A China é logo aqui

A China é logo aqui

A quase 17 mil km de distância, o país asiático influencia investimentos, tecnologia e estratégias de empresas da região que aproveitam parcerias para crescer

A China está no preço da soja, na máquina que moderniza uma fábrica, no componente eletrônico que permite montar um equipamento e na peça de decoração que antecipa uma tendência de consumo. Para muitas empresas de Ribeirão Preto e região, o gigante asiático está logo ali – ou melhor, aqui – integrando a rotina dos negócios. Essa transformação ganhou força à medida que o país se consolidou como principal parceiro comercial do Brasil e como um dos maiores polos globais de produção e tecnologia. 


Para o professor de Economia José Rita Moreira, esse fenômeno funciona como um “clima econômico”. Mesmo quem não negocia diretamente com empresas chinesas sente seus reflexos na demanda por commodities, na variação cambial, na concorrência industrial e no custo de equipamentos.


A relação, porém, é marcada por uma assimetria. O Brasil exporta principalmente soja, carne, celulose, minério e petróleo, enquanto importa máquinas, componentes e produtos de maior valor agregado. Para José Rita, o desafio está em aproveitar essa complementaridade sem aceitar um papel permanente de fornecedor de matéria-prima. “A questão não é mais se a China vai influenciar os negócios. Ela já influencia. A questão é como o empresário vai se posicionar para capturar as oportunidades”, afirma. 


Na região de Ribeirão Preto, esse movimento já ultrapassou o agronegócio. Empresários dos setores de tecnologia, ferramentas, decoração, educação e construção civil viajam para visitar fábricas, acompanhar protótipos, negociar com fornecedores e observar tendências antes de chegarem ao mercado brasileiro. Em comum, relatam um país bem diferente daquele ainda presente no imaginário de muitos brasileiros, menos associado à produção de baixo custo e mais reconhecido pela capacidade de transformar ideias em soluções industriais, com rapidez e escala.


Foi justamente essa mudança que o empresário Marcelo de Amorim Biagi encontrou ao retornar ao país asiático, neste ano. Acionista da holding Maubisa, ele integra comitês de investimento e viajou para conhecer empresas, avaliar parcerias e identificar oportunidades em tecnologia, saúde, bem-estar e qualidade de vida. A primeira visita havia ocorrido em 2013.


O contraste ficou evidente em Pequim. Na viagem anterior, lembra Biagi, a poluição escondia o céu. Desta vez, encontrou rios recuperados, ar mais limpo, avanços no saneamento e expansão da mobilidade elétrica. “Foi o conjunto da experiência que me levou a pensar no quanto estamos atrás em alguns aspectos”, afirma.


Ele evita, porém, comparações simplistas. Lembra que boa parte da capacidade de execução observada no país está ligada a um modelo político centralizado, diferente da democracia brasileira. “Lá existe uma estratégia de Estado, com continuidade e planejamento. Aqui, muitas vezes, predominam planos de governo que mudam a cada quatro anos”, comenta.


Outra surpresa foi constatar o salto qualitativo da indústria. “Ainda existe a ideia de que todos os produtos chineses são de baixa qualidade. Hoje isso não corresponde mais à realidade”, diz. Para Biagi, o país tornou-se uma potência de eficiência e um dos principais motores da competitividade mundial. Mais do que uma oportunidade ou uma ameaça, representa uma realidade incontornável para quem pretende disputar mercados.


Para Biagi, Ribeirão Preto reúne condições para ampliar essa aproximação, especialmente em tecnologia, equipamentos e soluções voltadas ao agronegócio. Ele faz uma ressalva, porém: os próprios chineses buscam diversificar fornecedores e reduzir dependências estratégicas. 


O intercâmbio tende a crescer, desde que haja planejamento e visão de longo prazo. “Entender a forma chinesa de fazer negócios tornou-se praticamente indispensável para quem deseja competir em diversos setores.”

 

ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS


A mudança de percepção sobre a China foi construída à medida que empresários brasileiros passaram a conhecer o país muito além dos números da balança comercial. Para Cleuber Rufino, empresário, consultor de negócios internacionais e mestre em Direito Internacional, essa transformação começou antes mesmo de a China assumir a liderança entre os parceiros comerciais do Brasil.


Depois de mais de duas décadas no comércio exterior e mais de 30 viagens ao país asiático, ele acompanhou de perto essa evolução. “Quando fui pela primeira vez, a China já impressionava pelo tamanho e pelas oportunidades. Hoje ela é o maior motor da economia global e um destino praticamente obrigatório para quem deseja empreender”, afirma.


Foi durante uma visita à Canton Fair, a maior feira multissetorial do mundo, que surgiu a ideia de criar a Malíssima. Em meio a milhares de expositores, Cleuber enxergou no segmento de malas e produtos para viagem uma oportunidade. Voltou com os primeiros contatos, desenvolveu uma linha própria e importou o primeiro contêiner. As vendas superaram as expectativas e deram origem a uma empresa que nasceu, literalmente, dentro de uma feira chinesa. 


