Passado e futuro

Passado e futuro

O prefeito Ricardo Silva projeta o futuro de Ribeirão e defende rumos da gestão: “Estamos trocando os pneus com o carro andando”

Em um ano e meio à frente da Prefeitura de Ribeirão Preto, Ricardo Silva (PSD)  analisa os principais desafios e entregas de sua gestão, aborda temas que ainda geram debate e projeta o futuro da cidade. Em entrevista aos diretores da Revide, Isabel Farias e Murilo Pinheiro, o prefeito comenta o andamento de obras estruturantes, os investimentos em saúde e educação, a relação com a Câmara Municipal, a crise na iluminação pública e os planos para a revitalização do Centro. Também reflete sobre a influência das redes sociais na política, admite a necessidade de corrigir rumos quando considera necessário e apresenta sua visão para uma Ribeirão Preto mais conectada, tecnológica e próxima das pessoas nos próximos anos.

 

Nesse quase um ano e meio de mandato, quais as entregas mais significativas da sua administração?

 

Assumimos a Prefeitura com o desafio de concluir obras paradas ou inacabadas, muitas delas com problemas nas licitações anteriores, o que exigiu investimento direto do orçamento municipal para garantir a entrega. Finalizamos a obra da Rua 9 de Julho e estabelecemos a meta de dar cronograma e prazo às intervenções. Também buscamos grandes parcerias para trazer investimentos à cidade, como o Instituto Federal, no antigo prédio da Cianê, com R$ 30 milhões e 1,4 mil novas vagas de ensino público, além do novo Hospital das Clínicas, que será o maior hospital público de emergência do país. Outro eixo importante é o programa de mobilidade urbana, com a Via Leste-Oeste, Avenida do Tanquinho e Rio Pardo, ampliando a infraestrutura viária. Paralelamente, retomamos projetos voltados à qualidade de vida, como o Parque Rubens Dione e a reabertura do Parque Olhos d’Água, reforçando o cuidado com os espaços públicos e o cotidiano da população.

 

Como a administração pretende garantir que a Via Leste-Oeste melhore o trânsito sem agravar problemas já recorrentes, como alagamentos e sobrecarga viária? Como serão feitas as desapropriações?

 

A Via Leste-Oeste será executada por etapas justamente para minimizar os impactos no trânsito e na rotina da população. Começaremos pelos trechos com menor interferência, como a abertura da Avenida Rio Pardo e a ligação com a Rodovia Anhanguera, avançando de fora para dentro da cidade. Queremos mostrar que é possível realizar grandes obras com planejamento, sem repetir problemas que marcaram intervenções anteriores e prejudicaram moradores e comerciantes. O projeto também prevê a implantação do Parque Linear da Via Norte e do Parque Ulysses Guimarães, com áreas de lazer e esporte. Em relação às desapropriações, já identificamos e cadastramos as 247 famílias que efetivamente vivem nas áreas afetadas — 47 na Avenida Rio Pardo e 200 na Avenida do Tanquinho. Esse cadastro foi congelado para evitar novas ocupações motivadas pela expectativa de indenizações ou reassentamentos. Todo o processo está sendo conduzido com responsabilidade social e dentro da capacidade financeira do município.

 

Qual a capacidade de investimento do orçamento da Prefeitura?

 

Ribeirão Preto voltou a conquistar a classificação CAPAG A junto ao Tesouro Nacional, o que atesta a capacidade de pagamento e a credibilidade financeira do município. Hoje, a Prefeitura mantém contratos e fornecedores em dia, recuperando a confiança do mercado. Ainda assim, a margem para investimentos próprios é limitada, já que grande parte do orçamento é destinada às áreas obrigatórias, como educação, saúde e folha de pagamento. Por isso, as parcerias com os governos estadual e federal são fundamentais para viabilizar grandes projetos. Investimentos em infraestrutura, como a Via Leste-Oeste, têm potencial para melhorar a mobilidade, gerar empregos e impulsionar a economia local. A expectativa é que mais de R$ 1 bilhão circulem na cidade com as obras previstas, algo que seria inviável apenas com recursos municipais.

 

Com relação a educação, quais os avanços que o senhor conseguiu fazer nesse um ano e meio à frente do Executivo?

