Paixão Caipira
Além do sucesso em Pantanal, Guito integrou o elenco da série “DNA do Crime”, da Netflix

Paixão Caipira

Guito, que interpretou o Tibério da versão global da novela “Pantanal”, foi de executivo no agronegócio a estrela da dramaturgia, mas sua vibe é música e toda cultura do campo

Com raízes fincadas na roça e o olhar voltado para o palco, Guito — nome artístico de Diogo de Brito Souza — construiu uma trajetória marcada por recomeços e pela paixão em contar histórias, seja com a viola nas mãos ou diante das câmeras. Nascido em Lavras (MG), em uma família de agrônomos afeita a ambientes rurais, também se graduou na área. Formado, trabalhou por dez anos como executivo do agronegócio antes de largar tudo para viver da música e da cultura caipira.

 

Guito ficou conhecido nacionalmente como o violeiro Tibério, na novela “Pantanal”, da TV Globo, e também integrou o elenco da série “DNA do Crime”, da Netflix. Lançou-se na dramaturgia logo após a pandemia, que quase lhe tirou a vida. Desde 2014 tem residência em Ribeirão Preto. Divorciado e pai de dois filhos, atualmente divulga o DVD acústico “Guido ao vivo em Carrancas” e prepara o lançamento de mais dois álbuns – um em inglês – com parceiros variados. Também quer dar continuidade à sua carreira na dramaturgia e diz estar analisando projetos no cinema.

 

Mesmo transitando entre diferentes modalidades de arte, o que não muda em Guito é o objetivo de trabalhar sempre valorizando a cultura rural brasileira. Ele fala sobre isso na entrevista a seguir:

 

Como a música entrou na sua vida?

Comecei na música aos seis anos, influenciado pelas rodinhas de viola na fazenda. Eu e meus irmãos pedíamos pro nosso avô acordar a gente na primeira ordenha, de madrugada, e o Muriço, nosso grande amigo e quase da família, nos ensinava a cantar e fazer as vozes. Cresci ouvindo Leandro e Leonardo, Tião Carreiro e Pardinho, Milionário e Zé Rico, Chitãozinho e Xororó no radinho de pilha. Mas foi depois que meus avós faleceram, um por ano, que realmente aprendi a tocar viola. Meu avô José Maria de Brito, o boêmio da família e rei do bandolim, foi o último. Quando ele se foi, a gente herdou os instrumentos dele e eu, com uns 15, 16 anos, aprendi sozinho, com revistinha e ajuda do meu irmão.

 

Quais são suas referências e influências na viola?

Minhas referências sempre foram Almir Sater, Tião Carreiro, música country americana, muito Bob Dylan e Dave Matthews Band. Gosto da música como mensagem. Caipira, country e rock dialogam muito nisso. O rock é o mais próximo da música caipira, porque os dois fazem música pra si, pros amigos, pras mulheres — não são comerciais, por isso estão fora do mercado hoje. Minha maior influência é o interiorzão do Brasil. As referências americanas vieram depois que aprendi inglês, porque sou muito ligado na letra, na intenção do artista. E não dá pra generalizar sertanejo. Na faculdade, curti muito Jorge & Mateus, porque sempre foram autênticos, nunca seguiram moda. Eles, junto com João Bosco e Vinícius, meus amigos aqui de Ribeirão, mudaram o som quando trouxeram o axé pro sertanejo. A música é onda: teve o rock, depois o axé, o forró.

 

Sempre curtiu esse gênero?

Eu curtia sim, mas também tive uma banda de rock na faculdade. A gente tocava muito Raul Seixas, Cássia Eller, Guns N' Roses... Naquela época, o jovem buscava os rebeldes, né? Era isso, a gente queria liberdade, queria ir contra. Depois de mais velho, fui me ligar nas letras do Bob Dylan, do Bob Marley... E olha, hoje em dia eles seriam cancelados fácil.

 

Chegou a trabalhar como agrônomo após se formar?

Trabalhei dez anos como agrônomo e foi nessa época que eu acabei largando a música. Levava a viola comigo pra onde ia, mas ela só servia pra pegar tênis e botina embaixo da cama. A rotina de trabalho suga o propósito da gente, né? A gente vira escravo e nem percebe. Quando vê, tá ali gastando o dia inteiro pra enriquecer outra pessoa, e não a si mesmo. Nunca parei muito tempo em empresa nenhuma por causa disso. Trabalhava um ano em cada uma. Sempre fui muito questionador, dava minha opinião, discordava... e empresa não gosta disso. Quando percebia que tava virando uma máquina, aquilo me incomodava demais. Eu odiava acordar com a sensação de que não ia fazer nada do que eu queria. Digo que trabalhei poucas vezes na vida... essa foi uma das vezes em que eu não tinha controle de nada e não tava fazendo nada pra mim.

 


“EU ODEIO ACORDAR TENDO A SENSAÇÃO DE QUE NÃO VOU FAZER NADA DO QUE EU QUERO.”


 

Quando e por que veio parar em Ribeirão Preto?

