Ribeirão Preto adere ao conceito “cidade esponja”
Projeto para desafios históricos da mobilidade, ao mesmo tempo, prepara Ribeirão Preto para o futuro
O Futuro Corredor Leste-Oeste, com cerca de 27 quilômetros de extensão, deverá se tornar um dos principais projetos de transformação urbana de Ribeirão Preto nas próximas décadas. O macroprojeto foi concebido para conectar as regiões Leste, Norte e Oeste da cidade por meio de um novo eixo de mobilidade. Ele integra soluções ambientais para drenagem urbana, incorporando o conceito de Cidade Esponja, adotado em diversas cidades como resposta às mudanças climáticas e à intensificação das chuvas. O conceito envolve a atuação técnica de profissionais na incorporação de soluções como pavimentos permeáveis, jardins de chuva e ampliação de áreas verdes em projetos urbanos. Em uma cidade como Ribeirão Preto, marcada por episódios recorrentes de alagamentos e elevada impermeabilização do solo, essas soluções têm impacto direto na redução do escoamento superficial. Na entrevista a seguir, João Carlos Correa, arquiteto e urbanista da Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Ribeirão Preto (AEAARP) amplia esse conceito.
O que é uma cidade-esponja?
Uma cidade-esponja (Sponge City) é um modelo de planejamento urbano que abandona a ideia tradicional de "expulsar" a água da chuva por meio de canais e bueiros de concreto. Em vez disso, ela projeta a infraestrutura da cidade para absorver, filtrar, armazenar e liberar a água lentamente, imitando o ciclo hidrológico natural da floresta ou do campo.
Quando uma cidade adota o conceito de cidade-esponja, o que a população deveria conseguir perceber na prática?
Quando uma cidade adota o conceito de “cidade-esponja” a população consegue perceber os ganhos que este conceito produz como a garantia que as possíveis enchentes estarão minimamente controladas, seus caminhos estão livres para circular e a vida continua sem os percalços causados por uma enchente. A economia da cidade e de seus cidadãos ganham. Praticamente se evitam perdas, principalmente as patrimoniais.
Quais elementos mostram que um projeto urbano realmente aplica esse conceito de forma consistente?
Para que uma cidade funcione como uma esponja dentro do planejamento urbano e das leis de uso e ocupação do solo, ela se baseia em quatro mecanismos principais: absorção e Infiltração; retenção e armazenamento, purificação natura e uso sustentável. Na absorção e infiltração, há substituição de superfícies impermeáveis (asfalto e concreto) por pavimentos permeáveis, jardins de chuva e biovaletas. Isso permite que a água retorne ao lençol freático em vez de correr pela superfície criando enxurradas. Na retenção e armazenamento criam-se espaços que podem ser inundados temporariamente sem causar danos, como praças inundáveis, bacias de detenção secas (que viram parques quando não chove) e reservatórios domésticos. A purificação natural ocorre por meio de áreas úmidas (wetlands) e vegetação ripária, que atuam como filtros biológicos, removendo poluentes da água da chuva antes de chegar aos rios. Já no uso sustentável, essa água pode ser reutilizada para irrigação, limpeza urbana e resfriamento da cidade, ajudando a reduzir ilhas de calor.
O futuro Corredor Leste-Oeste representa uma nova visão de planejamento urbano para Ribeirão Preto?
Aqui existem dois pontos cruciais: um é a retomada de um projeto pré-concebido no século passado. O outro ponto é a adoção no projeto atual da integração do fluxo viário ao clima como avenida-parque, espaços destinados a caminhadas e lazer, o andar a pé e de bicicleta. O veículo motorizado deixa de ser o protagonista do espaço urbano.
Quais pontos destaca nessa proposta e quais considera que devam ser revistos no quesito cidade-esponja?
