Tempo de Estudar
Variações de valores beneficiam consumidor mais atento e disposto a pesquisar, mas, sem planejamento, também podem resultar em complicações financeiras para o ano todo, apontam especialistas
No início do ano, vitrines se enchem de mochilas coloridas e listas de material escolar passam a circular entre famílias e escolas. Garantir tudo o que é necessário para os estudos sem comprometer um orçamento já pressionado por despesas típicas de janeiro é um desafio árduo para a maioria das famílias com crianças e adolescentes em fase escolar. Planejamento e sola de sapato continuam sendo as principais dicas de especialistas e comerciantes que também apontam mudanças no comportamento do consumidor.
A professora Camila Ferreira Fraccadosso de Oliveira, mãe de duas meninas, descreve o desafio com franqueza. “A compra do material no início do ano tem um impacto grande no orçamento, porque além das contas fixas da nossa casa, temos IPVA e IPTU”, afirma. Segundo ela, o que ajuda a atravessar esse período é a combinação entre pesquisa de preços e condições de pagamento. “Buscar lojas que ofereçam parcelamento faz diferença.”
Camila conta que, neste ano, não percebeu um aumento generalizado nos valores, mas notou reajustes pontuais. “Lápis de cor e canetinhas ficaram mais caros”, observa. Ainda assim, a principal forma de economizar tem sido olhar para dentro de casa antes de ir às compras. Mochilas, estojos, lancheiras, réguas e apontadores são reaproveitados sempre que possível. “Como temos duas filhas, a irmã mais velha passa alguns materiais em bom estado para a mais nova. Isso tem dado muito certo”, diz. Em itens de uso intenso, porém, a escolha muda. “Priorizamos marcas mais tradicionais para lápis de cor, canetinhas e borrachas. As mais baratas não compensam, porque a durabilidade é muito menor.”
A experiência se repete em outras casas, ainda que com nuances diferentes. Mãe de duas crianças em fases distintas da vida escolar, a assistente administrativa Raphaela de Paula Leão Pestana sente o peso concentrado da despesa logo no início do ano. “A compra do material escolar tem um impacto significativo no orçamento, porque é um gasto elevado feito de uma só vez e que coincide com outras despesas importantes, como contas fixas e impostos”, afirma.
Os relatos das famílias ajudam a ilustrar um cenário mais amplo, confirmado por levantamentos oficiais. Uma pesquisa comparativa do Procon-SP em Ribeirão Preto analisou 91 itens da lista básica de material escolar em oito estabelecimentos de diferentes regiões da cidade. O estudo revelou variações expressivas de preços entre produtos idênticos. Um apontador com depósito, por exemplo, apresentou diferença de 196,88% entre o menor e o maior valor encontrado. A borracha branca também apresentou uma oscilação relevante, de 150%.
Para Raíssa Baldochi Gaspar Gomes, coordenadora regional do Procon-SP, os dados reforçam a importância da pesquisa antes da compra. “O objetivo da pesquisa é apresentar valores de referência e estimular o consumidor a sempre pesquisar preços”, explica. Segundo ela, a legislação brasileira não prevê tabelamento, o que permite que cada lojista forme seus preços conforme custos e margens. “A livre concorrência explica essas diferenças. Mas, quando o consumidor pesquisa, a economia no valor final da compra pode ser significativa, especialmente para quem tem mais de um filho.”
Raphaela percebeu aumento mais claro nos preços em 2026. “Foi possível notar reajustes principalmente em cadernos, mochilas, estojos, lápis de cor e canetas. As marcas mais conhecidas ficaram ainda mais caras”, relata. Diante disso, a estratégia tem sido abrir mão do rótulo em favor do custo-benefício. “Normalmente priorizamos produtos mais acessíveis, mesmo que não sejam de marcas tradicionais, desde que ofereçam qualidade suficiente para o uso escolar”, diz.
Essa variação, embora chame atenção, não é automaticamente considerada abusiva. O que configura irregularidade, de acordo com o Procon, são práticas como exigir marcas específicas sem justificativa pedagógica, impor locais determinados de compra ou incluir na lista materiais de uso coletivo, como produtos de limpeza ou itens administrativos. “Esses custos são de responsabilidade da escola e já estão diluídos na mensalidade”, ressalta Raíssa. Nesse período de volta às aulas, reclamações envolvendo listas excessivas e cobranças indevidas figuram entre as mais recorrentes.
