No caminho da força
Foto: Johnnie Tonasso / Divulgação

No caminho da força

Músico e empresário Alê Balbo mistura espiritualidade, texto, imagem e som para criar uma narrativa multimídia sobre autoconhecimento

Um conto musical xamânico”. A definição resume a intenção simbólica e espiritual de “No Caminho da Força”, obra híbrida do músico e empresário Alê Balbo. Publicado pela Oasys Cultural, o livro, acompanhado de uma trilha sonora original, propõe uma experiência sensorial completa.


Em formato 17x24 cm e ilustrado pelo artista Wilson Gandolpho, com projeto gráfico do designer Wilmar Targa, o livro narra a jornada de Rudá, descendente dos antigos incas que parte das montanhas Terra do Peru em busca de si mesmo. A travessia é guiada pelos cinco elementos da natureza segundo a filosofia – água, fogo, ar e éter –, marcam os encontros, as perdas e visões, que refletem também a caminhada interior de Alê. Cada capítulo é acompanhado por uma composição criada a partir de sound healing, técnica que utiliza sons e vibrações para equilibrar corpo e mente. O leitor acessa as faixas por QR Codes, integrando palavra e som em uma única narrativa.


Alê é um empresário conhecido em Ribeirão Preto. Está à frente do clube Magic Gardens e dos espaços de eventos Mansão Galo Bravo e Le Coq. Ele diz que “‘No Caminho da Força’ representa um ponto de convergência entre a vida empresarial e espiritual”. 


O processo do livro, que tem lançamento oficial no próximo dia 25 de novembro, na Livraria Travessa do RibeirãoShopping, começou após um mergulho em práticas de autoconhecimento com medicinas da floresta, retiros espirituais, além de muita pesquisa sobre tambores xamânicos, taças tibetanas e instrumentos ancestrais. 


A seguir, Alê Balbo fala sobre esse processo, o nascimento do personagem Rudá, a relação entre espiritualidade e música e o desafio de equilibrar arte e negócios.

 

O livro “No Caminho da Força” é descrito como um “conto musical xamânico”. Como surgiu a ideia de unir literatura, espiritualidade e música em uma mesma obra?

 

Em 2020, durante um tratamento com Ayahuasca, diversas novas percepções foram despertadas e entre elas o desejo de escrever um livro. Quis algo diferente e consegui reunir literatura com técnicas de Sound Healing, criando uma ficção de fantasia com trilhas sonoras originais. Assim nasceu o Projeto O Elemental, um conto musical xamânico que une espiritualidade, aventura e magia com ilustrações realistas e trilhas sonoras envolventes.

 

O protagonista Rudá vive uma jornada de autoconhecimento guiada pelos elementos da natureza. O quanto essa história reflete a sua própria trajetória pessoal?

 

Boa parte da narrativa do livro tem conexão com a minha própria jornada, em especial após o ano de 2020, quando passei por momentos bem ruins e iniciei uma busca por algo que estava um pouco distante dentro de mim: a espiritualidade. Há datas e acontecimentos especiais na obra que se conectam com os diversos acontecimentos da minha vida.

 

A trilha sonora é parte essencial da experiência. Como foi o processo de compor as músicas? Poderia falar um pouco sobre a técnica sound healing e quais instrumentos foram usados?

 

O processo de produção foi totalmente orgânico, sem referências externas. Usei meus conhecimentos de Sound Healing, conectando a essência da narrativa, com instrumentos como marimba, kalimba, taikôs, tambores xamânicos, kailani, handpan, etc. O processo de compor cada trilha aconteceu naturalmente, ou seja, em uns momentos as trilhas e instrumentos surgiram para criar o contexto da narrativa, e em outros a história criou a atmosfera para as músicas. O Sound Healing é uma prática terapêutica que utiliza vibrações sonoras para promover relaxamento, equilíbrio e cura interior. Cada instrumento possui uma frequência capaz de dialogar com partes específicas do corpo e da mente. 

 

Você pesquisou sons de tambores, gongos, taças tibetanas e flautas. Qual foi o instrumento ou frequência que mais o impactou emocionalmente durante a criação?

 

Existe um instrumento de grande importância em todo o meu processo com o Projeto O Elemental: um taikô importado da China chamado Odaikô. Seu som grave e poderoso representa o elemento terra em sua essência, com frequências baixas que transmitem força, estabilidade e aterramento. Um som potente que faz você colocar os pés no chão, ou seja, sair do “mundo da lua”. O Odaikô é um instrumento ancestral, usado em rituais há séculos, e tem o poder de despertar algo primitivo, instintivo que existe em todos nós. Cada batida é uma forma de lembrar que estamos vivos e conectados à terra.

 

Você faz questão de reforçar que o livro é completamente autoral e não usa inteligência artificial. Qual é a sua opinião sobre o uso de IA na arte?

 

Sim, tanto as trilhas quanto a narrativa foram construídas de forma natural e orgânica. Para a criação da história do livro e das trilhas, não foi utilizada inteligência artificial. No caso do livro, contei com o apoio da professora de português Marina Severian e de Valéria Martins, da Agência Literária Oasys Cultural (RJ), que contribuíram para as correções na obra. Já nas trilhas, contei com toda a experiência do amigo e parceiro Éder Hanna. Vejo a IA como uma ferramenta útil em diversos campos, mas acredito que, na arte, o essencial é a intenção humana. Criar é transmitir uma experiência vivida, e isso a máquina não faz.

 

Como foi a parceria com o ilustrador Wilson Gandolpho e o designer Wilmar Targa para dar forma visual à jornada de Rudá? Vocês já se conheciam?