Não acredito em revisão mais sim a adoção de algumas das principais lições do conceito “cidade-esponja” para enfrentar as águas que podem ser contempladas no projeto da ligação Leste – Oeste, considerando que a infraestrutura verde e azul é o novo urbanismo. Parques lineares, jardins de chuva e bacias de detenção não são "estética", são órgãos vitais para absorver o excedente hídrico e reduzir a carga sobre as galerias pluviais. Além disso, o uso e ocupação do solo e mobilidade como barreiras de proteção. O Desenvolvimento Orientado ao Transporte (DOT) deve considerar a topografia alinhando a densidade com áreas de menor risco geológico e hídrico, vital para a continuidade dos serviços urbanos em dias de chuva extrema. Cidades compactas preservam bacias hidrográficas. Uma densidade bem planejada evita o espraiamento urbano sobre áreas de preservação e várzeas de rios. Menos área urbana dispersa significa menos solo impermeabilizado desnecessariamente.
Soluções como parques lineares e áreas permeáveis funcionam sozinhas ou precisam estar integradas a um sistema maior no caso de projetos esponjas?
Avenidas-parque e áreas permeáveis integram um ecossistema como solução plausível para diminuir, acabar ou mitigar os problemas de drenagem da cidade. É salutar lembrar que Ribeirão Preto caminha para seus 170 anos e muitas coisas aconteceram de bom e de ruim nesse tempo, como pavimentar praticamente a cidade inteira com asfalto que é um elemento impermeável. Havia outras soluções para minimizar e controlar o excesso de água em chuvas mais fortes.
Uma intervenção pontual consegue reduzir enchentes ou esse tipo de solução só funciona em escala de cidade?
Qualquer solução pontual ou não no espaço urbano deve ser integrada à dinâmica da cidade. Às vezes uma solução apenas pontual para resolver um problema pontual acaba refletindo em outras áreas que estavam tranquilas e sem problemas.
O que diferencia uma obra em fundo de vale bem planejada de uma que pode agravar problemas de alagamento?
Um bom planejamento deve buscar o equilíbrio: onde a água vai ficar quando a chuva exceder a capacidade dos bueiros? Projetar espaços públicos para serem inundáveis de forma controlada (como praças-piscinão) é o que diferencia cidades resilientes de cidades em colapso.
Esse tipo de solução exige manutenção contínua? O que acontece quando isso não é feito?
As decisões de hoje determinam as inundações de amanhã e grande parte da infraestrutura de Ribeirão Preto deve ser pensada para 2050, inclusive àquela ainda por construir. Permitir hoje ocupações em áreas de risco ou vedar o solo sem contrapartidas de absorção é "contratar" enchentes para as próximas décadas. Isto significa a manutenção e fiscalização constante.
Como distinguir uma recuperação ambiental efetiva de uma intervenção apenas estética?
Na área de recuperação ambiental e de drenagem urbana o importante é resolver o problema atual de forma que a população não sofra mais do que já sofreu e em alguns casos ainda sofre. A equidade hídrica deve ser constantemente buscada. A periferia não pode ser o esgoto da cidade. A ação climática falha se não priorizar o saneamento e a contenção em assentamentos informais. A justiça climática exige que as soluções de drenagem protejam primeiro os mais vulneráveis. Ações estéticas nestas áreas vulneráveis são perfeitamente possíveis. Projetos como avenidas-parque, corredores climáticos, praças e área de lazer devem contribuir para que se estabeleça uma estética urbana que valorize a imagem da cidade. Portanto, reduzir a vulnerabilidade aos riscos climáticos (adaptação) não é mais opcional; é a base da segurança pública urbana e que ações com o conceito “cidade-esponja” acompanhem esta nova e importante intervenção urbana na cidade de Ribeirão Preto.
Como urbanista, pode citar exemplos de projetos em que já tenha aplicado esse conceito?
O Brasil ainda não possui cidades-esponja plenamente implementadas. Algumas experiências relevantes estão em Curitiba, que tem um parque alagável que funciona como reservatório natural; o Rio de Janeiro, que avança na incorporação de infraestrutura verde por meio de legislação urbana; e Santos, que investe em sistemas de drenagem mais eficientes. Além disso, soluções pontuais — como jardins de chuva, pavimentos permeáveis e telhados verdes — vêm sendo adotadas em diferentes municípios, indicando uma tendência de adaptação progressiva ao conceito.