História da vida real
“Quero mostrar o lado humano das trajetórias”, afirma Lucas

História da vida real

Recém-lançado, o filme “Zeferina - Maria Brasileira”, é o segundo longa-metragem de Lucas Bretas, jornalista e cineasta ribeirãopretano

A história de Lucas Bretas Arduino com o jornalismo começou aos 17 anos, em uma experiência no rádio, em 2001, mesmo antes de se formar. Como repórter, durante mais de 15 anos ele alimentou a convicção de que gostava de noticiar fatos. Agora, à frente da Grattitude Films, empresa que fundou em 2018, junto com o amigo jornalista Samuel Prisco, ele atua com projetos audiovisuais que contam histórias reais. “Demorei um pouco, talvez bastante, pra entender que gostava de contar histórias genuinamente humanas, que, na verdade, queria mesmo é mostrar o lado humano das trajetórias, levar ao público as histórias de carne, osso, suor, lágrimas e tudo mais que envolve a existência humana”, comenta. Seu primeiro filme, "1538⁰C - The Iron Human", foi um documentário sobre a trajetória de Sérgio Buonarotti, triatleta de Ribeirão Preto baleado em um assalto. Na entrevista a seguir, Lucas conta um pouco mais sobre sua trajetória no cinema e seu segundo trabalho: o filme “Zeferina. Maria brasileira”. Confira! 


Você construiu uma trajetória bonita no audiovisual. Quais marcos, vitórias, tropeços e descobertas o moldaram como diretor?

 

Nunca fui cinéfilo (sigo não sendo), mas sou um apaixonado por gente e gosto de levar para as telas o que essa gente vive em sua mais pura essência. Tem uma frase de Winston Churchill (primeiro-ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial) que eu gosto bastante, ele diz: “Sucesso é caminhar de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo.” Acho que esse pensamento de Churchill traduz bem o que representa a batalha profissional do dia a dia dentro da produção cinematográfica. A busca por recursos é permeada por derrotas e mais derrotas… Fazer nascer um longa-metragem é um teste de paciência, caráter e personalidade, uma vez que, ao longo do processo, são inúmeras as ofertas para uma desistência. Mas é isso que decidi fazer pelo resto da vida, então prefiro acreditar que vamos vencer pela insistência.

 


O que te conduziu, especificamente, para a história da Zeferina?

 

Como repórter de rádio entrevistei a Maria em 2001, justamente quando ela venceu a São Silvestre e entrou para história. 20 anos depois, em dezembro de 2021, a gente fechou o acordo para fazer o filme da biografia dela. Eu achava que conhecia sua trajetória, por tê-la entrevistado diversas vezes ao longo de duas décadas, mas fui ingênuo. Quando entrei de cabeça mesmo no projeto e fui me aprofundar no trabalho de pesquisa para o filme, pude, de fato, entender a potência absurda que foi (e ainda é) essa mulher incrível chamada Maria Zeferina Rodrigues Baldaia.

 

 

Todo filme é um conjunto de escolhas. Que decisões visuais, narrativas ou estéticas foram fundamentais nesse projeto?

 

Nós resolvemos trazer um perfil de dramatização para esse documentário com a intenção de conseguir contar a história desde a infância da Maria na década de 1970. E desse período em diante, passamos pelos anos 80, 90, 2000 e chegamos aos dias atuais. Em termos de produção, precisamos de um trabalho mais aprofundado com elenco; direção de arte e figurino. Na narrativa, o desafio foi quebrar a cronologia de uma forma que as pessoas não ficassem confusas e, claro, tivessem toda a percepção da carga emotiva que carrega a nossa protagonista.

 

 

Filmes sobre figuras brasileiras, reais e potentes, sempre carregam uma responsabilidade. Como equilibrar respeito, sensibilidade histórica e liberdade criativa ao retratar a vida de uma esportista tão simbólica?

 

Cada profissional tem a sua forma de trabalhar e as suas maneiras de encontrar soluções ao longo do processo criativo. Pessoalmente, meu maior medo era não estar profissionalmente à altura de contar a história da Maria que é, por si só, algo extraordinário e maravilhoso. Teoricamente, isso soa como algo ruim. No entanto, no meu caso, funcionou como um ininterrupto estado de alerta, era como se eu estivesse o tempo inteiro com um senso de urgência ligado dentro da minha cabeça. Obviamente que isso foi desgastante do ponto de vista pessoal, com muitas noites mal dormidas, mas me levou a um lugar de extrema atenção e preocupação que eu precisava, de fato, estar. A maior recompensa foi apresentar o filme para Maria e para família dela e não receber sequer uma dica ou retoque em relação ao que produzimos, ou seja, a história estava respeitada de forma integral.

