Pesquisa analisa trajetórias de sucesso escolar nas camadas populares
Professora Débora Cristina Piotto analisa trajetórias improváveis de estudantes das camadas populares e o papel da escola pública na ruptura das desigualdades educacionais
Professora associada da Universidade de São Paulo, no campus de Ribeirão Preto, Débora Cristina Piotto construiu uma trajetória acadêmica profundamente atravessada pela escola pública. Psicóloga, com mestrado e doutorado em Psicologia Escolar e pós-doutorado em Educação, ela atua nas licenciaturas e na pós-graduação em Educação, dedicando-se a investigar desigualdades educacionais e, sobretudo, trajetórias de sucesso escolar em meios populares.
Filha de trabalhadores com baixa escolaridade e egressa integral da rede pública, Piotto transforma uma inquietação pessoal em problema científico: se a escola produz fracasso, como explicar os percursos improváveis de estudantes pobres que chegam à universidade pública? Essa questão atravessa suas pesquisas e está no centro do e-book “Camadas Populares e Sucesso Escolar: um olhar a partir da psicologia histórico-cultural”, obra gratuita que analisa como experiências escolares, redes de apoio e políticas públicas influenciam o acesso de jovens das camadas populares ao ensino superior público. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Sucesso e Fracasso Escolar (GEsSFe), a pesquisadora ilumina caminhos que desafiam leituras baseadas apenas no mérito individual.
Nesta entrevista à Revista Revide, Piotto reflete sobre os temas que atravessam sua pesquisa e seu livro, oferecendo pistas para compreender o papel da escola pública e das políticas educacionais na transformação de vidas.
Você analisa trajetórias de estudantes que chegaram à USP vindos de contextos populares. O que essas histórias revelam sobre os limites das explicações baseadas apenas em mérito individual?
As histórias analisadas em minhas pesquisas mostram que os caminhos para a construção de trajetórias de sucesso escolar em meios populares são heterogêneos e múltiplos, a despeito de semelhanças de condições de vida e de origem social. Contudo, apesar desta singularidade, não compreendo essas trajetórias apenas como individuais. Em que pese a consideração da dimensão subjetiva e a defesa da importância desta dimensão no estudo do acesso e da permanência do estudante pobre no Ensino Superior, não entendo as questões observadas como resultados de uma essência intrínseca aos estudantes nem como oriundas única e exclusivamente de seus empenhos pessoais.
Com efeito, esforço, determinação, perseverança, autodisciplina, dedicação estão invariavelmente presentes nas trajetórias que analiso. Afirmar isso não significa, entretanto, compartilhar a crença ideológica de que quem se esforça sempre alcança. Entre os milhões de jovens que estão fora da Educação Superior, certamente muitos deles também se esforçam, mas nem por isso tiveram acesso a uma universidade pública.
Assim, compreendo trajetórias de sucesso escolar em meios populares como, ao mesmo tempo, individuais e sociais, sendo fruto de uma construção coletiva baseada em uma rede de apoio que, variando em natureza, tamanho e relevância, sempre está presente nas histórias analisadas. Essas redes de apoio que incluem famílias, amigos, igreja, escola, professores, dentre outros fatores, mostrando que o acesso e a permanência de um aluno das camadas populares no Ensino Superior público é uma realização pessoal e social.
Ao longo do livro, você dialoga com a psicologia histórico-cultural. Por que esse referencial teórico é importante para compreender essas trajetórias?
Justamente por entender que essas trajetórias são uma realização pessoal e social, foi preciso lançar mão de uma teoria que permitisse considerar o individual e ao mesmo tempo o social para explicá-las. Uma teoria psicológica que pudesse contemplar o indivíduo, sem, contudo, trazer consigo uma perspectiva reducionista; que considerasse o sujeito em uma abordagem não-individualista.
Isto é, sem compreender que essas trajetórias são resultado apenas de mérito individual. Essa teoria é a Psicologia histórico-cultural. Segundo sua concepção de desenvolvimento, as características tipicamente humanas, aquelas que nos diferenciam de todos os demais animais, como, por exemplo, a fala e o pensamento abstrato, somente podem ser desenvolvidas na relação social com outros seres humanos. Elas não são inatas.
Assim, numa situação hipotética de uma criança não conviver com outros seres humanos, ela, por exemplo, não aprenderá a falar. Nós só desenvolvemos essas características humanas porque nos relacionamos com outros seres humanos que tem em si essas características já desenvolvidas.
