibrar tradição pedagógica com os desafios da cultura tecnológica

No Brasil, ensinar a ler e escrever nunca foi tarefa simples. A desigualdade social, a precariedade estrutural de muitas escolas e a ausência histórica de políticas públicas consistentes criaram um cenário no qual alfabetizar continua sendo um desafio. Mas no século 21, quando celulares chegam às mãos das crianças antes mesmo dos lápis, surge um novo imperativo: é preciso aprender a ler o mundo digital.


Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua), do IBGE, em 2024 cerca de 93,6% dos domicílios brasileiros possuíam acesso à internet, o que equivale a cerca de 74,9 milhões de lares. Essa expansão mostra que, nas zonas rurais, o crescimento da conectividade tem sido mais acelerado, mas ainda assim permanece abaixo do observado nas áreas urbanas.


“Alfabetização digital é saber usar a ferramenta, ligar um aparelho, acessar um aplicativo, navegar na internet. O letramento digital é outra coisa: é usar a tecnologia de forma crítica, compreender as linguagens digitais, identificar a origem das informações e avaliar sua confiabilidade”, explica Egli Tão de Alencar, biólogo e professor. Ele ressalta a diferença entre mecânica e reflexão: “sem o letramento, os alunos até sabem clicar, curtir, compartilhar, mas ficam vulneráveis a fake news, manipulação e superficialidade.”


A distinção não é trivial. Nas redes sociais, um adolescente que digita com agilidade pode ser tão analfabeto digitalmente quanto o avô que nunca tocou em um smartphone. A diferença está na capacidade de discernir. E discernir, como lembra Egli, exige treino. “É comum encontrar na internet informações distorcidas em temas como saúde, vacinas ou meio ambiente. O estudante precisa aprender a diferenciar o que é opinião de um conteúdo produzido com rigor científico”, explica.


Quanto à alfabetização “clássica”, os dados mais recentes do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) mostram que o Brasil alcançou 59,2% de crianças alfabetizadas até o fim do 2º ano do Ensino Fundamental, em 2024, segundo o Indicador Criança Alfabetizada. Esse índice representa um avanço de 3,2 pontos percentuais em relação a 2023. No entanto, chama atenção que, em 2023, apenas 49,3% das crianças do 2º ano eram consideradas alfabetizadas, conforme os dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).


De acordo com o TIC Domicílios, em duas décadas, a proporção de lares urbanos com internet saltou de 13%, em 2005, para 85%, em 2024. Mas há uma ressalva: apenas 22% da população possui conectividade considerada significativa, ou seja, com qualidade, estabilidade e capacidade de suportar usos mais exigentes, como aulas remotas ou aplicações interativas.


O uso de tecnologias digitais entre crianças brasileiras de 0 a 8 anos também vem crescendo muito. Segundo levantamento do IBGE, entre 2015 e 2024 a proporção de crianças que usam internet subiu de 9% para 44%, na faixa de 0-2 anos; de 26% para 71%, entre 3 e 5 anos; e de 41% para 82%, entre 6 e 8 anos. Em paralelo, a posse de celular próprio entre crianças se elevou, especialmente nas faixas mais altas dessa idade, o que evidencia uma imersão digital precoce. 

 

A SALA DE AULA


Se Egli aponta os riscos, quem vive o cotidiano da alfabetização percebe as transformações na prática. Karen Jorge Younis, pedagoga com especialização em Alfabetização e Letramento, ensina crianças em Ribeirão Preto. “A alfabetização deixou de ser mecânica. Hoje entendemos que os erros fazem parte do aprendizado e que o aluno constrói conhecimento em interação com textos, colegas e professores”, diz.


A tecnologia, no entanto, mudou a dinâmica. “As crianças chegam cada vez mais expostas ao digital, mas nem sempre de forma saudável. Muitas têm dificuldade de concentração, outras enfrentam falta de envolvimento familiar. E o excesso de estímulos digitais impacta diretamente o desenvolvimento”, observa Karen.


Na sua sala, tablets, vídeos e jogos educativos convivem com cadernos e lápis. A lousa digital projeta imagens que chamam a atenção, mas a professora insiste que o equilíbrio é indispensável. “A tecnologia precisa ser usada com propósito. Se vira distração, perde o sentido. A família tem papel crucial nesse processo de orientar, supervisionar, estimular o uso positivo”, frisa.