 

A educação tem muito a avançar. Recebemos uma rede com indicadores ruins no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), problemas que se arrastam há anos e uma série de dificuldades acumuladas. O nosso desafio é melhorar esses índices com um plano pedagógico consistente. Trouxemos o Christian Oliveira para a Secretaria de Educação, alguém com experiência na rede.  Buscamos referências de sucesso, como o modelo da cidade de Sobral (CE), para adaptar aquilo que deu certo à realidade de Ribeirão Preto. Também encontramos escolas em situação precária, com goteiras, infiltrações e falta de manutenção. Faço questão de visitar pessoalmente as unidades, conversar com professores e acompanhar de perto essas demandas. Já determinei reparos emergenciais e ampliamos vagas em creches, com a criação de mais 600 vagas, além da construção e ampliação de EMEIs. Outro problema que enfrentamos foi a falta de ar-condicionado nas escolas. Os aparelhos existiam, mas não estavam funcionando. Resolvemos essa situação e o compromisso é que nenhuma escola municipal fique sem climatização durante a nossa gestão. Estamos corrigindo problemas antigos e, pouco a pouco, trocando os pneus do carro com ele andando.

 

Em relação às polêmicas do Legislativo. Como o senhor tem acompanhado isso? Como está sua relação com a Câmara?

 

A minha relação com a Câmara é muito boa, baseada no respeito à independência do Legislativo e no diálogo permanente com os vereadores, independentemente de partido ou posicionamento ideológico. Procuro sancionar projetos que sejam positivos para a cidade e entendo que o papel da Câmara é justamente fiscalizar, acompanhar os atos do Executivo e contribuir com boas propostas para Ribeirão Preto. Em relação à liderança do governo, esse é um tema que ainda será discutido com os vereadores. É uma função importante, mas não essencial quando os trabalhos estão fluindo bem, como acontece hoje. No momento adequado, faremos novas conversas para definir essa representação. O mais importante é que Ribeirão vive um ambiente de estabilidade institucional, com harmonia entre os poderes, algo fundamental para a democracia e para o avanço da cidade.

 

Como anda a questão do novo Centro Administrativo?

 

Sempre digo que não tenho compromisso com o erro, principalmente com erros herdados. Quando surgiram divergências entre a avaliação feita por um setor da Prefeitura e a do Creci-SP, sobre a permuta envolvendo o prédio do Colégio Marista, retirei o projeto de tramitação e pedi novos laudos. Agora, temos duas avaliações que nos dão segurança para retomar essa discussão com a Câmara, de forma transparente e republicana. A proposta é simples: criar um centro administrativo sem gastar um centavo a mais do dinheiro do contribuinte. Em vez de investir centenas de milhões na construção de uma nova sede, como se cogitou no passado, queremos utilizar permutas e ativos já existentes para concentrar os serviços municipais em um único local. Isso permitiria economizar com aluguéis e facilitar a vida da população, criando uma espécie de Poupatempo municipal. Além disso, acredito que essa iniciativa pode contribuir para a revitalização do Centro, num momento simbólico em que Ribeirão Preto celebra seus 170 anos.

Como está sendo encaminhada a vinda do Poupatempo para o Centro?

 

Ainda não há uma decisão definitiva sobre a transferência do Poupatempo para o Centro. O que existe é uma análise avançada. Hoje, o Poupatempo funciona no Novo Shopping, mas a Prefeitura paga aluguel pelo espaço e o usuário que vai de carro também precisa arcar com o estacionamento. Já a proposta apresentada pelo ShoppingSantaÚrsula chama atenção porque o Centro é mais acessível para quem depende do transporte coletivo: praticamente qualquer morador consegue chegar com apenas um ônibus. Para quem utiliza carro, a situação é semelhante, já que os dois locais oferecem estacionamento pago. A diferença está no custo para o município e na facilidade de acesso para a maior parte da população. Se conseguirmos levar o serviço para o Centro, sem pagamento de aluguel por parte da prefeitura, isso representa economia aos cofres públicos e mais comodidade para quem usa o transporte público. Por isso, essa possibilidade tem um peso importante na análise, embora a negociação ainda esteja em andamento e nenhuma decisão final tenha sido tomada.


Diante das falhas recorrentes apontadas na Parceria Público Privada (PPP) da iluminação pública e do prazo estabelecido pelo Ministério Público para regularização dos serviços, quais medidas concretas a Prefeitura pretende adotar para garantir que a população passe a receber o serviço contratado?

