Pessoas com deficiência visual enfrentam barreiras persistentes no mercado de trabalho
Relatos mostram que qualificação nem sempre se traduz em oportunidade e revelam entraves estruturais na inclusão profissional
No Brasil, apenas 29,2% das pessoas com deficiência participam da força de trabalho, segundo o IBGE. Entre pessoas sem deficiência, o índice chega a 66,4%. A diferença ajuda a explicar por que trajetórias como as de Grazielle Fialho, Gabriel Sousa e André Viesba ainda são marcadas por recusas e mudanças de percurso.
Em Ribeirão Preto, Grazielle Fialho, 35 anos, é formada em Pedagogia e possui pós-graduações na área educacional. Apesar da qualificação, não conseguiu atuar na profissão. Após avançar em etapas de concursos públicos, foi impedida de seguir. “O mercado não reconhece. As pessoas elogiam a formação, mas, na hora de contratar, a realidade é outra”, afirma.
Atualmente, ela trabalha como rádiotelefonista e massoterapeuta. Mãe solo, inicia a rotina às 5h30 e segue até a noite, conciliando dois empregos e os cuidados com a filha. A necessidade de ampliar a renda surgiu após um problema de saúde, quando o convênio não cobriu uma cirurgia. “O descanso quase não existe”, diz. Sobre a filha, completa: “Ela me mantém em movimento.”
Se, para Grazielle, o desafio foi permanecer na área de formação, para Gabriel Sousa, 30 anos, o principal obstáculo foi conseguir uma oportunidade. Natural de Batatais, ele se mudou para Ribeirão Preto em busca de melhores condições de inserção profissional. “As respostas eram sempre as mesmas: seu currículo é muito bom, mas nunca retornavam”, relata. A mudança ampliou as possibilidades. “Se eu preciso ir a algum lugar, eu simplesmente vou.”
Formado em Direito, Gabriel atua como assistente jurídico nas áreas cível e trabalhista. Ainda assim, enfrentou propostas incompatíveis com sua formação. “Muitas das vagas não tinham relação com a minha área ou apresentavam condições inadequadas”, afirma.
A rotina de trabalho exige adaptações constantes. O uso de leitores de tela e ajustes em sistemas fazem parte do dia a dia. “Em muitos momentos, é preciso traduzir a própria capacidade, inclusive para si mesmo”, diz.
Ele também aponta que a deficiência visual ainda enfrenta mais restrições em determinadas vagas, principalmente pela falta de preparo das empresas. “Muitas vezes, as propostas chegam como se a gente estivesse preparado apenas para atividades repetitivas.”
As experiências se conectam à análise de André Viesba, 32 anos, morador de Pitangueiras e profissional da área de desenvolvimento humano. Para ele, o principal entrave está na forma como as empresas estruturam seus processos. “O mercado evoluiu no discurso, mas ainda enfrenta barreiras na prática”, avalia.
Em pesquisa, ele identificou que muitas organizações ainda não dominam tecnologias assistivas, o que impacta diretamente a autonomia no ambiente de trabalho. Sistemas não adaptados e equipes despreparadas limitam o desempenho — não pela capacidade dos profissionais, mas pelas condições oferecidas.
Além disso, a inclusão ainda é tratada, em muitos casos, como cumprimento de exigência legal. “A maioria das contratações acontece por obrigação, e não por reconhecimento de potencial”, afirma.
Fora do ambiente profissional, o atletismo faz parte de sua rotina e reforça a disciplina que também marca sua trajetória. Para ele, sem mudanças estruturais, os avanços tendem a ser limitados. “Inclusão não é adaptação pontual, é decisão estratégica.”
As trajetórias apresentam dificuldades no acesso e na inserção profissional. “Muitas vezes, as vagas não acompanham a formação de quem busca espaço”, resume Gabriel. “Pessoa com deficiência não precisa de dó, precisa de oportunidade”, completa.
Grazielle reforça: “Eu não sou a minha deficiência. Eu sou a Grazielle.”
*Com a colaboração da estagiária Gleice Priscila dos Santos
Fotos: arquivo pessoal