A escola aparece no livro não só como espaço de reprodução de desigualdades, mas também como possibilidade de ruptura. O que diferencia essas experiências escolares “potentes” das demais?
Um dos principais resultados da pesquisa que originou o livro foi o fato de que as lembranças escolares daqueles que tiveram acesso a uma educação escolar considerada de melhor qualidade durante a Educação básica foram muito diferentes das dos demais estudantes entrevistados. Suas lembranças foram mais numerosas, mais positivas e relatadas de modo mais fluido e mais vivo.
Analisamos esses resultados à luz da Psicologia histórico-cultural que afirma que o único bom ensino é aquele que promove o desenvolvimento humano, ou seja, que opera transformações no indivíduo. Um ensino que promove o desenvolvimento transforma o sujeito, marca sua história e é vivamente recordado, como observamos em nossa pesquisa.
O papel da família aparece de forma recorrente nas trajetórias analisadas. Que tipo de apoio — simbólico ou concreto — faz diferença nesses percursos?
De modo geral, as famílias estão presentes em trajetórias escolares atípicas nos meios populares. Contudo, é importante notar que, considerando que esses estudantes são provenientes de meios populares, seus pais, via de regra, possuem baixa escolaridade. Assim, a forma com que as famílias ajudam, contribuem ou participam dessas trajetórias é muito diferente daquela observada em famílias de classe média.
O apoio familiar pode se revelar de modos mais concretos como os pais se esforçando para poupar o filho do trabalho permitindo que ele apenas estude ou viabilizando dicas e orientações recebidas da escola ou dos professores visando à continuidade dos estudos. Ele pode assumir também a forma de incentivo, valorização, entusiasmo com os desejos e as conquistas dos filhos. Entretanto, em que pese essa presença recorrente, é preciso ressalvar que, em alguns casos, as famílias não estão presentes ou ainda que o percurso escolar bem-sucedido se faz à revelia delas. Nesse sentido, é importante que se considere também a relevância que a escola e outras instituições sociais podem ter na construção desse tipo de trajetória.

“Considero que a pesquisa mostra a necessidade e a importância das políticas de ações afirmativas no ensino superior público”, destaca Débora
O livro mostra que essas trajetórias raramente são lineares. O que os “desvios”, interrupções e recomeços dizem sobre o próprio sistema educacional brasileiro?
Eles falam sobre as desigualdades educacionais. As trajetórias analisadas mostram, por exemplo, que estudantes de meios populares, quando logram ingressar no ensino superior público, de modo geral, o fazem um pouco mais velhos. Isso porque eles precisaram de mais tempo para, por exemplo, prepararem-se para o exame do vestibular. Precisaram trabalhar, ter reservas financeiras para, somente depois, poderem dedicar-se aos estudos. Suas trajetórias não lineares falam também sobre o fato de que cursar o ensino superior não é um projeto dado desde o início de suas vidas como ocorre com os filhos das classes médias.
Ingressar em uma universidade pública era, em um primeiro momento, absolutamente fora do horizonte de possibilidades desses estudantes. Isso é algo que vai se construindo paulatinamente, a partir de situações sociais que vão se interpondo em suas vidas. Em suma, as interrupções e recomeços falam sobre as dificuldades que estudantes de meios populares enfrentam no acesso e na fruição de seu direito à educação.
Pensando no debate público sobre educação hoje, que contribuições sua pesquisa oferece para políticas educacionais e para a forma como olhamos os estudantes da escola pública?
Em primeiro lugar, considero que a pesquisa mostra a necessidade e a importância das políticas de ações afirmativas no ensino superior público. A Lei de Cotas, por exemplo, representa um marco na história educacional de nosso País marcado estruturalmente por um passado escravocrata vergonhoso. A pesquisa aponta também a necessidade de políticas públicas que valorizem verdadeiramente o professor. Apenas com condições dignas de trabalho, com maiores salários, com formação continuada centrada na prática docente e com lócus na escola é possível melhorar a qualidade do ensino que, como a pesquisa mostrou, marcou e transformou subjetivamente os estudantes entrevistados.
Por fim, penso que a pesquisa indicou que, com condições adequadas, os estudantes da escola pública podem aprender. Para isso, é necessário que tenham acesso ao “bom ensino”, no sentido que Psicologia histórico-cultural atribui a essa expressão. A partir daí, as possibilidades da aprendizagem escolar apontam para a transformação do sujeito, enriquecendo sua personalidade. É isso, afinal, o que as pesquisas realizadas com estudantes de meios populares que têm acesso a universidades públicas vêm evidenciando.
Fotos: Guilherme Fuzaro