Um olhar humano
Mariana Aude Jábali fala sobre sua trajetória no voluntariado, a mobilização social e os desafios para ampliar a participação cidadã
Mariana Aude Jábali construiu uma trajetória de mais de duas décadas dedicada ao voluntariado e à mobilização social em Ribeirão Preto. Sua atuação começou antes mesmo de chegar ao poder público e passou pela criação do Grupo de Apoio ao Centro Especializado em Oncologia da Beneficência Portuguesa (GACEON), pelo Fundo Social de Solidariedade e pela presidência da Fundação Pedro II. Em 1999, fundou o Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto, iniciativa que ajudou a profissionalizar e ampliar a participação voluntária na cidade. Ao longo dos anos, Mariana acompanhou as mudanças na forma de fazer trabalho voluntário e defende uma atuação organizada, capaz de complementar, sem substituir, a responsabilidade do poder público. Hoje, depois de deixar o Fundo Social de Solidariedade, há dois anos, dedica-se a palestras e encontros com empresas, instituições e entidades. O objetivo é compartilhar sua experiência, orientar a formação de novos voluntários e ajudar organizações a estruturar projetos de responsabilidade social. Nesta entrevista, ela fala sobre as transformações do Terceiro Setor, os desafios para mobilizar pessoas e a importância de transformar solidariedade em compromisso.
A senhora está há mais de duas décadas envolvida com o Terceiro Setor. O que mudou nesse período na forma de fazer trabalho voluntário?
Houve uma mudança substancial na maneira de fazer e de enxergar o trabalho voluntário, na forma de valorizá-lo e também de fiscalizá-lo. E isso abriu espaço para que mais pessoas pudessem ser incluídas. Não é mais um trabalho restrito às adultas mais velhas. Hoje vemos jovens, homens e mulheres participando, com uma disseminação muito maior, projetos estruturados e resultados.
O que levou a senhora, em 1999, a criar o Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto fora da estrutura da Prefeitura?
Em 1999, eu já estava há dois anos na Prefeitura, durante a gestão do meu marido, que foi prefeito de 1997 a 2000, e já vinha de um trabalho voluntário. Em 1995, nós criamos o GACEON, Grupo de Apoio aos Pacientes com Câncer, junto à Beneficência Portuguesa, que mantém até hoje um atendimento muito carinhoso e eficiente, realizado por voluntários, com o objetivo de minimizar os impactos dos procedimentos oncológicos.
Eu também já vinha de um trabalho nas paróquias e via muitos pedidos de pessoas que queriam ser voluntárias. Quando fui para o poder público, como presidente do Fundo Social de Solidariedade, ainda não existia uma regulamentação das parcerias público-privadas. Em 1997, saiu a regulamentação do trabalho voluntário e eu também acompanhava, por meio do Comunidade Solidária, da dona Ruth Cardoso, a implantação dessa noção de cidadania participativa. O trabalho voluntário é necessário nesse Brasil tão grande e ainda muito desigual. Precisamos desse apoio do Terceiro Setor. Mas víamos que não havia segurança sobre como atuar como voluntário. Foi então que, a partir de um modelo que conheci em São Paulo, onde havia o primeiro Centro de Voluntariado, começamos, em 1998, as discussões aqui com a sociedade civil organizada e com a Prefeitura. Foram diversas reuniões para explicar o que seria o Centro de Voluntariado. Muitas instituições já tinham trabalho voluntário, mas não o tinham normatizado. Então, viemos com a implantação do Centro de Voluntariado, que mudou o olhar sobre o trabalho voluntário e acrescentou a participação cidadã ao assistencialismo. O Centro de Voluntariado nasceu longe da Prefeitura, como uma organização sem fins lucrativos e independente, para que pudesse se perpetuar e não precisasse estar a serviço deste ou daquele mandatário. Com isso, estamos há quase 30 anos cumprindo o papel de divulgar, valorizar e formar bons voluntários, com capacitações duas vezes ao ano e um coordenador para cada projeto, que acompanha o voluntário, identifica suas dificuldades e o apoia.
Como transformar solidariedade, que muitas vezes nasce de uma reação emocional, em um trabalho contínuo e organizado?
É justamente essa transformação que o Centro de Voluntariado tem feito ao longo desses anos. É preciso ter consciência de que, além da nossa doação espontânea, do nosso coração envolvido, da nossa sensibilidade e humanidade, precisamos atuar como agentes de transformação de uma realidade que nem sempre nos agrada. O poder público tem uma grande parcela de responsabilidade. O voluntário não atravessa essa linha, que é de responsabilidade do poder público, com sua estrutura, suas ferramentas e suas técnicas. O voluntário vai apoiar. Hoje, um dos nossos maiores projetos no Centro de Voluntariado é o de contadores de histórias nos hospitais, que conta com 60 voluntários em praticamente todos os hospitais de Ribeirão. Estão ali os médicos, enfermeiros e demais profissionais envolvidos, e chega o contador de histórias para aliviar aquele momento, dar um aconchego à família que está apreensiva. Para a criança e o jovem, é uma distração por meio de um livro. E cada contador vira um artista nato. São histórias lindíssimas, de muita sensibilidade, que proporcionam uma mudança enriquecedora naquele momento.