 

Uma parceria muito bacana, recheada de muito aprendizado para nós todos. Nossos caminhos se entrelaçaram de forma natural em um momento em que buscávamos fazer algo diferente. O encaixe profissional entre nós três foi perfeito! Wilson tem um traço que mistura realismo e fantasia e captou a alma do livro; Wilmar trouxe um olhar moderno e delicado para o projeto gráfico, criando harmonia entre texto, imagem e som. Foi um trabalho colaborativo que me ensinou muito sobre confiar na sensibilidade do outro. 

 

Você vem do mundo dos negócios e da música. Como equilibrar o lado empresarial e o lado espiritual-artístico?

Com uma boa gestão do tempo. Aprendi a dividir meu tempo da melhor forma possível, buscando um melhor rendimento dia a dia nas atividades empresariais e espirituais. Costumo programar minha semana aos domingos, preparando minha agenda com horários, compromissos e afazeres bem diversificados. O segredo é compreender que cada área exige uma energia diferente. O empresário em mim busca resultado e organização; o artista busca entrega e sensibilidade. Tentei aprender a alternar essas frequências, sem deixar uma dominar a outra. 

 

Entre 2010 e 2020, você viveu um período de perdas e transformações que te levaram a um novo caminho. Poderia falar um pouco sobre esse período e como esse ciclo influenciou o projeto e o livro?

 

Esse período foi extremamente turbulento. Logo após a perda do meu pai, em setembro de 2010, as empresas enfrentavam altas dívidas, que vinham se acumulando desde o final dos anos 1990, e tudo acabou explodindo, após sua morte, nas minhas mãos. Enfrentei os maiores desafios da minha vida, assumindo a responsabilidade de resolver problemas bem complexos.A dor desse período me fez questionar o sentido da vida, o propósito do trabalho e até o que eu queria ser. Foi nesse abalo que comecei a buscar a espiritualidade como forma de sobrevivência emocional. A floresta, os rituais e o silêncio me ensinaram a ouvir a mim mesmo. Sem essa fase difícil, “No Caminho da Força” jamais existiria.

 

Você é pai e marido. De que forma sua família entendeu o projeto? Essa influência também pode ser vista no livro? De que forma?

 

Foi maravilhosa a conexão entre o projeto e minha família. Tudo se entrelaçou de forma harmoniosa, trazendo boas vibrações para todos e ainda mais sentido à minha história e às produções musicais. Eles compreenderam que não era apenas um projeto artístico, mas um processo de cura pessoal. Essa presença familiar está simbolicamente representada nas relações de afeto e companheirismo que Rudá vive na trama, além de segredos que serão descobertos pelo leitor.

 

O livro tem formato e acabamento de álbum de aventura, como ‘Tintin’ ou ‘Asterix’, mas traz uma proposta de reconexão interior. Como foi unir esses universos, o lúdico e o espiritual?

 

Foi bem interessante, e melhor ainda foi criar metáforas em cima de muitos fatos que ocorreram na minha vida para o contexto literário do livro. A fantasia pode ser uma linguagem poderosa para falar de temas profundos. Ao usar elementos de aventura, é possível traduzir experiências espirituais de forma acessível e simbólica. 

 

Você poderia contar um pouco sobre o nascimento do personagem Rudá e o que ele simboliza dentro da sua busca pessoal?

 

Rudá simboliza a força e a determinação em provar para si mesmo seus potenciais e habilidades. Em vários momentos é colocado à prova para superar diversas perdas em sua jornada. Talvez ele represente o que eu sonharia ser em um mundo de ficção de fantasia. Rudá também é uma extensão das minhas virtudes e fraquezas. Ele é a coragem que todos nós precisamos despertar para enfrentar nossos próprios medos. Ele aprende que a verdadeira força não vem da luta externa, mas da capacidade de se reinventar internamente.

 

Já pensa ou trabalha em uma continuação de “No Caminho da Força” ou em algum novo projeto?

 

Sim, já estou escrevendo a continuação da jornada de Rudá. Deixei várias lacunas de forma intencional para que o protagonista as resolva em um segundo livro e, quem sabe, até em um terceiro.

 

Como o leitor deve vivenciar esse conto musical que mistura uma história com trilhas sonoras criadas a partir de técnicas de Sound Healing?

 

O leitor é quem escolhe como deseja vivenciar a obra. Pode ouvir as trilhas criadas para cada capítulo enquanto lê ou de forma separada. Elas não acompanham exatamente o início e o fim de cada parte da narrativa, mas sim a sua essência. Uma sugestão é ler com fones desligados e, ao final de cada capítulo, ouvir a trilha sonora de olhos fechados, permitindo uma imersão sensorial que conecta diferentes sentidos do corpo e da alma. A intenção é que cada pessoa construa sua própria experiência. Algumas se conectam mais com o som, outras com a imagem, outras com a palavra. Não há certo ou errado. 

 

Como a gente já falou, o projeto tem um pouco da sua busca. Como você espera impactar o público, visto que cada um tem sua própria busca?

 

Tudo o que foi escrito e produzido através das trilhas, foi por um único propósito: ajudar as pessoas a se conectarem com a história, permitindo uma vivência verdadeira e imersiva através das trilhas sonoras e da narrativa literária. Desejo que esse conto musical inspire e irradie boas energias a todos. Meu desejo é que o leitor se reconheça na jornada de Rudá, que perceba que todos nós carregamos nossos próprios desafios e transformações. A arte tem esse poder de espelhar a alma. Se alguém terminar o livro sentindo um pouco mais de paz, de coragem ou de gratidão, então o propósito está cumprido. 

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