Movimento em escola da zona Sul de Ribeirão propõe adiar acesso de crianças e jovens aos smartphones

Movimento em escola da zona Sul de Ribeirão propõe adiar acesso de crianças e jovens aos smartphones

Famílias e educadores de uma escola de Ribeirão Preto se organizam para adiar o acesso de crianças e adolescentes aos smartphones, apostando no diálogo e no apoio coletivo

Um movimento iniciado por um grupo de mães de alunos e professores de uma escola na zona Sul de Ribeirão Preto propõe adiar o acesso de crianças e adolescentes aos smartphones. Inspiradas em iniciativas semelhantes já adotadas em São Paulo e em outros países, as famílias se organizaram e passaram a discutir coletivamente os limites do uso da tecnologia, com apoio também de parte dos próprios alunos. “Como negar o pedido insistente dos filhos para ganhar um celular?”, questiona Elisa Lunardi, idealizadora do programa Infância sem Excesso e mãe de dois estudantes da escola Miró. “Venho negando esse pedido há anos. Quando soube da existência do movimento Desconecta, senti que ali havia um caminho possível.”


A reflexão de Elisa surgiu de uma constatação cotidiana. “Comecei a perceber como o celular ocupa cada vez mais espaço na minha vida, roubando momentos preciosos de tempo, atenção e presença.” Para ela, a discussão ultrapassa a esfera individual e se transforma em um convite coletivo para repensar “novas formas de viver o presente”.


A iniciativa da escola conquistou rapidamente adesões. Em poucas semanas, mais de 50 famílias se juntaram ao movimento. “Ainda não temos todas as respostas; não é simples, exige tempo, letramento e diálogo. Estamos aprendendo enquanto caminhamos”, afirma Elisa, ao apontar uma urgência que também vem sendo destacada por educadores e profissionais da saúde.


Na prática, o movimento não estabelece uma regra única ou uma idade rígida para todos, mas propõe um pacto coletivo baseado em diálogo, informação e corresponsabilidade. As famílias são convidadas a refletir sobre o momento adequado para introduzir o smartphone, a estabelecer combinados claros de uso e a compartilhar estratégias para lidar com a pressão social exercida entre os próprios alunos. A proposta inclui ainda rodas de conversa, ações educativas e o envolvimento da escola como mediadora desse processo, criando um ambiente em que a decisão de adiar o acesso deixa de ser individual e passa a ser sustentada pelo grupo.

 

DADOS QUE PREOCUPAM


O debate não é isolado. Relatórios recentes mostram que, mundialmente, o uso precoce de smartphones e telas tem se tornado um marcador preocupante da saúde e do bem-estar infantil. Pesquisa do instituto Common Sense Media indica que uma em cada quatro crianças possui um celular próprio antes dos oito anos de idade e que o tempo médio diário de exposição às telas nessa faixa etária gira em torno de 2,5 horas, frequentemente acima do recomendado por especialistas.


Um estudo publicado em 2025 na revista científica Pediatrics, que acompanhou cerca de 1.200 crianças e adolescentes entre oito e 15 anos, constatou que aqueles submetidos a uma redução média de 60 a 90 minutos diários no tempo de tela, por quatro semanas, apresentaram melhora mensurável no humor, redução do estresse e aumento da qualidade do sono. Os pesquisadores destacam que os efeitos positivos foram mais evidentes quando a redução ocorreu com supervisão ativa dos pais, reforçando o papel da mediação familiar.


A preocupação também se reflete nos consultórios médicos. A neuropediatra Larissa Moreira Paterlini, mestre em Neurociências e Ciências do Comportamento, afirma que cresceu significativamente a procura por avaliações motivadas por queixas de desatenção, ansiedade e dificuldades de interação social. “O uso excessivo de telas é um fator de impacto importante, porque pode gerar sintomas semelhantes aos de transtornos do neurodesenvolvimento ou intensificá-los”, explica. “Em muitos casos, torna-se difícil distinguir o que é de origem biológica e o que é ambiental.”


Apesar do avanço das evidências científicas, especialistas alertam que, especialmente na adolescência, estratégias baseadas apenas na proibição tendem a ser pouco eficazes. Para a psicóloga Danielle Zeoti, o smartphone ocupa hoje um lugar que vai além da tecnologia. “Na adolescência, o celular não é apenas um meio de comunicação. Ele funciona como um vínculo social. É ali que estão os grupos de amigos, da escola e até dos professores. Proibir completamente pode significar excluir o adolescente do grupo de pares, que é fundamental nessa fase do desenvolvimento”, afirma.


Segundo Danielle, a construção de limites costuma ser mais eficiente do que a retirada abrupta. “É muito mais eficaz estabelecer combinados claros do que impor uma proibição radical. A questão não é demonizar a tecnologia, mas ensinar o bom uso, com horários definidos, supervisão e critérios.”


