Experiência e visão no agro
Sócio-fundador da consultoria Markestrat e da Harven Agribusiness School, o professor e consultor tem muito a compartilhar e ensinar quando o assunto é gestão em agronegócios
Ribeirão-pretano nato, o professor e consultor de agronegócios Luciano Thomé e Castro acumula um currículo invejável para seus 47 anos de idade. Administrador de empresas graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP Ribeirão, é mestre e doutor na área pela mesma e tem formação complementar nas universidades de Wageningen (Holanda), Kiel (Alemanha) e Purdue (EUA) – mantém-se como professor afiliado desta última até o momento. Já lecionou na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (2010-2012) e atualmente atua como professor na área de Estratégia de Negócios na FEA-USP/RP e na Harven Agribusiness School, da qual é sócio e coordenador do curso de Administração. Como um dos sócios fundadores da Markestrat Assessoria Empresarial Ltda, criada há 22 anos, tem atuado em vários projetos de gestão no agro, como o movimento “Sou de Algodão”, junto à Abraba (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão). Na entrevista a seguir, Luciano fala sobre essas atuações, os impactos das guerras de Trump sobre o agro local e a Agrishow, prestes a iniciar sua 31ª edição.
Que nicho vocês enxergaram no setor que motivou a fundação da Markestrat, há 22 anos?
Quando criamos a Markestrat, enxergamos a oportunidade de uma consultoria que tivesse um conhecimento bastante especializado em agronegócio e pudesse, com ferramentas de gestão, ajudar empresas do setor. Hoje, 22 anos depois, dada a pujança do agro e a clareza para o país de que o setor é muito estratégico, é fácil entender isso. As grandes empresas de consultoria, advocacia, tecnologia, bancos, têm suas áreas dedicadas ao agro porque é algo muito grande dentro do país. São 24% do PIB (Produto Interno bruto). Levantamos essa bandeira há 22 anos, somos focados nisso. Foi muito bom porque conseguimos, hoje, ter a empresa reconhecida como uma das principais consultorias brasileiras focadas em agro, que compete com as líderes nacionais e internacionais. Trabalhamos com empresas que, muitas vezes, vendem para produtores (insumos) e que lidam com os produtores (cooperativas).
O que é o movimento “Sou de Algodão”, do qual é coordenador estratégico?
Esse é um dos projetos que eu coordeno e que vai completar dez anos em outubro. É um movimento organizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) com o objetivo de estimular o consumo da fibra natural, o algodão, em detrimento das fibras sintéticas, no mercado brasileiro. É um trabalho feito com designers, desfiles de moda, trazendo o algodão de volta para o centro da indústria têxtil brasileira e para o mundo da moda. Como é um movimento feito por produtores agrícolas, que falam com consumidores de roupas na ponta – literalmente da fazenda à loja, ao consumidor –, ele é bastante inovador. É um dos principais projetos da minha carreira em que eu tive a oportunidade, a honra e o privilégio de trabalhar. Hoje, via Markestrat sou coordenador desse projeto e tem uma equipe grande trabalhando nisso, fazendo a execução. Destaco esse projeto pela relevância.
Quais foram as principais conquistas desse projeto até o momento?
Do ponto de vista do consumo aparente, que inclui importações de tecidos e fios, vem fazendo aumentar no Brasil. Saiu de 800 mil toneladas e passou de 1 milhão de toneladas. Isso é muito importante. A indústria têxtil brasileira começa a reagir, com crescimento no uso do algodão, iniciativas de rastreabilidade pelas marcas — permitindo ao consumidor identificar a origem da peça —, além da presença em eventos como o SPFW e projetos que aproximam estudantes e o mercado, fortalecendo a valorização do produto entre empresas e consumidores.
A concorrência com as fibras sintéticas foi o grande motivador desse movimento?
Sem dúvida. E isso não é só no Brasil. É no mundo. Tem vários setores da economia em que a praticidade do sintético, sua versatilidade na indústria e, às vezes, o próprio preço, acabam facilitando a entrada e o crescimento desse material no mercado, que é de origem fóssil (do petróleo) e oscila o preço para cima e para baixo. A gente entende que tem alguns mercados, como o poliéster, o elastano – e o movimento não é contra as mesclas –, mas que a fibra natural também tem seu espaço. Esse tipo de trabalho foi tão bem-sucedido que hoje estamos trabalhando com o pessoal do arroz em um movimento similar, chamado Vai de Arroz. O consumo de arroz no Brasil caiu, de quase 50 quilos por pessoa ao ano, nos anos 1980, para 26, 27 quilos hoje.
Por que, quais substituições o brasileiro está fazendo do arroz?
Tem vários motivos e substituições. Em geral, massas e batatas, outras fontes de carboidratos. Existe um modismo de redução de carboidratos e a percepção de que o arroz é um alimento pobre, o que vem sendo trabalhado com ações de informação sobre seu valor nutricional e reposicionamento junto ao público. A estratégia envolve nutricionistas, influenciadores e mídia, buscando melhorar a imagem do produto e apoiar o setor produtivo. Temos um outro projeto, de café, chamado Brasis. Hoje, o Brasil tem 18 regiões com denominação de origem, desde o Cerrado Mineiro, Alta Mogiana de São Paulo, norte paranaense e até Rondônia.
Como avalia que o agro, na região de Ribeirão Preto, está atravessando essa fase conturbada na economia mundial, com Donald Trump na presidência dos Estados Unidos?
