O agro não pode parar

O agro não pode parar

Matheus Kfouri Marino defende tecnologia e cooperativismo como caminhos para o setor superar desafios como crédito restrito, clima extremo e incertezas políticas globais

À frente do Conselho de Administração de uma das maiores cooperativas agropecuárias do Brasil, Matheus Kfouri Marino acompanha de perto os desafios e as transformações do agronegócio. Engenheiro agrônomo, pesquisador e produtor rural, ele lidera uma instituição que reúne mais de 40 mil cooperados e promove anualmente a Coopercitrus Expo, uma das principais vitrines de tecnologia, inovação e negócios do setor, realizada nesta semana em Bebedouro. Nesta entrevista à Revide, Marino faz um balanço da edição deste ano da feira e analisa temas que preocupam o campo, como o acesso ao crédito, as mudanças climáticas, o cenário político, as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos e o papel do cooperativismo para manter a competitividade do agronegócio brasileiro.

 

Que balanço o senhor faz desta edição da Coopercitrus Expo?
O balanço é extremamente positivo. Os negócios estão andando muito bem, principalmente no segmento de fertilizantes. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo agronegócio, o produtor continua investindo. Outro aspecto muito importante foi a qualidade da programação e da participação do público. Estiveram presentes representantes dos poderes Executivo e Legislativo do Estado de São Paulo, integrantes do governo federal, parlamentares, secretários, lideranças do cooperativismo e milhares de cooperados. Essa presença demonstra a relevância que o evento conquistou para o agronegócio brasileiro. As famílias estiveram presentes, e o produtor compareceu para conhecer novidades e fazer negócios. Podemos dizer que a feira superou nossas expectativas.

 

Quais temas dominaram as discussões desta edição?
Tivemos alguns debates extremamente ricos. Um deles foi sobre sucessão familiar, durante o encontro da Liga Coopercitrus Jovem, formada pelos filhos e netos de cooperados que participam de programas de formação e estágio dentro da cooperativa. Foi um momento muito especial porque reunimos diferentes experiências. Esse debate mostrou que sucessão não é apenas uma questão jurídica ou administrativa. Ela passa pelo aspecto emocional da família. É preciso construir valores, preparar as pessoas, trabalhar sentimentos e ter alguém que consiga pacificar o processo quando necessário. Muitas vezes, o desafio não está na empresa, mas nas relações familiares. Para o agro brasileiro, discutir sucessão é discutir continuidade. Se não prepararmos as novas gerações, colocamos em risco não apenas as propriedades, mas todo o desenvolvimento do setor.

 

A feira também abriu espaço para discutir crédito e endividamento do produtor. Esse foi um dos assuntos mais presentes?
Tivemos um encontro dos principais executivos financeiros das cooperativas brasileiras, promovido pela OCB [Organização das Cooperativas do Brasil], para discutir justamente o financiamento do agronegócio. Também realizamos um painel com representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária, como Pedro Lupion e Arnaldo Jardim, além de dirigentes do cooperativismo, para explicar aos produtores como funcionará a medida provisória que permite a renegociação das dívidas do setor. Existe muita dúvida no campo. O produtor quer saber quem poderá renegociar, quais operações serão contempladas, quais documentos serão exigidos, quando a medida começará a produzir efeitos e qual será o papel das instituições financeiras.

 

O senhor diz que o agronegócio vive uma "tempestade perfeita". Por que utiliza essa expressão?
Porque hoje diversos fatores negativos acontecem ao mesmo tempo. Temos uma taxa de juros extremamente elevada, um ambiente de custos de produção maiores, preços menores para diversas commodities e, em muitas regiões, problemas climáticos que reduziram a produtividade. Quando esses fatores acontecem simultaneamente, o resultado é um aumento do endividamento do produtor e uma redução da sua capacidade de investimento. Não é um problema exclusivo do agro. Diversos setores da economia enfrentam dificuldades semelhantes. Muitas empresas brasileiras gastam praticamente o mesmo valor com juros e despesas financeiras e com a manutenção da estrutura operacional, o pagamento de funcionários e a continuidade de suas atividades. Esse ambiente naturalmente desestimula investimentos e dificulta o crescimento.

 

Apesar desse cenário, o produtor continua investindo. Como explicar essa aparente contradição?
Porque o produtor não pode parar. Diferentemente de outros setores, ele precisa plantar para colher. Se deixar de comprar fertilizantes, sementes ou defensivos, compromete toda a safra seguinte. Talvez ele adie a compra de um trator novo ou de um equipamento de maior valor, mas os insumos necessários para produzir continuam sendo adquiridos. O agro é uma atividade de longo prazo. O produtor sabe que existem ciclos de alta e de baixa. Neste momento, estamos atravessando um período mais difícil, mas ele continua acreditando que esse ciclo será revertido.

