Proibição do celular em sala de aula traz ganhos de atenção e convivência, afirmam docentes
Lei que restringe o uso de celulares nas escolas transforma a rotina em Ribeirão Preto, com mais foco, interação e uso consciente da tecnologia
Desde o início do ano letivo de 2025, as escolas brasileiras convivem com uma nova realidade: a restrição ao uso de celulares. A medida, sancionada em janeiro, busca melhorar o foco e o desempenho dos estudantes, além de incentivar a interação social. Em Ribeirão Preto, diferentes instituições de ensino vêm adaptando suas rotinas para atender à norma, com estratégias e percepções diversas, mas um consenso: o impacto na dinâmica escolar é evidente.
Segundo o Diretor Geral da Escola SEB Lafaiete e Head de Operações das Escolas SEB – BU Alta Performance, Zeid Sakr, que trabalha com educação há 28 anos, antes da lei, o regimento interno do colégio já impedia a utilização de dispositivos eletrônicos para aquilo que não fosse pedagógico dentro das salas de aulas. “A lei veio corroborar e trazer força para que a regra fosse cumprida à risca. A principal diferença ocorreu nos espaços comuns, fora das salas de aula, permitindo que a interação interpessoal melhorasse significativamente, já que muitos alunos se privavam do cultivo das amizades para ficar atrás das telas”, explica.
Para Sakr, eles ainda estão em um processo de adaptação. Ele aponta que, no começo do ano, foi possível perceber uma certa crise de abstinência em alguns alunos, mas agora eles estão mais acostumados e cientes de que as regras devem ser cumpridas para o bem deles. “Para os professores, o nível de atenção contínua dos alunos melhorou. É possível manter uma linha de raciocínio por mais tempo que antes, já que eles aprenderam que não devem olhar nos celulares nem para ver a hora”, comenta.

Zeid Sakr, Diretor Geral da Escola SEB Lafaiete, destaca os impactos da proibição do uso de celulares na rotina escolar e a adaptação de alunos e famílias à nova lei
De acordo com Sakr, a maior parte dos sistemas de ensino atuais trazem abordagens digitais que permaneceram ativas. “Uma ou outra adaptação foi necessária, mas em linhas gerais, isso não mudou. Desde que os professores sejam firmes nesse momento, não há problema algum”, pontua. Ele acrescenta que a lei permite o uso para finalidades pedagógicas. “Então, tudo o que é programado para ser executado com auxílio dos dispositivos eletrônicos, é realizado sem problemas”, completa.
Sobre a adaptação dos estudantes, Sakr afirma que, no segundo semestre, os problemas com a nova regra são mínimos. “Alunos mais novos questionam menos, o que facilita a execução das regras. Entre os mais velhos, alguns debatem a lei de forma positiva, mas é preciso cumpri-la”, explica. Ele acrescenta que as famílias, de modo geral, apoiaram a medida. “Tivemos que orientar muitas famílias a não enviar mensagens aos filhos durante as aulas, e as escolas passaram a intermediar essa comunicação, fortalecendo a relação com todos. Hoje, contamos com o apoio integral de todos os envolvidos”, completa.
ADAPTAÇÃO TRANQUILA
Para a FAAP Ribeirão Preto, a adaptação também foi tranquila. Desde que a lei passou a valer, o colégio se organizou para garantir que estudantes e professores se adaptassem de forma harmoniosa. “Nas aulas do Colégio FAAP, o uso de dispositivos eletrônicos sempre foi restrito e permitido apenas para fins pedagógicos. Nossa comunidade entende que estar atento às aulas, sem as pequenas e frequentes distrações emanadas pelos smartphones, é fundamental para a leitura atenta, as discussões profundas e os raciocínios elaborados, ou seja, para o pleno desenvolvimento acadêmico dos estudantes. A adaptação foi tranquila graças ao nosso planejamento prévio”, explica o diretor geral, Franco Giagio.
Segundo ele, a conscientização e a orientação de todos os envolvidos no processo formativo, com relação às motivações e aos impactos positivos da nova norma, foram fundamentais para que a lei fosse cumprida na escola. “A utilização de inteligências artificiais, aplicativos, simuladores e de nosso ambiente virtual (Canvas) continua ocorrendo sob autorização e orientação dos professores. Dessa forma, aumentamos o nível de concentração dos estudantes no decorrer das aulas e a saudável interação entre eles nos intervalos, sem renunciar às boas ferramentas e práticas que o mundo digital oferece à educação”, afirma.

Franco Giagio, diretor geral da FAAP Ribeirão Preto, explica como a escola equilibra tecnologia e foco acadêmico após a restrição do uso de celulares em sala de aula
Franco destaca que a aceitação dos estudantes foi natural e sem resistência ou questionamentos. Para o diretor, o apoio das famílias também foi essencial nesse processo. “As famílias se reorganizaram com relação aos momentos em que a comunicação é possível, em ambientes restritos e após as atividades obrigatórias. A coordenação e a orientação pedagógicas são sempre disponíveis e atuam como intermediários em situações atípicas ou de emergência”, completa.
O diretor reforça a importância de conciliar tecnologia e foco acadêmico. “As inteligências artificiais, as redes sociais e os dispositivos de comunicação cada vez mais integrados com as pessoas e com as 'coisas' é a realidade, e temos que instrumentalizar as novas gerações para ela. A empatia, a cooperação, nossa capacidade de concentração, a coordenação motora fina e a criatividade são (e continuarão sendo) algumas características fundamentais para o indivíduo e para a sociedade e, por isso, devem ser fomentadas e permear o dia a dia escolar. As escolas devem criar as condições para que a tecnologia seja uma aliada estratégica, potencializando o ensino sem comprometer a atenção, o foco e a qualidade das relações interpessoais”, conclui.
DE DENTRO DA SALA DE AULA
Lucélia Melo, professora e neuropsicopedagoga, avalia como positiva a experiência em salas de aula sem celulares. “Houve uma melhora expressiva no comportamento e na participação dos estudantes. Eles estão mais atentos, focados e envolvidos nas atividades e discussões”, comenta. Ela também observa o aumento no interesse e na qualidade das contribuições dos alunos. “A atenção e o foco melhoraram de forma significativa. Percebo também um aumento na participação e no interesse, o que se refletiu diretamente na qualidade das contribuições em sala de aula e no desempenho nas avaliações”, explica.
Mesmo antes da lei, alguns celulares eram usados pedagogicamente, mas a adaptação foi tranquila com o suporte da escola. “Com a nova lei, o trabalho não ficou comprometido, já que a escola disponibiliza recursos tecnológicos para que possamos utilizar, quando necessário”, afirma.

