Uma vida a limpo
Em autobiografia que lança esta semana, em Ribeirão Preto e São Paulo, o cirurgião aposentado reflete sobre sua vida e trabalho e as escolhas que confrontou no caminho
Famoso na área médica por ter introduzido e comandado a primeira cirurgia de fígado do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, o cirurgião aposentado Orlando de Castro e Silva Junior descobriu sua vocação para a Medicina da forma mais precoce e prática: foi cuidador de sua mãe, que sofria de asma e diabetes, desde 6 anos de idade até ela falecer, alguns anos depois. O garoto não conhecia outros médicos na família que lhe servissem de modelo, mas o pai era diretor de um hospital agrícola em Marília (SP) – onde nasceu, em 7 de abril de 1950 –, que acabou por familiarizá-lo com o ambiente.
A vida estudantil começou na cidade Natal, onde acabou por se graduar em Medicina, pela Famema (Faculdade de Medicina de Marília), em 1970. Escolheu o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo) para a residência em Cirurgia Geral e, depois, em Gastroenterologia. Ao saber que não havia serviço de atendimento a problemas de fígado por aqui, assumiu o pioneirismo. Após anos de pesquisas, treinamentos e montagem de um novo departamento, realizou em 2001 a primeira cirurgia de fígado do HCRP-USP.
Paralelamente a tudo isso, tocava a família que formou com a médica sanitarista Ana Alice Martin Correa de Castro e Silva, com quem tem quatro filhos e, atualmente, oito netos. Em 2020, Orlando aposentou-se após praticamente 49 anos de Medicina e desde então vive em Chicago, onde já moravam os dois filhos mais velhos. Estas e muitas outras de seus 75 anos de vida, Orlando conta na autobiografia “Operando a mim mesmo – Bastidores de um tempo”, que acaba lança a partir desta semana, em Ribeirão Preto e São Paulo, capital. É sobre o que ele fala na entrevista a seguir:
O senhor sempre quis ser médico? Como surgiu esta vocação?
Na verdade, a ideia de fazer Medicina, de ser médico, começou bem na infância, quando me conheci por gente, por volta de 5, 6 anos de idade, porque minha mãe tinha asma e diabetes. Meu pai era diretor do hospital agrícola e eu ficava com ela praticamente o dia todo. Ela tinha crises de asma, o tratamento de diabetes era precário, praticamente à base de insulina, e eu que aplicava nela. Acabei me identificando como um médico mirim da minha mãe. E eu também andava muito pelo hospital onde meu pai trabalhava, cujas condições eram muito precárias, mas eu via aqueles prédios gigantescos, aquela correria toda e conseguia enxergar as deficiências do hospital. Tudo isso foi contribuindo para eu construísse a ideia de ser médico. Mesmo que eu não conseguisse tratar minha mãe, como de fato não consegui, porque ela morreu logo, eu tentaria tratar outras mães, outras vidas. Tudo começou aí.
Por que Cirurgia Geral?
Na verdade, eu queria fazer Cirurgia e não Cirurgia Geral. Isso era uma circunstância. Naquela época, as residências eram, a princípio, em Cirurgia Geral, para dar ao médico cirurgião uma vivência geral da cirurgia. Escolhi essa especialidade porque na faculdade tive muita oportunidade de fazer monitoria em Anatomia. Era uma escola pequena e tive muitas oportunidades, do ponto de vista prático sobretudo. A faculdade era uma fundação municipal e eu tinha uma bolsa de estudos. Então, praticamente me especializei em Anatomia. Tanto que, quando cheguei a Ribeirão, o professor Ferreira Santos me colocou para dar aulas de Anatomia, disciplina que ninguém queria lecionar. Passou pela minha cabeça fazer Psiquiatria, mas não teve jeito. Era cirurgia mesmo. Não foi uma escolha difícil. Foi natural.
Como e por que escolheu fazer residência em Ribeirão Preto?
Quando terminei a graduação, passei em dois lugares para a residência. Um era em São Paulo, capital, no Hospital do Câncer A.C. Camargo, onde fiz a residência por uns 20 dias. Na minha cabeça não tinha dúvida de que eu iria para Ribeirão, mas queria me cercar melhor dessas convicções. Tenho um primo que é professor da Faculdade de Medicina de São Paulo para quem pedi opinião. Ele respondeu que não havia dúvida em relação a vir para Ribeirão Preto, porque eu gostava de pesquisa e a faculdade aqui tem tradição nessa área. No dia 1º de fevereiro 1977, iniciei minha vida em Ribeirão Preto. Inicialmente não estava nos meus planos ir para Ribeirão, mas um grupo de colegas foi fazer a prova e fui junto. Passei em primeiro lugar. Eu conhecia Ribeirão Preto pelos nomes dos professores e me identifiquei muito com a faculdade. Assim começou minha profissional, fazendo residência em Cirurgia Geral na USP Ribeirão Preto. Fiquei os dois primeiros anos nisso e, no terceiro, optei pela Gastroenterologia, porque era minha intenção, além de fazer alguma coisa em relação a fígado. Naquela época, Ribeirão Preto não tinha o serviço de fígado, nem clínico, nem cirúrgico. Pensei: ‘vou por essa área e ver o que acontece’. E assim foi.