 

Já começamos um processo para romper com a Conecta e eu acredito que será difícil mantê-la em Ribeirão Preto. Esse contrato foi assinado pelo governo passado e é um péssimo contrato para a cidade. Se a empresa não cumpre o contrato, é péssimo. Se, na prática, as pessoas sofrem com a falta de lâmpadas, é porque a situação é péssima. A escolha foi péssima, o processo foi péssimo. Eu não vejo solução que não seja retirar a Conecta de Ribeirão Preto, a não ser que haja uma mudança muito profunda em sua composição, até societária. Do jeito que está hoje, não vejo condições de continuidade. A população cobra o prefeito quando a rua fica no escuro, mas a Prefeitura cobra, notifica, aplica multas e a empresa não entrega o serviço. Por isso, considero importante a atuação do Ministério Público como aliado nesse processo, acompanhando os prejuízos causados à cidade e à população. A punição que precisa acontecer é a retirada da Conecta, salvo uma mudança estrutural muito significativa que convença tanto a Prefeitura quanto o Ministério Público de que a empresa tem condições reais de cumprir aquilo que foi contratado. Até aqui, sinceramente, duvido que isso aconteça.

 

Como estão as obras do novo Hospital das Clínicas?

 

As obras do novo Hospital das Clínicas estão avançadas. Concluímos a fase inicial, com um investimento de R$ 80 milhões na estrutura de base do hospital. Com a confirmação de mais de R$ 700 milhões em recursos, ampliamos esse projeto e iniciamos a segunda etapa, que vai transformar Ribeirão Preto na sede do maior hospital público de emergência do Brasil, com cerca de 400 leitos. Esse é um projeto construído ao longo dos anos, fruto de parceria entre Estado, município e USP. A expectativa é que o prédio atual do HC seja transformado em um hospital de oncologia, ampliando a capacidade de atendimento aos pacientes com câncer. Também estamos investindo na rede de urgência e emergência. 


 

Quando o senhor assumiu o cargo de prefeito tinha uma rede social, com 60 mil seguidores. Hoje, um ano e meio depois, tem 360 mil. Como tem sido esse trabalho nas redes e qual é a sua relação com elas?

 

Essa exposição nas redes pode ter um custo alto? O cargo de prefeito me fez muito bem, percebi que eu não preciso tentar ser alguém que eu não sou. Durante muito tempo, especialmente na política, eu passava a imagem de uma pessoa mais dura, mais fechada, mas essa nunca foi a minha essência. Eu sou um cara simples, próximo das pessoas, gosto de conversar com todo mundo e prefiro estar na rua, ouvindo a população, do que atrás de formalidades. Nas redes sociais, eu apenas deixei isso fluir. Não tem grandes produções, equipes cinematográficas ou personagens. Quem planeja sou eu mesmo. Mas sabe que [nas redes sociais] as pessoas adoram uma polêmica, uma confusão, mas isso não significa que deem credibilidade a elas. Muitas vezes, há quem esteja mais interessado em ganhar clique, monetizar conteúdo ou buscar espaço político do que em defender uma causa genuína. O que sustenta uma gestão é credibilidade e resultado. Hoje, nossa administração tem uma aprovação muito alta, o que mostra que estamos no caminho certo. Isso não significa que não erraremos. Não tenho compromisso com o erro. Se eu perceber que uma decisão precisa ser revista, volto atrás. Já fiz isso e farei de novo, quantas vezes forem necessárias. Prefiro ser essa metamorfose ambulante.

 

Daqui 30 anos Ribeirão Preto terá 200 anos e o senhor 70. Como espera que a cidade esteja até lá?

 

Espero estar vivo, forte e com saúde até lá! Ribeirão Preto tem uma história linda. Nasceu com o café, consolidou-se no setor de serviços e, na minha visão, está se transformando em uma cidade da tecnologia. Muitas das decisões que estamos tomando agora vão repercutir nas próximas décadas. Criamos a Secretaria de Governo Digital e queremos aproximar o cidadão do poder público por meio da tecnologia, com aplicativos, serviços mais ágeis e monitoramento inteligente da cidade. Acho impensável que uma pessoa ainda tenha dificuldade para informar um buraco, uma árvore caída ou uma lâmpada queimada e não receba uma resposta rápida da Prefeitura. Nosso objetivo é reduzir essa distância entre o cidadão e o serviço público. Viver os 170 anos de Ribeirão Preto como prefeito é uma oportunidade única. Mais do que realizar obras, quero ajudar a devolver às pessoas o orgulho e a esperança na cidade, trazendo investimentos, eventos e iniciativas que façam os moradores voltarem a acreditar no futuro de Ribeirão Preto. 

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