O Perigo Vermelho
Especialista explica como conteúdos "red pill" se espalham nas redes e influenciam comportamentos violentos entre adolescentes
Hoje, nas redes sociais, crescem conteúdos que incentivam a hostilidade contra mulheres. Em casos recentes, como o de um sargento que matou a esposa e o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro, aparecem sinais de misoginia e desvalorização feminina que também circulam nesses ambientes digitais. Termos como “red pill”, "macho alfa", “incel” e “sigma” deixaram de ser nichados e passaram a circular, muitas vezes de forma velada ou até irônica, entre adolescentes e jovens. Para além de modismos linguísticos, essas expressões integram um ecossistema mais amplo — a chamada “machosfera” — que organiza frustrações individuais em explicações simplificadas e, por vezes, radicalizadas sobre o mundo. Nesta entrevista, André Villela, psicólogo, mestre e doutorando pela Universidade de São Paulo, explica por que a misoginia cresce na internet e por que esses discursos atraem jovens. Com pesquisas na área, ele também aponta sinais de alerta para pais e educadores, destacando a importância de compreender o vocabulário desses grupos como porta de entrada para identificar possíveis processos de radicalização.
Em sua pesquisa, você apontou que a misoginia on-line não é um fenômeno novo, mas ganha escala e intensidade na internet. O que mudou na prática para que esses discursos se tornassem mais visíveis e influentes hoje?
O que muda, nos artigos, não é a existência da misoginia, mas o ambiente técnico, social e político que a potencializa. A internet amplia alcance, velocidade de circulação e conexão entre indivíduos antes dispersos; além disso, embaralha a fronteira entre on-line e off-line, fazendo com que os efeitos do discurso sejam concretos fora da rede. Com o advento da conectividade perpétua, a circulação em rede, a lógica algorítmica e o anonimato, a disseminação desses discursos e a sensação de impunidade ganham força. Em vez de preconceitos ficarem localizados digitalmente, eles passam a se organizar, ganhar linguagem própria, virar meme, se repetir e se normalizar.
A ideia de “RedPill” aparece como um marco simbólico importante nesses grupos. Por que essa narrativa de “descobrir a verdade” é tão sedutora, especialmente para adolescentes?
Ela é sedutora porque oferece ao sujeito uma narrativa de revelação: a sensação de que ele finalmente enxergou aquilo que “a maioria não vê”. A RedPill aparece como uma “senha” de acesso a uma suposta verdade oculta, o que dá pertencimento, distinção e sentido a quem se sente excluído. Para jovens e adolescentes, isso pode ser especialmente atraente porque organiza frustrações difusas em uma explicação simples e totalizante: “não sou eu o problema; fui enganado; existe um sistema contra mim”. Essa chave também transforma ressentimento em identidade e vulnerabilidade em suposta lucidez. A RedPill pode converter injustiça sentida em certeza ideológica e reconhecimento grupal.
No artigo "Incels e Misoginia On-line em Tempos de Cultura Digital", você fala na “manosphere” como um ecossistema digital que conecta diferentes grupos masculinistas. Como esses espaços dialogam entre si e que tipo de identidade masculina eles acabam construindo?
Eles dialogam por meio de um repertório comum de crenças, vocabulário, memes, inimigos e fantasias de mundo, ainda que não sejam idênticos entre si. Há, entre os grupos, os PUAs (pick up artists ou artistas da pegação), MGTOWs (men going their own way, ou homens que escolhem ficar sozinhos), incels e outros subgrupos que compartilham conteúdos hipermasculinos e antifeministas, mas têm finalidades diferentes; por isso, a machosfera é menos um bloco homogêneo e mais um mosaico articulado. O que os unifca é a centralidade da dominação masculina, a leitura de que o feminismo ameaça os homens e a construção de um ideal de “homem de verdade” em contraste com figuras depreciadas como o “beta”. Desse ecossistema emerge uma identidade masculina rigidamente hierarquizada, ressentida, competitiva e fundada ao mesmo tempo em sentimento de exclusão e desejo de supremacia.
“Esse enfrentamento não pode ser delegado apenas à família. Escola, comunidade e instituições públicas têm papel decisivo na construção de repertório crítico para que adolescentes e jovens reconheçam discursos de ódio”
Há um ponto interessante sobre a mistura entre masculinidades subalternas (como os “betas”) e práticas de dominação. Como essa contradição ajuda a explicar comportamentos violentos ou ressentidos entre jovens homens?