Onde termina a responsabilidade individual e começa a responsabilidade do poder público quando falamos de problemas sociais?
Essa solidariedade se transforma em compromisso. Eu não posso deixar de ir, tem alguém me esperando. Depois de seis meses, quero ver o resultado do meu trabalho. Estou me doando duas horas por semana, dedicando o melhor que tenho para fazer uma transformação. Aquele aluno que estou acompanhando por causa de uma defasagem, tenho certeza de que estará melhor ao final do ano porque eu estive com ele, dediquei meu tempo, fiz uma aproximação e criamos um vínculo para que ele realmente pudesse superar suas dificuldades. E temos sempre o acompanhamento de um coordenador do projeto, que não deixa a peteca cair.
Sua trajetória passou pelo Fundo Social, pelo Centro de Voluntariado e pela Fundação Pedro II. O que essas experiências ensinaram sobre a capacidade de mobilização da sociedade?
Foi um privilégio passar por esses trabalhos e assumir essas responsabilidades. Pude colocar todo o meu empenho, junto com as equipes, para minimizar os impactos de uma sociedade ainda muito desigual. No Theatro Pedro II, tivemos a inclusão de pessoas que nunca tinham podido ir ao teatro e a formação de jovens e crianças para a música, por meio da Orquestra Sinfônica. Fizemos bons projetos que continuam até hoje. A mobilização do Fundo Social de Solidariedade veio da credibilidade de um trabalho que já vinha sendo realizado. E foi com essa credibilidade que também atravessamos grandes desafios, como enchentes e outros momentos muito difíceis.
Depois de tantos anos atuando com causas sociais, quais são hoje os principais desafios para mobilizar pessoas a olhar para o outro e participar da comunidade?
Para mobilizar, você precisa ter uma causa justa, uma liderança e uma trajetória que transmitam segurança e experiência, que incentivem essa participação. Os principais desafios são a correria do dia a dia e a instabilidade do Brasil. A situação econômica, às vezes, leva o voluntário a precisar mudar de emprego ou até ficar desempregado, e isso também atrapalha o nosso ritmo e a continuidade do trabalho. Mas, principalmente, existe a dificuldade de deixar o nosso olhar mais humano e não pensar: “É muita coisa, eu não vou conseguir”. Quem pensa assim precisa saber que não estará sozinho. Temos equipes e trabalhos já consolidados. Se você é diretor de uma empresa, pode levar esse olhar cidadão para dentro dela, dentro daquilo que vocês já fazem. Fazer uma ação social em conjunto dá uma força, um brilho no olhar para a equipe. Pode ser um dia de doação ou até o aniversário da empresa em um lar de idosos. São mobilizações pequenas, mas que vão se refletindo naquilo que temos de melhor. Isso não tem preço.
O que a senhora tem feito atualmente e quais projetos estão entre as suas prioridades?
Dizem que eu nunca parei e, realmente, o envolvimento e a responsabilidade que me cabem como cidadã eu coloquei a serviço de um lugar onde tudo isso pudesse ser ampliado e atingisse mais pessoas. Fico muito grata por isso. Atualmente, depois que deixei o Fundo Social de Solidariedade, há dois anos, estou me dedicando a palestras e encontros com instituições, grupos, empresas e entidades que queiram abordar esse tema. Não quero apenas fazer um trabalho motivacional. Depois, também podemos acompanhar o trabalho que eles escolheram desenvolver e dar um parecer sobre um projeto voluntário, avaliar se ele é adequado para aquela empresa.Tenho feito muito isso. Você precisa passar a sua verdade, aquilo em que acredita. Porque, no fundo, a maioria das pessoas quer aderir, quer colocar a mão na massa, mas, às vezes, os impedimentos são muito maiores. Então, é preciso ter alguém que já tenha passado por isso, que possa mostrar o caminho e as etapas. Você não vai com muita sede ao pote, de uma vez. Vai construindo devagarzinho. Falo sobre isso no meu site e nas minhas redes. E também temos, nos dias de hoje, a questão do conceito ESG. Quando começamos a falar sobre voluntariado, falávamos em Responsabilidade Social. Depois, passou-se a falar em Responsabilidade Social e Ambiental, a partir dos projetos do milênio da ONU, de um plano mundial em que todos os países estivessem envolvidos para buscar juntos melhores condições em todos os níveis. E, nos últimos anos, temos o conceito ESG, com o olhar ambiental, social e de governança que cada instituição deve ter. Isso vale para organizações de qualquer porte, não precisa ser apenas uma grande empresa.
O que precisamos mudar em nós mesmos para construir uma sociedade mais solidária?
Na verdade, não é preciso mudar. Nós precisamos olhar e enxergar o outro. Mesmo que isso nos assuste, mesmo que seja muita coisa, comece pequeno. Vá devagar, mas coloque o que você tem de melhor a serviço de quem precisa. Não precisa mudar nada. É só acrescentar um olhar humano, um olhar consciente, um olhar carinhoso.