 

 

Qual é a importância de Ribeirão Preto nesse filme e o que você imagina que a cidade pode sentir, aprender ou reconhecer nele?

 

Ribeirão Preto é cenário do filme e faz parte do contexto geral da história. Gravamos nas ruas da cidade, inclusive com cenas noturnas, rodamos cenas também na Cava do Bosque, no Teatro de Arena e em ambientes residenciais. Com certeza, quem é daqui vai se identificar com os cenários e, principalmente, com o roteiro.

 

E para você, como artista, o que esse projeto representa? Você o enxerga como uma virada de chave, um amadurecimento, um risco… ou tudo isso junto?

 

Concretizar um longa-metragem é sempre um acontecimento, uma conquista muito significativa, para mim e para toda minha equipe. Especialmente depois de quatro anos de envolvimento com esse projeto. Teve risco, sim, porque passamos 2022, 2023 e 2024 sem os recursos aportados pela renúncia fiscal das empresas patrocinadoras, portanto foi um desafio muito grande, uma ginástica financeira, para manter esse projeto vivo. Em 2025, quando os recursos foram liberados pela ANCINE, conseguimos acelerar o processo de conclusão do filme com o restante de cenas e entrevistas que precisávamos gravar e depois o trabalho de pós-produção, que foi concretizado em pouco mais de cinco meses. Foi apertado, mas muito gratificante.

 

Alguma história em particular que se recorde para comentar, durante o processo de produção do filme?

 

Um aprendizado, talvez…Nas diárias de gravação, que fizemos as reconstituições de momentos marcantes da infância e adolescência da Maria, ela esteve no set de filmagem para acompanhar e por muitas vezes nós pudemos perceber que ela estava bastante emocionada em ver o que estávamos recriando e recontando. Era uma emoção muito genuína e transparente da Maria que, ao mesmo tempo, nos passava uma sensação de segurança de que estávamos no caminho certo dentro das nossas ideias de como voltar algumas décadas no tempo.

 


Do que exatamente trata Zeferina Maria Brasileira e qual é o ponto mais sensível ou mais luminoso que o filme toca?  

 

Quando se trata da cinebiografia de uma atleta, é óbvio que o público espera bastante ação dentro das ambientações de competição. E essa parte esportiva, com certeza, está contemplada durante todos os 124 minutos do filme. Mas, apesar do esporte ser o pano de fundo que está ali o tempo inteiro, o grande fio condutor dessa história é o drama familiar e pessoal de uma mulher que enfrentou incontáveis desafios pessoais para correr, literalmente, atrás dos seus sonhos. O nome do filme traz justamente essa característica de conversar com diversas camadas da sociedade ao mesmo tempo… A nossa Maria, a Zeferina, é também mais uma Maria entre tantas outras Marias brasileiras que passaram e, certamente, ainda passam por dificuldades e desafios diários.

 

 

Como está a programação de pré-estreias, sessões, circuito de exibição? Onde e quando o público vai poder assistir ao filme?

 

Já fizemos algumas sessões. Nesta sexta-feira, 19 de dezembro, vamos fazer uma sessão na Oficina Corisco, no bairro Monte Alegre, em Ribeirão Preto. Entre os dias 27 e 30 de dezembro, o filme fica em cartaz dentro da Expo São Silvestre no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, como parte das agendas de comemoração pelos 100 anos da Corrida Internacional de São Silvestre. Em janeiro teremos uma sessão aberta ao público e gratuita em Brodowski, na praça em frente ao Museu Casa de Portinari (ainda sem data). E a partir de 2026, vamos entrar em negociação com plataformas de streaming e canais de TV para a distribuição do filme.

 

 

Depois de mergulhar tão fundo numa personagem real e numa história tão forte, o que vem pela frente? Já existem próximos projetos?

 

Nosso próximo projeto se chama “Castelo de Bonecas”. É novamente uma história real. Nesse filme contamos as trajetórias de Cotinha e Gláucia que são de Araraquara e foram personagens do primeiro caso de adoção reversa do Brasil. À época, em 2016, a Gláucia com 27 anos de idade, adotou a Cotinha que tinha mais de 60 anos. Vamos tentar gravar em 2027. 

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