Qual caminho o levou a introduzir a primeira cirurgia de fígado de Ribeirão Preto?
Quando cheguei a Ribeirão, meus colegas disseram que ninguém fazia fígado por aqui e, de fato, ninguém fazia. Apesar de toda importância e excelência do HC, fígado era uma coisa praticamente zero, tanto na parte cirúrgica quanto na parte clínica e na patologia. Só tinha alguma coisa evoluída em Belo Horizonte e São Paulo. Para mim, não era possível que um hospital do porte do HC não tivesse serviço de [tratamento de problemas de] fígado. Ainda hoje, poucas faculdades têm esse serviço. O transplante, poucos locais fazem. Comecei a me dedicar a essa parte e isso foi me capacitando para formar a cirurgia hepática. Tudo o que diz respeito a fígado em Ribeirão Preto foi feito por mim e pelo pessoal que me acompanhava. Quase todos se capacitaram comigo. Primeira cirurgia hepática para tumor, primeiro transplante, nós que fizemos. Construímos um centro e depois outros profissionais foram se associando. O custo do pioneirismo é prazeroso, mas difícil e custoso, porque envolve uma série de questões. A gente tem que abrir mão de muita coisa, como coloquei no prefácio do livro. Participei do grupo do médico Silvano Raia, em São Paulo, em 1985. Nos preparamos durante quase dez anos, passando por uma série de obstáculos, até que chegou o dia 1º de maio de 2001. Em 2026, faz 25 anos.
E como foi?
O paciente saiu andando, a imprensa fez festa e nós também. A gente tinha ciência e consciência de que estávamos iniciando um processo. Isso foi fantástico! A cidade ganhou um serviço de fígado. Hoje, ninguém precisa sair de Ribeirão para tratamento de fígado (tumores, hepatite, transplante). É um centro reconhecido no Brasil e no exterior. Em 2007, ganhei o título de cidadão ribeirão-pretano por isso, algo que trago com muito orgulho. Quando fiz meu primeiro transplante, foi realmente o primeiro transplante da minha vida [em humanos, porque até então só treinava em animais]. Imagina fazer um procedimento que nunca tinha sido feito. Com muitos observadores, inclusive. E as condições não eram ideais na época. No dia da cirurgia, o ar-condicionado do hospital quebrou e fizemos a cirurgia com metade do ar-condicionado funcionando. Fizemos, foi bem-sucedido, algo esperado por muito tempo. Foi fantástico!
Como surgiu a ideia de escrever a autobiografia?
Fui chefe e vice-chefe do Departamento de Cirurgia e escrevi alguns artigos para a Revista de Medicina sobre a história e a evolução do Departamento, as comemorações e atividades. O Departamento de Cirurgia atual convidou alguns professores, de determinadas épocas, para escrever a história do Departamento de Cirurgia, em um compêndio maior, que é a história da Medicina de Ribeirão Preto como um todo. Apareço ali em várias etapas, escritas por outros, como consequência natural do que fiz. Pensei em escrever as minhas opiniões e o que fiz em Ribeirão Preto, mas no início a ideia não era nascer um livro. Isso veio aos poucos. Em 2020, veio a pandemia. Eu estava em Chicago e fiquei cinco meses sem poder sair. E pensei em passar meu tempo lendo e escrevendo. Gosto de escrever contos, poesia e resolvi ver o que eu tinha e transformar em livro.
O que acha importante compartilhar sobre a obra?
O livro é sobre um caminho percorrido, que teve uma meta traçada desde que iniciei o curso de Medicina. Eu queria chegar em um lugar. Penso que as pessoas precisam ter essas metas. Agora, como as pessoas vão alcançar seus objetivos e metas vai depender de cada uma. Então, espero que o livro sirva de reflexão para os leitores sobre como atingir suas metas obedecendo um caminho que pode ser mais ou menos tortuoso. Não há caminhos pré-definidos. Eles se abrem à medida que a pessoa caminha. Com persistência, resistência, objetivos claros e, especialmente para médicos, a ética e a discrição devem ser perseguidas. Para chegar a algum lugar, não basta o seu mérito pessoal. Há que ter um engajamento político no local em que se trabalha e se vive. Mesmo tirando notas 10, se não for articulado, fica mais difícil. A rede de contatos é importante em todas as profissões. O engajamento institucional precisa existir para quem quer chegar a cargos de comando. Quem ler, vai perceber isso.