O “beta” se percebe como humilhado, preterido e inferiorizado, mas não abandona a lógica patriarcal; ao contrário, tenta restaurá-la. Por isso alguns teóricos falam em “masculinidade híbrida”: homens que se veem como subalternos em relação aos “alfas”, mas preservam para si o direito de dominar mulheres. A violência surge justamente daí: do encontro entre sentimento de inferioridade e crença de que houve uma perda injusta de um privilégio masculino. O ressentimento não leva à crítica da hierarquia, e sim à tentativa de reocupar um lugar de mando. Em termos subjetivos, há uma espécie de cobrança de uma “dívida”, desejo de reparação e reação à dignidade ferida; em termos culturais, como esforço para restaurar a ordem patriarcal ameaçada.
Considerando que muitos desses conteúdos circulam de forma velada em redes e fóruns, como pais e responsáveis podem identificar precocemente sinais de que um adolescente está sendo capturado por essas comunidades?
Embora minha pesquisa não tenha chegado na parte prática do agir a respeito desses discursos em si, me parece importante a identificação de termos que se tornaram onipresentes nas redes masculinistas, como RedPill, macho alfa, sigma, etc. Além disso notar se nas falas dos jovens há alguma espécie de vitimização masculina, ou a ideia de que mulheres manipulam ou devem algo aos homens. Outro sinal é a interpretação maniqueísta do mundo, em que mulheres e feministas aparecem como causa do sofrimento masculino. Também chamam atenção o consumo intenso de conteúdos em fóruns anônimos, e o uso de aplicativos como o discord ou telegram. É evidente que não podemos pregar uma caça às bruxas e tratar qualquer pessoa que utiliza algum desses aplicativos como um partidário do discurso red pill, não é nem útil assustar os pais por descobrirem que os filhos usam algum desses aplicativos, embora a atenção seja sempre importante. Há também a fascinação por memes e humor degradante, o fortalecimento do ressentimento em torno de rejeição amorosa.
Para além da família, qual é o papel da escola e da comunidade na prevenção desse tipo de radicalização masculina on-line? Há estratégias que já se mostram eficazes nesse enfrentamento? O ECA Digital pode ajudar?
Realmente esse enfrentamento não pode ser delegado apenas à família. Escola, comunidade e instituições públicas têm papel decisivo na construção de repertório crítico para que adolescentes e jovens reconheçam discursos de ódio, identifiquem manipulações e compreendam como a violência de gênero também se organiza digitalmente. Isso passa por letramento midiático, educação para as relações de gênero, discussão franca sobre masculinidades, criação de espaços de escuta e pertencimento e formação de profissionais capazes de reconhecer cedo esses discursos. É importante que repensemos o viés sexista da própria cultura digital e que possamos preparar psicólogos, educadores e outros profissionais para lidar tanto com meninas e mulheres afetadas quanto com meninos e homens que começam a aderir a esses discursos. Sobre o ECA Digital, ele pode ser útil na medida em que fortaleça proteção, responsabilização, prevenção de violências em rede e educação digital crítica.
GLOSSÁRIO ESSENCIAL PARA PAIS E RESPONSÁVEIS
Termos comuns em comunidades masculinistas que podem indicar discursos de desumanização e violência contra mulheres.
Red pill: Ideia de “despertar para a verdade”. Indica adesão à crença de que homens estariam sendo prejudicados por mulheres e pelo feminismo.
Black pill: Visão mais radical e fatalista: acredita que não há saída para homens considerados “inferiores”, levando a pessimismo extremo.
Incel: Sigla para “celibatário involuntário”. Homens que dizem não conseguir se relacionar e culpam mulheres por isso.
MGTOW (Men Going Their Own Way): Homens que defendem se afastar de relacionamentos com mulheres, vistos como prejudiciais.
Chad: Estereótipo do homem “ideal”: bonito, confiante e bem-sucedido com mulheres.
Sigma: Homem que supostamente não segue regras sociais, independente e “acima da hierarquia”.
Femoid, Deposito, Stacys, Becky: Termos pejorativo para se referir a mulheres, desumanizando-as.
VSM (Valor Sexual de Mercado): Ideia de que cada pessoa teria um “valor” nos relacionamentos, baseado principalmente em aparência, dinheiro e status.