As orientações seguem o que recomenda a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). De acordo com o manual Menos Telas, Mais Saúde, crianças menores de dois anos não devem ter qualquer exposição a telas; entre dois e cinco anos, o tempo deve ser limitado a até uma hora por dia, com supervisão; de seis a dez anos, entre uma e duas horas; e, entre adolescentes de 11 a 18 anos, o uso deve ser restrito a duas ou três horas diárias, evitando especialmente o período noturno.


“Adiar o acesso às telas é uma medida protetiva para o desenvolvimento do sistema nervoso central”, reforça Danielle. “O que é perigoso é retirar abruptamente algo que já estava em uso, sem diálogo ou negociação. Isso pode gerar raiva, sensação de exclusão e até o efeito rebote, com uso compulsivo quando o acesso volta a ser permitido.”


Para Marina de Senne, coordenadora do Ensino Fundamental 2 e mãe de duas alunas, a reflexão saiu do campo teórico para a prática ao observar os efeitos do uso intenso de telas no cotidiano escolar. “Aquilo que a ciência mostra em dados, como aumento de ansiedade, automutilação ou depressão, eu vejo na prática”, afirma. “Estamos diante de uma geração adoecida porque a sociedade como um todo está dependente e anestesiada.”


Marina aponta dois fatores como fontes de esperança: a constatação de que adiar a entrega de smartphones é possível e a força do movimento coletivo. “Quando todos os amigos têm celular, fica muito mais difícil negar. O acordo coletivo fortalece as famílias”, avalia Paula Cecchi Said, arquiteta e mãe de duas alunas. Para ela, o principal ganho está no processo de letramento digital, que ajuda pais e filhos a compreender riscos, possibilidades e limites do uso consciente.

 

JOVENS DENTRO DA DISCUSSÃO


Entre os alunos, as reflexões também aparecem de forma madura. Beatriz Andrade, de 14 anos, reconhece os benefícios das telas, mas alerta para os excessos. “As principais consequências do uso excessivo são queda no rendimento escolar, ansiedade, depressão, obesidade, problemas no sono e transtornos de imagem”, afirma. “O problema é quando o celular chega cada vez mais cedo, sem limites.”


Beatriz chama atenção ainda para o impacto das redes sociais na autoestima. “A gente se compara o tempo todo com padrões irreais. Além disso, o bullying é muito mais fácil na internet. As pessoas esquecem que existe alguém do outro lado da tela”, diz. Para ela, o diálogo em casa é essencial. “Quando os pais explicam os motivos, fica mais fácil entender. Se não der para adiar totalmente, o controle parental pode ajudar, desde que não seja algo radical.”


A percepção da estudante encontra respaldo em relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Academia Americana de Pediatria (AAP), que indicam que crianças e adolescentes que passam mais de três horas por dia em telas recreativas apresentam risco significativamente maior de distúrbios do sono, dificuldades de atenção, irritabilidade e sintomas de ansiedade e depressão. A AAP aponta que adolescentes com uso intenso de smartphones têm até 40% mais chances de relatar problemas persistentes de sono.


No Brasil, o debate também se traduziu em políticas públicas. Desde o início do ano letivo de 2025, uma lei federal restringe o uso de smartphones nas escolas, permitindo o acesso apenas em situações de emergência ou para fins pedagógicos. “A medida foi muito importante, e o que vimos no primeiro ano de aplicação foi cada escola adaptando a melhor forma de equilibrar o uso da tecnologia para o ensino. Do ponto de vista comportamental, não houve dificuldades de adaptação no ambiente escolar”, avalia Danielle.


A psicóloga chama atenção ainda para o comportamento dos próprios adultos. Ela explica que crianças passam, em média, mais tempo diante de telas quando os pais também fazem uso frequente de smartphones durante refeições, conversas ou momentos de lazer. “O exemplo comunica mais do que qualquer regra. É muito difícil pedir moderação aos filhos quando os adultos não conseguem se desconectar”, afirma. Segundo ela, iniciativas como o Desconecta ganham força quando vêm acompanhadas de mudanças reais na rotina familiar, com presença, escuta e limites compartilhados.


FUTURO EM JOGO


Segundo seus idealizadores, o movimento não pretende ser um protesto contra a tecnologia. A proposta é promover o uso consciente, responsável e mediado, reconhecendo tanto os benefícios quanto os riscos do mundo digital. Oferecer alternativas, como atividades físicas, lazer, convivência familiar e, sobretudo, o exemplo dos adultos, é parte essencial do processo. “O exemplo dos pais é sempre a comunicação mais poderosa”, resume a psicóloga.


Elisa Lunardi concorda. Para ela, educar para o uso consciente da tecnologia é também um gesto de cuidado. “Cuidar e educar as crianças significa garantir uma infância com mais presença, conversa e olhares nos olhos”, afirma. Um esforço coletivo que, mais do que afastar telas, busca aproximar pessoas. 

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