A sinopse fala sobre escolhas difíceis de sua trajetória profissional. Pode comentar algumas?
A vida é um algoritmo e vamos encontrando encruzilhadas em todo o decorrer dela. Não só na vida profissional, como na vida pessoal também. Nessas encruzilhadas temos que optar por um lado ou por outro, às vezes por três ou quatro caminhos. Isso começou quando terminei a graduação e tive que optar por São Paulo ou Ribeirão Preto. E as escolhas difíceis foram aparecendo, como aparecem para todo mundo. Comecei como residente, fiz mestrado, doutorado, Livre Docência e cheguei a professor titular. E tudo isso se deu baseado em escolhas. Exemplo: eu era cirurgião, mas gostava muito de pesquisa, motivo pelo qual fiquei em Ribeirão. Um hospital público do nível do HC não pode ser apenas um transferidor de conhecimento. Tem, em certa medida, de formar conhecimento e é o que a USP de Ribeirão Preto faz com excelência. Um cirurgião precisa dedicar parte do seu dia à pesquisa, mas isso gera uma série de estigmas. Foi uma escolha que eu tive de enfrentar e foi difícil, porque nunca deixei as enfermarias. Nunca deixei o centro cirúrgico, mas tinha que fazer pesquisa, montar um aparato todo. Conforme eu ia me graduando dentro da faculdade, ia adquirindo mais poder. Isso me possibilitou montar laboratório de bioquímica e laboratório de transplante de fígado. E tinha um pessoal técnico, de alto nível, para me ajudar nas pesquisas.
E sobre custos pessoais? Exemplifique também, por favor.
Família é um deles. O médico, de maneira geral, tem o custo pessoal da família. O médico e professor também, porque tocar a vida universitária não é simples. Essa também foi uma escolha difícil porque, quando fui contratado pela faculdade, tive de abrir mão das coisas que eu fazia, como dar plantão e atividades fora do hospital. Tive que abrir mão de um salário grande para a época por um salário menor e sem poder clinicar fora do hospital. Ribeirão Preto tem um sistema de ensino diferente da maioria das faculdades, com dedicação exclusiva e em tempo integral para docência e ensino. Essa foi outra escolha difícil. Para compatibilizar isso, é um esforço pessoal enorme. Se o médico descuidar, a família fica de lado, mas eu não podia ficar só em casa. Esse equilíbrio deixo como reflexão para os médicos que virão: na medida do possível e do impossível, é preciso dar conta das duas coisas: a vida profissional e a vida pessoal.
E o sr. conseguiu esse equilíbrio?
Acho que consegui, sim. Em 2004, cheguei a professor titular, coisa bem difícil na USP. A disciplina que herdei e que depois ajudei a aumentar, com ajuda de outros profissionais, mantém-se equilibrada até hoje. Eu sempre dizia que queria morrer ou me aposentar deixando tudo pronto. O transplante de fígado, por exemplo: eu saí e os transplantes continuam. Felizmente e graças a Deus, minha família está intacta. Acho que não me descuidei. Nós nos casamos em 1981 e, entre 1982 a 1987, tivemos os quatro filhos, um atrás do outro. Eles estão unidos. Este ano, talvez, a gente tenha um encontro, porque tem 11 anos que não reunimos a família toda fisicamente. Virtualmente, nos vemos quase todos os dias. Acho que isso é um indicador bom.
De tudo o que o sr. relata na autobiografia, há algo que, se pudesse, faria ou decidiria diferente com a consciência de hoje?
Eu faria tudo de novo. Principalmente porque acredito que, hoje, seria mais fácil fazer o que eu comecei anos atrás. Porque, com o desenvolvimento tecnológico da Medicina, as coisas se tornaram mais fáceis de serem realizadas, ou menos difíceis. Então, começaria tudo de novo. Hoje, temos um arsenal terapêutico melhor do que tinha na época em que comecei. Do ponto de vista técnico, melhor instrumental cirúrgico, melhores bisturis, mais finos, refinados. O pessoal recebe treinamento específico para transplante ou para cirurgia hepática. Então, não se lida mais só com iniciantes, mas com pessoas mais treinadas. Antes, o transplante demorava mais e o risco de errar era maior. Hoje, é feito em menor tempo, sobretudo pelo apoio técnico, tecnológico e científico que a Medicina trouxe. Então, eu faria tudo de novo, sim, com muito prazer.