Entre lápides, a cidade fala
Historiador e guia turístico, Felipe Souza transforma o Cemitério da Saudade em sala de aula, museu a céu aberto e espaço de reflexão sobre a memória e o patrimônio de Ribeirão Preto
Historiador, professor, educador patrimonial e guia turístico, Felipe Souza construiu uma trajetória singular ao transformar a memória urbana de Ribeirão Preto em experiência viva. Seu principal campo de atuação é o Cemitério da Saudade, espaço que ele defende como um verdadeiro museu a céu aberto, onde história, arte, identidade e educação se encontram entre lápides, esculturas e personagens que ajudaram a formar a cidade. Fundador dos grupos culturais Cidade dos Mortos e Ecos do Passado, Felipe desenvolve visitas mediadas, pesquisas acadêmicas e ações de educação patrimonial que ressignificam a relação da população com a morte, o luto e o patrimônio público. À Revide, ele falou sobre sua trajetória, o potencial cultural dos cemitérios, os desafios da preservação histórica e o papel da sociedade e do poder público na construção de uma cidade que saiba cuidar da própria memória.
Sua formação passa pela sala de aula, pela pesquisa acadêmica e pelo turismo cultural. Em que momento essas frentes começaram a se encontrar na sua trajetória?
Tudo começou no Cemitério da Saudade, patrimônio cultural de Ribeirão que eu amo e luto pela sua preservação. Ali é minha sala de aula ao ar livre, ao redor das sepulturas que estão repletas de vestígios e memórias de pessoas que formaram o nosso passado. Ali eu iniciei minhas pesquisas e encontrei um jeito de continuar minha profissão de educador para além dos muros da escola. E é justamente no cemitério que a sala de aula, a pesquisa acadêmica e o turismo cultural se encontram, materializados nas atividades abertas a população que exerço nessa necrópole, como o Projeto Um Ribeirão de Saudade, realizado desde 2023 pelo Grupo Cultural Cidade dos Mortos, fundado por mim e minha esposa, a Produtora Cultural Juliana Petrucelli, e que tem como intuito divulgar o nosso patrimônio funerário.
Como surgiu o seu interesse pelo Cemitério da Saudade e, de que forma esse espaço foi ganhando centralidade na sua pesquisa e atuação cultural?
Quando eu cursava História na faculdade, comecei a visitar o Cemitério da Saudade de Ribeirão Preto com o intuito de desenvolver pesquisas e trabalhos acadêmicos. Desenvolvi alguns; comecei a levar para o cemitério alguns colegas de curso para conhecerem o espaço e suas potências para além da morte, depois levei estudantes de escolas públicas em projetos de extensão; escrevi artigos e monografia sobre o campo santo em questão; participei da equipe de autoria de um livro que continha um capítulo sobre o Cemitério da Saudade e suas potências pedagógicas; me associei a Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais descobrindo mais pesquisadores das temáticas da morte. Conheci e me apaixonei pela área do Turismo e, depois da pandemia, fundei o grupo cultural Cidade dos Mortos e o Grupo Cultural Ecos do Passado - Turismo Histórico.
Muita gente estranha a ideia de visitar um cemitério como experiência cultural. O que esse tipo de visita pode oferecer ao público e por que ela pode ser uma forma de conhecer Ribeirão Preto?
Algumas pessoas estranham ou até sentem medo de visitar cemitérios. Outras se afastam por conta do luto e das lembranças associadas à perda de entes queridos, o que é compreensível, especialmente pelo distanciamento que tivemos da morte e dos ritos funerários a partir da segunda metade do século XX. Antigamente, muitos velórios eram realizados em casa e os cemitérios recebiam visitas frequentes, integrando o cotidiano das pessoas. Hoje, esses espaços vêm sendo ressignificados, principalmente por meio do necroturismo e das visitas guiadas, que funcionam como ações formativas de cultura, história, turismo e arte a partir das lápides. No Cemitério da Saudade, estão sepultadas figuras importantes da história local, como o ex-prefeito Dr. Camillo de Mattos, Quito e Sinhá Junqueira, o jornalista Wilson Toni, o saxofonista El Príncipe Negro e o milagreiro Menino Zezinho. Soma-se a isso um rico acervo de arte tumular, que reforça seu caráter de museu a céu aberto. Ao conduzir roteiros de memória nesse espaço, vou reconstruindo, pouco a pouco, a história de Ribeirão Preto.
Ribeirão Preto tem um patrimônio histórico rico, mas frequentemente negligenciado. Onde você acha que a cidade mais falha na preservação da sua memória?
Para preservar é preciso compreender. Como preservar algo, se não se compreende a sua importância e o seu valor? A Educação Patrimonial deve ser trabalhada desde as primeiras infâncias para que desde pequenos tenhamos o contato com esse ato de cidadania. Todos devem ser parceiros nessas ações de preservação que contribuem para a economia da cidade, o bem-estar da população, a preservação da nossa memória que é parte de nossa identidade e para o turismo regional, que gera renda para a cidade e lazer para o visitante. Políticas públicas maiores e mais abrangentes também precisam ser desenvolvidas e continuadas de maneira mais generosa para apoiar o setor cultural, turístico e artístico; assim como outros compromissos de responsabilidade e apoio que devem ser realizados entre a sociedade civil, o poder público e a iniciativa privada.
Sua atuação em conselhos municipais e projetos com a Prefeitura aproxima a pesquisa acadêmica da gestão pública. Esse diálogo é produtivo ou ainda muito burocrático?
O diálogo é produtivo. Quando você ouve e discute os vários pontos de vista dos diversos setores da cultura e do turismo é possível enxergar a construção de redes de apoio que possam fomentar cada vez mais atividades, ações, políticas públicas e parcerias que valorizem os profissionais da cultura e do turismo que constroem e desenvolvem seus projetos em Ribeirão Preto. Eu faço parte do Conselho Municipal de Turismo (COMTURP) e do Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC); e me deixa fascinado aprender mais sobre as pessoas e seus trabalhos aqui na cidade, seja com patrimônio, música, teatro, hotelaria, produção de eventos, audiovisual, artesanato etc. Os conselhos municipais são de extrema importância para a sociedade e se configuram como instrumentos que garantem à sociedade civil voz e participação na gestão pública. Ainda há desafios a serem superados, mas vejo isso como uma oportunidade de diálogo para gerar transformações cada vez mais abrangentes e que valorizem as áreas da cultura e do turismo.
Quando você olha para o futuro, que cidade você imagina se Ribeirão Preto aprender, de fato, a cuidar do seu patrimônio histórico e da sua memória coletiva?
Ribeirão Preto tem potencial para se tornar referência na preservação do seu patrimônio e da sua memória. Temos um acervo arquitetônico, artístico e documental muito rico, que vem se desgastando ao longo dos anos e, em casos mais críticos, se perdendo. Espero que o fortalecimento contínuo dos trabalhos nas áreas de Patrimônio, Cultura e Turismo desperte maior interesse da sociedade civil, do poder público e da iniciativa privada para esses setores, que são fundamentais para o desenvolvimento saudável da cidade. Cultura, arte, turismo e ações formativas que despertem sentimentos, memórias e criatividade também fazem parte do bem-estar social tão buscado hoje. Uma população saudável é aquela que tem acesso à cultura, ao turismo e ao lazer de qualidade. Para que isso se torne realidade, é preciso trabalho contínuo. Minha contribuição tem sido promover atividades culturais acessíveis, ligadas ao turismo e ao patrimônio, capazes de evidenciar esses tesouros históricos que atravessam o tempo e podem ser preservados tanto na cidade dos vivos quanto na cidade dos mortos.