No comércio, a leitura é a de um consumidor mais atento e menos impulsivo. Benedito José Caturelli, proprietário da tradicional papelaria MEC-Toca, no centro de Ribeirão Preto, projeta crescimento de cerca de 5% nas vendas de janeiro, mas observa mudanças claras no comportamento de compra. “Cerca de 20% dos pais anteciparam a compra do material ainda em dezembro. Garantiram preço melhor e evitaram as filas”, afirma. O aumento das encomendas por WhatsApp acompanha essa lógica de planejamento.
Outro fator percebido no ponto de venda é o enxugamento das listas escolares. “Elas estão mais curtas, tanto em número de itens quanto na quantidade”, diz Benedito. Como consequência, o ticket médio caiu cerca de 10% e hoje gira em torno de R$ 350 por lista, considerando apenas o material escolar básico, sem incluir livros didáticos ou apostilas. Pequenas decisões também pesam no bolso. “Para pagamentos via PIX, o desconto pode chegar a 5%, porque não há taxa para o lojista”, explica. “E é importante não deixar para a última hora, quando o movimento aumenta e as escolhas ficam mais apressadas.”
“Nós pesquisamos preços em diferentes lojas, reaproveitamos materiais que ainda estão em bom estado do ano anterior e compramos apenas o que é realmente necessário”, explica Raphaela. Promoções e descontos também entram na conta. “Tudo o que ajuda a diluir esse gasto faz diferença”, resume.
COMPORTAMENTO ECONÔMICO
Do ponto de vista econômico, esse comportamento mais cauteloso encontra explicação em números que extrapolam o comércio local. O professor de Economia José Rita Moreira lembra que a chamada “cesta de volta às aulas”, que inclui material escolar, livros e uniformes, acumulou alta superior a 5% em 2025, acima da inflação geral. “Isso amplia a pressão sobre o orçamento das famílias”, analisa. Em 2024, segundo ele, os brasileiros gastaram cerca de R$ 49,3 bilhões com materiais escolares, e mais de 80% declararam sentir o impacto relevante dessas despesas no orçamento doméstico.
Na avaliação do economista, a grande dispersão de preços observada em Ribeirão Preto é típica de mercados com forte concorrência e pouca transparência. “O mesmo produto pode custar quase três vezes mais de uma loja para outra. Quem pesquisa menos acaba pagando mais e, na prática, financiando uma margem adicional do varejista”, afirma. Por isso, ele recomenda que os pais consultem relatórios regionais de preços antes de sair às compras e usem essa variação a seu favor, inclusive na negociação.
José Rita Moreira reforça que o reaproveitamento é uma das estratégias mais eficazes para reduzir gastos. “Mochilas, estojos, tesouras, réguas e pastas que ainda estão em bom estado devem ser mantidos. Comprar apenas o que está realmente danificado reduz significativamente a lista”, diz. Ele também orienta pesquisar preços em pelo menos três canais diferentes, papelarias de bairro, grandes redes e lojas online, levando em conta não apenas o valor do produto, mas também frete e prazos de entrega. “Itens sem personagens licenciados, especialmente os mais caros, costumam gerar uma economia relevante, sobretudo para famílias com mais de um filho.”
As compras online e coletivas também entram no radar. Segundo o economista, marketplaces costumam oferecer preços mais competitivos em itens padronizados, principalmente quando combinados com cupons e frete grátis. “Grupos de pais podem se organizar para compras coletivas e obter descontos que chegam ou até superam 10% no valor total”, afirma. Para ele, negociar kits fechados ou compras centralizadas por turma ajuda a reduzir a assimetria de informação e dá mais previsibilidade ao gasto.
Levantamentos do Sindicato do Comércio Varejista (Sincovarp) e da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-RP) indicam crescimento entre 1% e 3% nas vendas de janeiro de 2026, com destaque para os segmentos ligados à volta às aulas, que devem avançar de 5% a 7%. “Ribeirão é um polo regional de consumo e atrai compradores de cidades do entorno”, explica o economista Diego Galli Alberto, coordenador do Centro de Pesquisas do Varej (CPV).
Apesar disso, janeiro segue sendo um mês tradicionalmente desafiador para o comércio em geral, o que reforça a importância das liquidações de estoques remanescentes do Natal. Para o consumidor, isso amplia as oportunidades, desde que haja planejamento e atenção.
O Procon-SP reforça que a informação continua sendo a principal aliada das famílias. Verificar o que pode ser reutilizado, planejar as compras ao longo do mês, evitar gastos concentrados em um único dia e denunciar abusos quando identificados são medidas que ajudam a atravessar o período com mais equilíbrio.