São sinais mistos. Regionalmente, temos o setor da cana, que é muito afetado pelo preço internacional do açúcar e pela demanda de etanol. Neste momento, o mercado de etanol é muito mais interno que externo. Em função da mistura do etanol na gasolina e, inclusive, desse aumento no preço da gasolina, há mais competitividade. É mais demanda de etanol. E o mercado de açúcar oscila. O preço esteve muito bom. Agora está ruim. Então, o momento também para a indústria sucroenergética não é desastroso, mas está longe de ser muito bom. Na verdade, é um momento bem preocupante, apesar de a indústria sucroenergética não ter tanta conexão com combustível fóssil [afetado pelo atual conflito entre EUA e Irã]. Na verdade, ela é uma grande alternativa que permite ao Brasil, eventualmente, aumentar a mistura de etanol, porque o preço da gasolina está muito alto. Hoje existe etanol de milho, por exemplo. A gente está passando por um momento razoável no mercado de cana. Basicamente, os preços não estão interessantes, mas estiveram muito piores. Não vejo o cenário internacional afetando tanto a indústria regional. O que a gente tem é a questão de sempre, de oferta e demanda.
O que percebe em relação à consciência ambiental dos grandes empresários do agro na conjugação de lucro com sustentabilidade, especialmente na região de Ribeirão Preto?
A nossa região é formada por produtores de todos os portes. Temos, no Brasil, uma das leis mais rigorosas do ponto de vista de controle ambiental. Então, a necessidade que os produtores têm de reservar 20% de sua área para preservação - e fora isso os cursos dos rios, os topos das áreas montanhosas - é seguido de forma bastante rigorosa. Os produtores têm que fazer o registro por meio do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e, para isso, precisam estar extremamente regularizados nessas questões de reserva. Fora isso, se olharmos as lavouras de cana, pensando nas usinas e/ou nos produtores que fornecem para as usinas, eles praticam a rotação de culturas, interessante para a manutenção da saúde do solo. Várias práticas que, de certa forma, protegem o ativo natural, o bioma. Então, considero que, sim, os produtores, de forma geral, entendem. A cana, hoje, é uma agricultura muito mecanizada, digitalizada, que trabalha a questão da eficiência, da aplicação racionalizada de insumos, economia de combustível e essa questão da rotação de cultura e manutenção da saúde do solo como estratégia produtiva. Isso tudo é uma forma de preservar a terra como ativo, da usina ou do produtor. De maneira geral, os produtores da nossa região estão muito acima da média. Outra coisa importante é a utilização de produtos biológicos na cultura de cana, de origem natural, em substituição a fertilizantes ou agroquímicos. A entrada desses produtos é uma questão de resultados, mas também de sustentabilidade.
Na última Conferência do Clima, realizada no Brasil, falou-se muito sobre a urgência de um planejamento para retirada gradual do uso de combustíveis fósseis das atividades econômicas. O senhor considera isso viável de ocorrer em algum momento futuro?
Ainda temos uma matriz bastante dependente de petróleo, mas, talvez, o Brasil seja o único país que tem a alternativa de ter fonte para biodiesel, etanol, energia solar e eólica para, de certa forma, diversificá-la mais. É difícil falar de uma eliminação da fonte fóssil, mas há um movimento claro de redução de emissões por meio da combinação de fontes energéticas e tecnologias, com foco crescente em metas de carbono neutro ou negativo até 2050, mais do que na substituição completa dos combustíveis fósseis.
De que forma ou em que medida a aprovação da lei que defende o trabalho 5X2 e jornada de 40 horas semanais deve impactar o agro na região de Ribeirão Preto?
Tudo o que aumenta, regula – com o discurso da proteção ao trabalhador, no nível em que estamos hoje – acaba onerando e gerando o prejuízo, no sentido de que eventualmente são menos vagas. E a direção oposta também, com as flexibilizações que são oportunas, a liberdade de vinculação sindical. Não diferente de outros setores da economia brasileira, o agro reclama não por diminuição de direitos dos trabalhadores, mas por uma questão de flexibilização e de ter liberdade de gerir a mão de obra. Então, essas imposições, em geral, não fazem bem ao setor.
Fale sobre sua atuação como professor.
Ser professor é uma atividade que me realiza muito. É muito bacana. Na verdade, me tornar professor veio meio que junto com o me tornar empresário e consultor. Quando me formei e montei a Markestrat em sociedade com o Marcos Fava, que era meu orientador, eu também fazia Mestrado e, logo no começo dessa formação, fui dar aula na antiga Faculdade COC, aqui em Ribeirão Preto. Depois que terminei o doutorado na Alemanha e nos Estados Unidos, fiquei quatro anos como professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas), em São Paulo, em contato com um perfil de aluno bastante diferente, exigente. Em seguida, me tornei professor da USP de Ribeirão Preto e fiquei ali por cinco anos. Até que recebi o convite para a Universidade de Purdue (EUA), onde atuei por dois anos como professor regular e depois, ao voltar para o Brasil, mantive com eles o acordo de seguir como professor, indo para lá cinco ou seis vezes ano, além das aulas online. Hoje, estou na Harven, que fundamos em parceria entre a Markestrat e o Grupo SEB, onde sou coordenador e professor do curso de Administração. É uma oportunidade de estar junto com os alunos e sentir o que está acontecendo. É uma faculdade nova, com desafio imenso, mas com um grupo incrível de alunos. Comecei a dar aulas com 20 e poucos anos. Hoje, aos 47, mudou muito minha visão sobre nosso papel em sala de aula. Apesar de eu ter toda a atividade profissional, a oportunidade de ter contato e de sentir essa nova geração, ter a oportunidade de formar e contribuir para o crescimento e o desenvolvimento dos jovens, tem sido muito realizador e gratificante para mim. Quando comecei a dar aulas, meu objetivo era apenas conseguir dar aulas. Hoje, entendo que o maior desafio de um professor é contribuir para que os alunos alcancem os objetivos deles e se realizem como pessoas e profissionais.