 

Como está o acesso ao crédito atualmente?
A principal dificuldade não é exatamente a existência de recursos. Em muitos casos, há linhas disponíveis. O problema é que muitos produtores já chegaram ao limite da sua capacidade de crédito. Eles carregam financiamentos anteriores, sofreram perdas climáticas, enfrentaram redução na rentabilidade e acabam encontrando dificuldades para contratar novos financiamentos. É um efeito em cadeia. Quando aumenta o endividamento, diminui a capacidade de tomar novos recursos. Toda essa pressão está obrigando o produtor a se tornar mais eficiente. Ser eficiente significa produzir mais utilizando tecnologia, melhorar a gestão da propriedade, reduzir desperdícios, rever processos e eliminar custos desnecessários. Quem conseguir aumentar a produtividade e controlar melhor seus custos terá condições de atravessar esse período mais difícil. É por isso que a procura por tecnologia continua tão forte na feira. O produtor entende que investir em conhecimento e inovação passou a ser uma condição para continuar competitivo.

 

Estamos em um ano eleitoral. O senhor acredita que isso aumenta a insegurança do produtor?
O produtor sempre acompanha o cenário político porque muitas decisões que impactam diretamente o agronegócio passam pelo governo federal. O que nós precisamos superar é essa ideia de que existe uma divisão entre agro e governo. O agronegócio é um setor estratégico para a economia brasileira. Independentemente de quem esteja no comando do país, precisamos construir uma relação institucional sólida, baseada em diálogo e planejamento.


O que esperamos é sensibilidade para compreender o momento que o produtor está vivendo. Não é uma questão partidária. É uma necessidade econômica.

 

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos já afetam o produtor brasileiro?

Elas fazem parte de um contexto maior. Quando analisamos o comportamento das principais commodities brasileiras nos últimos anos, percebemos uma pressão importante sobre os preços. Soja, açúcar, café, suco de laranja e outras culturas passaram por oscilações relevantes. Parte dessa pressão está relacionada às tarifas, mas seria um erro atribuir tudo apenas a esse fator. Temos também dificuldades logísticas no comércio internacional, conflitos armados que afetam cadeias globais de transporte, alterações na demanda de diversos mercados e mudanças no comportamento da economia mundial. Tudo isso interfere na formação dos preços recebidos pelo produtor brasileiro. É um ambiente muito mais complexo do que simplesmente uma disputa comercial entre países.

 

As mudanças climáticas também passaram a ocupar um espaço permanente nas preocupações do produtor?

O clima é muito mais imprevisível do que era há alguns anos. O produtor incorporou definitivamente esse risco ao planejamento da propriedade. Nós costumamos dividir as ferramentas de proteção em duas frentes. A primeira é financeira. Existem seguros rurais, mecanismos de proteção de preços, venda antecipada da produção e outros instrumentos que ajudam a reduzir os impactos de perdas climáticas ou de oscilações de mercado. A segunda frente é técnica. A tecnologia tem avançado muito na redução dos riscos. Irrigação, plantio direto, cultivo protegido, manejo nutricional das plantas, cobertura de solo e diversas outras práticas aumentam a resiliência das lavouras. Essas ferramentas não impedem a ocorrência de eventos climáticos, mas reduzem significativamente os prejuízos em muitas situações

 

O recente vendaval que atingiu Ribeirão Preto e diversas cidades da região mostrou, porém, que existem eventos praticamente impossíveis de controlar.

Em situações extremas como aquela, em que tivemos um fenômeno semelhante a um furacão atingindo uma área específica, realmente não existe tecnologia capaz de impedir totalmente os danos. Esse tipo de evento, porém, é uma exceção. Na maioria das situações, conseguimos reduzir bastante os impactos climáticos. A irrigação é uma das áreas que mais cresce no agronegócio justamente porque protege a produção durante os períodos de seca. Um bom manejo nutricional fortalece a planta. O plantio direto melhora a conservação do solo tanto em períodos de excesso quanto de falta de chuva. O produtor está investindo cada vez mais nessas tecnologias porque compreendeu que adaptar-se ao novo cenário climático deixou de ser uma escolha.

 

Apesar de tantos desafios, o senhor continua otimista em relação ao futuro do agronegócio brasileiro?

O agricultor brasileiro é, por natureza, otimista. Ele sabe que o agronegócio funciona em ciclos. Estamos vivendo um momento de baixa, mas sabemos que esses ciclos passam. Quem continuar investindo em tecnologia, gestão e eficiência estará preparado para aproveitar a retomada quando ela acontecer.


Foto: Coopercitrus

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