A professora e neuropsicopedagoga Lucélia Melo destaca os benefícios da redução do uso de celulares em sala de aula para o aprendizado e a interação dos estudantes
Os desafios foram maiores no início, devido à resistência dos alunos, mas os benefícios se tornaram evidentes. “Enfrentei inúmeros questionamentos e o desconforto do rompimento de um hábito já enraizado. Com o tempo, a aceitação aumentou e os benefícios ficaram claros”, diz a professora. Ela destaca, também, o resgate do uso de materiais físicos e da escrita à mão. “Notei que eles têm escrito mais à mão e feito mais anotações. Essa prática tem favorecido a memorização e a compreensão do conteúdo, o que interfere positivamente na aprendizagem.”
Além disso, a professora percebe fortalecimento do vínculo entre alunos e professores e maior postura crítica dos estudantes. “Há mais diálogo, mais troca e um ambiente mais acolhedor e colaborativo em sala de aula.”
Sobre o uso futuro dos celulares, Lucélia defende equilíbrio. “Sugiro o uso controlado, com objetivos pedagógicos bem definidos, para que a tecnologia seja uma aliada e não uma distração, mantendo o equilíbrio entre recursos digitais e práticas tradicionais de aprendizagem”, finaliza.
RETORNO POSITIVO
Para Danielle Pavelqueires Rosa Minto, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental – Anos Finais e Ensino Médio do Colégio Auxiliadora, a aplicação da lei trouxe ajustes mínimos à rotina da escola. “O uso de celulares já era restrito, sendo permitido apenas para comunicação com as famílias. A principal adaptação tem sido em relação ao contraturno, especialmente enquanto os alunos aguardam o início das atividades no período da tarde”, destaca.
Ela destaca que a conscientização da comunidade escolar foi essencial. “Em nosso colégio, qualquer mudança é precedida por um processo de orientação e conscientização junto à comunidade escolar, respeitando sempre um período de adaptação. Tivemos grande apoio das famílias, que compreenderam a importância de reduzir o uso excessivo de dispositivos eletrônicos e redes sociais”, explica Danielle.

Danielle Pavelqueires Rosa Minto, coordenadora pedagógica do Colégio Auxiliadora, destaca a adaptação positiva dos alunos e famílias à Lei
Do ponto de vista pedagógico, ela observa que a retirada dos celulares não exigiu adaptações significativas, graças ao uso de tablets como recurso educativo. “Em nossa proposta pedagógica, utilizamos tablets como recurso educativo, permitindo o desenvolvimento de atividades interativas dentro de sala”, diz.
Sobre a reação dos estudantes, Danielle aponta que a resistência foi mais perceptível entre os alunos do que entre as famílias. “Para os jovens, o que mais causa impacto é a limitação de tempo nas redes sociais. Atualmente, o clima é mais tranquilo, pois eles já se adaptaram à nova rotina”, finaliza.
PESQUISA
Uma pesquisa divulgada em maio de 2025, pela Frente Parlamentar Mista da Educação e o Equidade.info, mostrou que 51% dos alunos afirmaram seguir a legislação, percentual corroborado por 60% dos professores e 52% dos gestores ouvidos. O estudo entrevistou mais de mil alunos dos ensinos Fundamental II e Médio, além de professores e gestores, em 149 escolas de todo o país.
VISÃO DOS ALUNOS
NADA DIFERENTE
“Meu dia a dia na escola não mudou muito, porque eu já não usava tanto durante o horário de aula. Não percebi nenhuma diferença no meu foco, atenção ou jeito de estudar. Fora da escola, essa regra não influenciou a forma como eu uso o celular ou organizo meu tempo, porque eu já organizava bem o meu tempo e como usava o celular.”

Pedro Vieira Leite, 16 anos
MAIS INTERAÇÃO
“Em um primeiro momento, estranhei a proibição, mesmo não tendo o costume de utilizar o celular na escola. Com o tempo, fui percebendo que essa restrição melhorou minha relação com meus amigos e professores. A maior mudança foi nos intervalos, onde meus amigos e colegas de outras salas interagem mais, seja com uma conversa simples ou com esportes como basquete e futebol. A proibição do celular permitiu que discutíssemos nossas ideias de forma mais clara e organizada, sem interferência de uma pesquisa na internet. Nos meus momentos de estudo, consigo ter um aproveitamento maior e utilizo o celular de uma maneira mais produtiva, ao invés de ser apenas um passatempo. Acredito que essa regra ainda deve passar por alguns ajustes, como a liberação do uso no horário da saída ou para uma pesquisa com fins pedagógicos”.

Otávio Vicentini, 17 anos
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