"Conheço cada canto dessa cidade"

"Conheço cada canto dessa cidade"

Daniel Gobbi, novo presidente da Câmara, adota tom crítico sobre iluminação pública, questiona projeto do centro administrativo e defende postura institucional diante de impasses no Legislativo

O vereador Daniel Gobbi (PP) foi eleito, no dia 1º de abril, presidente da Câmara Municipal dos Vereadores de Ribeirão Preto. Gobbi recebeu 18 votos favoráveis, Duda Hidalgo (PT) obteve 3 votos. A eleição ocorreu após a renúncia de Isaac Antunes (PL) e Igor Oliveira (MDB) aos cargos de presidente e vice-presidente, respectivamente, devido a questionamentos do Ministério Público de São Paulo (MPSP) sobre a legalidade do terceiro mandato consecutivo de Antunes à frente da Casa.

 

Daniel Gobbi é advogado, empresário e corretor de imóveis. Filiado ao PP desde 2006, foi secretário municipal de Meio Ambiente (2013-2016) e atuou como assessor parlamentar na Câmara. Entre 2021 e 2024, foi vice-prefeito e secretário de Planejamento, onde liderou revisões do Plano Diretor. Em 2024, foi eleito vereador com 3.026 votos, após romper com o ex-prefeito Duarte Nogueira.

 

Apesar da renúncia, Antunes se candidatou para a vaga de 1º vice-presidente e foi eleito com 18 votos e 4 abstenções. Não houve concorrentes. Já para os outros cargos não foram realizadas eleições. Permaneceram nos cargos, Maurício Gasparini (União), como 2º. vice-presidente, Danilo Scochi (MDB) 1º. Secretário e Lincoln Fernandes (PL) 2º. Secretário.

 

A chegada de Daniel Gobbi à presidência da Câmara ocorre em meio a um cenário de tensão política e decisões recentes que ainda reverberam no Legislativo. Ao longo da entrevista, o novo presidente adotou um discurso direto ao tratar de temas centrais da cidade, como as críticas contundentes ao Consórcio Conecta Ribeirão, apontado por ele como ineficiente e oneroso, e a controversa proposta de instalação do novo centro administrativo no prédio do Colégio Marista, que, segundo avalia, carecia de estudos técnicos e poderia gerar prejuízos ao município. Outro ponto sensível, o retorno do vereador Bigodini (MDB) – acusado criminalmente de dirigir embriagado –, é abordado sob a perspectiva da soberania do plenário, adotando uma postura institucional. Em paralelo, Gobbi reforça sua experiência no Executivo e sinaliza que pretende equilibrar diálogo e fiscalização na condução da Casa.

 

Considerando sua experiência como ex-vice-prefeito, como o senhor pretende conduzir o diálogo entre o Legislativo e o governo do prefeito Ricardo Silva ao longo da sua gestão?

Pretendo conduzir o diálogo da melhor forma possível para a população de Ribeirão Preto. Afinal, como sempre destaco, a Câmara é a caixa de ressonância da sociedade, e a sinergia entre Legislativo e Executivo em pautas que sejam benéficas para a cidade certamente terá o pleno apoio dos vereadores. Ao mesmo tempo, nós, parlamentares, temos que ser protagonistas na fiscalização das ações do Governo Municipal, cobrando aquilo que for necessário para garantir a prestação dos serviços públicos. A minha bagagem como vice-prefeito reforça que precisamos olhar com atenção, principalmente, para as questões da saúde, da educação e das políticas públicas na assistência social.

 

O senhor tem defendido avanços na Região Metropolitana de Ribeirão Preto (RMRP), inclusive com a proposta de instalação de um escritório regional. Na prática, como pretende articular politicamente para tirar esse projeto do papel e fortalecer a integração entre os municípios?

Essa prática começou quando estive à frente da Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Urbano, na gestão passada. Participei ativamente de todas as reuniões do Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana de Ribeirão Preto. Foi lá, justamente, que tivemos a certeza de que o Governo do Estado precisa direcionar esforços para chancelar o escritório regional. Como parlamentar, tenho cobrado e oficiado o Estado sobre a evolução dessa discussão. A criação de uma região metropolitana gera diversos benefícios à população, com a integração entre as cidades, visando, principalmente, à otimização dos serviços públicos. Precisamos avançar para uma melhoria significativa na gestão compartilhada do transporte e da saúde pública.

 

O senhor tem adotado uma postura crítica em relação à PPP com o Consórcio Conecta Ribeirão, responsável pela iluminação pública. Diante das notificações feitas pela Prefeitura por problemas na execução do contrato, como o senhor avalia a atuação do consórcio? E como a Câmara pode contribuir para melhorar a execução desse serviço?

Avalio de forma péssima. A Conecta não entregou aquilo que foi prometido. Temos hoje uma cidade mais escura e insegura, e ainda pagamos caro por isso. Sem dúvida, a Prefeitura vai cumprir seu papel e rescindir esse contrato. Defendo isso desde a criação da CEE da Iluminação Pública, que, inclusive, é a grande responsável pela intervenção do Ministério Público nessa situação. Esse consórcio não demonstrou capacidade de investimento para modernizar a iluminação de Ribeirão Preto, muito menos para reduzir os custos da Contribuição de Iluminação Pública.

 

O senhor tem se posicionado de forma crítica à proposta de troca de um terreno na Zona Sul pela sede do Colégio Marista, no Centro, que poderia abrigar a nova prefeitura. Após as avaliações do Creci e o recuo da administração municipal, como o senhor avalia esse desfecho?

Fui secretário de Planejamento e Desenvolvimento Urbano. Conheço cada canto dessa cidade e sei quão valiosa é essa área da Prefeitura, que, na verdade, é um patrimônio público de Ribeirão Preto. Da forma como a proposta foi apresentada, havia risco de prejuízo aos cofres públicos. Além disso, faltou uma análise criteriosa sobre o impacto da mudança do centro administrativo para o prédio do Colégio Marista: qual seria o impacto no trânsito? Quanto custaria a reforma e a adaptação do prédio? O que seria feito da capela, considerando seu tombamento? Enfim, havia mais perguntas do que respostas, o que levou a Prefeitura a retirar o projeto da Câmara. A avaliação do CRECI apenas corrobora o nosso entendimento sobre a discrepância entre os valores.

 

Diante do retorno do vereador Bigodini, a Câmara considera que as sanções foram adequadas? Que postura o senhor pretende adotar em situações semelhantes à frente da presidência?

O plenário da Câmara Municipal é soberano. Vou trabalhar para que a Casa de Leis possa se fortalecer como um local de discussão de pautas estruturantes para Ribeirão Preto.

 

Pessoalmente, como é para o senhor assumir essa cadeira?

Construí um mandato sólido, com ações fiscalizatórias pautadas nas necessidades da população de Ribeirão Preto. Fui indicado pelo ex-presidente e atual vice, Isaac Antunes, a quem tenho profunda gratidão, e, na minha vida, nunca fugi dos desafios. O que me motivou a aceitar tamanha responsabilidade foi a experiência que trago como ex-secretário do Meio Ambiente, de Planejamento e Desenvolvimento Urbano e como vice-prefeito, sempre trabalhando para minimizar os problemas de ordem social da nossa cidade. Assumir a cadeira é uma alegria que compartilho com toda a minha família, um compromisso que assumo com toda Ribeirão Preto e um agradecimento diário que faço a Deus, pedindo também orientação, sabedoria e coerência nas minhas decisões.

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