A diferença entre alfabetizar e letrar digitalmente é nítida no dia a dia. “Ensinar a ligar o aparelho ou digitar é alfabetizar. Mas letrar é ajudar a criança a interpretar textos digitais, diferenciar informações confiáveis e até produzir conteúdos”, explica Karen.


O professor Enzo reforça a ideia de intencionalidade no uso dos recursos digitais. “Não basta disponibilizar as ferramentas. O que transforma é o desenho pedagógico, a forma como o professor conduz a experiência e provoca reflexão. A tecnologia não substitui o pensamento crítico, ela precisa ser mediada para ampliar o repertório cultural e social do aluno”, afirma.


Para o professor Egli, a questão ganha ainda outra camada: a biológica. “O cérebro infantil é extremamente plástico, mas também vulnerável ao excesso de estímulos. A alfabetização digital exige cuidado para não comprometer a atenção sustentada e o desenvolvimento da memória. O desafio está em equilibrar os ganhos do acesso à informação com a necessidade de tempo, silêncio e maturação cognitiva”, explica.

 

PLATÃO E OS ALGORITMOS


Se na Grécia Antiga Platão defendia a importância da oralidade e desconfiava da escrita como ferramenta de transmissão do conhecimento, hoje, diante da cultura digital, o dilema se atualiza. “Os algoritmos funcionam como novos mediadores entre o indivíduo e o mundo. Da mesma forma que Platão questionava o impacto da escrita sobre a memória, nós precisamos refletir sobre como a tecnologia molda o pensamento crítico e a autonomia dos estudantes”, observa Enzo Brenna, coordenador de tecnologia educacional e bacharel em Ciências Sociais e Filosofia. 


O educador gosta de provocar os estudantes com metáforas filosóficas. “Já discutimos o meio-termo de Aristóteles aplicado ao equilíbrio das telas ou a crítica de Platão às aparências, em paralelo às fake news. A tecnologia não é neutra, envolve escolhas éticas”, afirma.


Para Enzo, inovação educacional não é introduzir gadgets [dispositivos] em sala de aula, mas criar ecossistemas de aprendizagem. Ele cita projetos que conectam técnica a impacto social: estudantes do Ensino Fundamental produziram audiolivros para crianças cegas em parceria com a Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto; outros desenvolveram aplicativos para monitorar transporte público ou organizar os estudos. “A alfabetização digital é saber editar um vídeo ou programar um jogo. O letramento digital é usar esse conhecimento para resolver problemas reais, de forma ética e criativa.”


Essa visão sistêmica também se traduz na formação docente. “O desafio é não reduzir a tecnologia a um uso superficial, como substituir o caderno pelo tablet. É preciso criar experiências em que ela amplie o pensamento crítico e a colaboração. Para isso, investimos mais de cem horas anuais em desenvolvimento profissional da equipe”, acrescenta Enzo.

 

RASTROS DA PANDEMIA


O choque provocado pela pandemia escancarou a urgência do tema. Subitamente, aulas migraram para telas e professores tiveram de se reinventar. Para Egli, houve um salto técnico, mas não necessariamente crítico. “Os alunos ficaram mais ágeis no manuseio de aplicativos, mas a superficialidade também cresceu. Eles aprendem rápido a mexer em qualquer ferramenta, mas ainda precisam ser orientados a pensar sobre o conteúdo”, descreve.


Karen confirma a impressão. Muitos alunos voltaram à escola com maior familiaridade com dispositivos, mas também com ansiedade e dificuldade de foco. “A pandemia acelerou a alfabetização digital, mas não garantiu o letramento. Continuamos a tarefa de ensinar a ler o mundo com atenção e consciência.”


O Brasil continua sendo um país em que milhares de crianças chegam ao 5º ano sem compreender o que leem no papel. Inserir nesse cenário o desafio do digital é tarefa monumental. Egli pondera que “tratar a tecnologia como parte do currículo, e não como acessório, é fundamental. Isso significa investir em formação de professores e infraestrutura mínima.”


Enzo amplia a perspectiva e defende que “a escola precisa preparar o estudante para lidar com excesso de informação, inteligência artificial e fake news. Isso envolve pensamento crítico, ética digital e protagonismo. Informação só vira conhecimento quando é interpretada, e conhecimento só tem valor quando se transforma em impacto positivo”, reforça.


Karen lembra que a mudança começa na sala de aula e na relação com cada aluno. “É preciso respeitar ritmos, acolher diferenças, criar ambientes ricos em estímulos. A tecnologia pode ser uma aliada poderosa, mas não substitui o professor apaixonado pelo que faz.” 

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