Depois de um mochilão de 40 dias pelos Estados Unidos, em 2012, com um amigo que era sócio de um laticínio em Lavras [Verde Campo], a gente voltou cheio de ideia na cabeça. Nossa viagem era pra curtir, mas como temos esse lado empreendedor, acabamos indo mais em supermercado do que em museu [risos]. Foi nessa que trouxemos o conceito do LacFree, o leite sem lactose, que bombou e virou sucesso. Aí ele me chamou pra trabalhar na empresa e foi quando vim pra Ribeirão Preto, em 2014. Quis morar aqui porque era perto de Araxá, cidade da minha ex-esposa e onde tenho muitos amigos. Fui eu que abri a Verde Campo no Estado de São Paulo, na parte comercial, depois passei pro marketing. A empresa cresceu, virou Brasil e acabou sendo comprada pela Coca-Cola. Fiquei um tempo na Coca também, rodando o Brasil todo. Mas aí, quando virou Coca-Cola, eu me senti domesticado de novo, só mais um número, e isso nunca me atraiu. Nessa época, meu filho já tinha nascido e logo depois veio minha filha. Quando fui promovido, a gente se mudou pra São Paulo, mas a verdade é que a vida não encaixou lá. Nem pra mim, nem pra minha ex-esposa. No auge financeiro e da carreira foi quando eu mais me senti escravo. Foi aí que decidi largar tudo pra dedicar à família. Voltei pra Araxá, pra perto dos meus ex-sogros, e construímos a vida que ela queria. Fizemos casa, laboratório pra ela e eu virei violeiro. Pensei: o que eu sei fazer? Tocar. E foi isso. Em 2017 decidi me dar cinco anos pra viver profissionalmente da música.

 

E viveu?

Em 2018, eu estava completamente quebrado. Montei um bistrô em Araxá e vivia de tocar em barzinho. Em 2019, a coisa começou a andar para mim. Comecei a fazer uns shows maiores, montei uma estrutura numa Ford Rural, que era motorhome. Eu fazia shows nela pelo Brasil todo, tocando sozinho. Tocava viola, gaita. Tinha que impressionar de alguma forma. Mas aí veio a pandemia e quebrou o meu negócio.

 

Como foi na pandemia?

Na pandemia, fiz um show em Goiânia e peguei covid. Bem quando o mundo parou, em 15 de março de 2020. Fiquei bem mal. Teve um dia em que achei que eu ia morrer. Tomava banho deitado, não conseguia ficar em pé, com falta de ar danado. Tentei ir para o hospital e não tinha mais vaga. Eu dormia no motorhome e ficava dentro de um celeiro. Falei para o dono do haras onde eu estava tocando: “deixa um carro pronto aí porque de hoje eu não passo”. Fiquei 30 dias em Goiânia, isolado, porque fecharam a fronteira do Estado. Minha maior preocupação era com meus filhos. Em um dia em que achei que ia morrer saí pra caminhar no meio das árvores, deitei no chão e falei com Deus: “Tenho muitos sonhos ainda, não me leva agora.” Uns três meses depois, vi que ia ter a novela “Pantanal” e mandei um direct [message, do Instagram] pro autor, o Bruno Luperi. A Globo me ligou, fiz o teste e deu tudo certo. Na hora eu só pensei: é Deus atuando, o papel é meu.

 

Quanto tempo de gravação da novela e como foi fazer?

Foram dois anos de gravação e cheguei a morar uns quatro, cinco meses no Pantanal e depois no Rio. Foi uma experiência incrível, com um clima de família que o elenco mesmo dizia ser raro. Acho que o isolamento ajudou muito nisso. Levei minha Rural, som, viola e logo no primeiro fim de semana já fiz festa por lá. Eu e o José Loreto montamos um lounge para ver o pôr do sol, e esse clima bom acabou refletindo na novela.

 

Não fez mais nada em dramaturgia depois?

Depois que “Pantanal” acabou em 2022, fiz a série “DNA do Crime”, da Netflix, e depois um musical chamado “Brasil Raiz”, que era pra ser com o Jackson Antunes, mas ele acabou não podendo. Fizemos oito apresentações pelo interior do Brasil. O setor rural tem poucas histórias contadas na mídia. Cinema não tem, e novela rural é uma a cada dez anos — e sempre faz sucesso porque o Brasil é rural, todo mundo sente essa nostalgia. Eu sempre falo: é o interior que guarda a cultura do país. A cidade absorve tudo, o bom e o ruim. O que é bom a gente leva — carro, metodologia, empreendedorismo — mas a receita da avó, o cheiro da lavanda, o queijo cru, a goiabada, tudo isso está no interior. Até as roupas que eu uso, o jeito que eu ando, na cidade é estranho, mas no interior não é. Porque é lá que a gente preserva a cultura de verdade. E a minha missão como artista é essa: existir. Não é nem divulgar, é existir. A gente é enfraquecido comercialmente, mas o importante é ter algo pra deixar pro meu filho, pra ele ter o que escutar.

 

O que faz atualmente?

Hoje vivo de shows pelo Brasil, tocando viola. Montei um show grande, com banda, painel de LED e vídeo, porque cada evento pede um formato. Em shows maiores, o público quer se divertir, namorar, então levo músicas mais animadas, incluindo Jorge & Mateus, Chitãozinho, Milionário & Zé Rico, Leonardo e até Raul Seixas, que combina muito. No meu DVD "Guito ao Vivo em Carrancas", gravei tudo ao vivo, do meu jeito, com minhas referências, meus cavalos, moto, camping e o Zé Geraldo participando. Quis mostrar quem eu sou e de onde venho — o Sul de Minas — de forma autêntica, sem firula.


Lucas Nunes

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