Hoje, Cleuber administra seus negócios, acompanha missões empresariais e orienta empresas interessadas em negociar com fabricantes asiáticos. “Importar da China é uma estratégia para aumentar competitividade, reduzir custos e incorporar tecnologia, mas isso exige planejamento, pesquisa e contato direto. Estar lá faz toda a diferença”, explica.


Na avaliação do consultor, muitos empresários ainda observam o mercado chinês pelos olhos da década de 1990, quando o país era lembrado principalmente pela produção de baixo custo. “Essa realidade mudou completamente. Hoje encontramos tecnologia, logística eficiente, enorme capacidade industrial e uma velocidade de resposta difícil de igualar”, assegura.


No setor de decoração, essa transformação também ficou evidente. Antes mesmo de desembarcar na China pela primeira vez, em 2008, Érica Andrade já convivia com produtos importados. A família havia migrado, na década de 1990, das flores desidratadas para as permanentes, quase todas fabricadas no país asiático.


A primeira viagem, ao lado do marido, Vander Pavão, redefiniu os rumos do negócio. Em vez de comprar por intermediários, o casal passou a negociar diretamente com fabricantes, relação fortalecida ao longo dos anos.


Durante mais de 15 anos, essas viagens abasteceram floriculturas e lojas de decoração. Em 2025, a experiência acumulada resultou em uma loja física. “Sentimos que era o momento de reunir tudo o que aprendemos nessas décadas em um negócio com a nossa assinatura. A Casa Pavão também nasceu para transmitir esse legado à terceira geração da família”, conta.


As viagens também se tornaram uma forma de acompanhar, quase em tempo real, as tendências que deverão chegar ao mercado brasileiro. Anualmente, Érica percorre feiras, centros de distribuição e fábricas em busca de novidades. Ela cita como exemplos os móveis inteligentes para ambientes compactos e o retorno da chinoiserie, estilo inspirado na estética oriental, tendências observadas primeiro na Ásia e que, pouco tempo depois, passaram a ocupar vitrines brasileiras. “Grande parte do nosso trabalho é entender o que vem por aí antes de chegar ao Brasil.”


Na opinião da empresária, também mudou a percepção do consumidor sobre os produtos fabricados naquele país. “Hoje as pessoas entendem que a China produz desde itens simples até produtos de altíssimo padrão tecnológico. A qualidade depende da escolha do fornecedor e do relacionamento construído ao longo do tempo.”


As viagens são fundamentais. “O contato pessoal faz diferença. A cultura chinesa valoriza esse vínculo e é difícil construir uma parceria duradoura apenas à distância”, afirma.

 

DA COMPRA AO DESENVOLVIMENTO


Para muitos empresários da região, viajar à China deixou de significar apenas negociar preços ou fechar pedidos de importação. Em vez de voltar com fornecedores, retornam com ideias, projetos e soluções sob medida. 


Na Movplan & Co, de Ribeirão Preto, essa lógica faz parte da rotina há mais de uma década. Especializada em tecnologia para educação, a empresa desenvolve lousas digitais, mobiliário inteligente e equipamentos utilizados por escolas em todo o país. Parte dos componentes eletrônicos vem da Ásia e é integrada aos equipamentos montados no Brasil.


O CEO Esdras Santana viaja todos os anos, desde 2012. O objetivo nunca foi comprar equipamentos prontos. “Nós não vamos à China comprar produto acabado. Vamos mostrar ao fabricante o que o mercado brasileiro precisa. A maioria dos empresários compra o que está pronto. Nós ensinamos o que precisa ser feito”, resume.


Segundo ele, a indústria chinesa consegue transformar rapidamente uma necessidade do cliente em um protótipo. Ainda assim, ressalta que no setor educacional o diferencial continua sendo a formação dos professores. “A tecnologia é meio, não fim. A transformação acontece quando o professor se apropria dela. Sem capacitação, não existe inovação que faça diferença dentro da sala de aula”, afirma.


Esdras também desmonta outra ideia comum entre empresários que nunca negociaram com fornecedores chineses. “Não basta enviar um desenho por e-mail. É preciso conversar com os engenheiros, explicar o propósito do produto e acompanhar todo o processo. É isso que faz diferença”, ensina.


Essa aproximação também redefiniu a trajetória da Mabore Ferramentas. A empresa distribui ferramentas para profissionais e indústrias por todo o Brasil e, nos últimos anos, passou a investir em linhas próprias, desenvolvidas em conjunto com fabricantes chineses. Quando decidiu buscar fornecedores diretamente nas fábricas, o diretor de Operações, Thiago Dourado, embarcou com muitas dúvidas. O primeiro pedido foi uma caixa avaliada em apenas US$ 3 mil. Hoje, a empresa importa, em média, um contêiner por mês. “Eu decidi ir atrás da fonte”, conta. 


A empresa passou a definir especificações técnicas, acompanhar testes e validar protótipos antes da fabricação em escala. Foi desse modelo que nasceu a Fiontar, marca própria de ferramentas da empresa. Os produtos são concebidos pela equipe em Ribeirão Preto e produzidos por fabricantes chineses a partir dessas especificações. “Quando apresentamos uma necessidade, em pouco tempo já existe um protótipo para avaliação. A velocidade de resposta impressiona”, elogia.


Para Thiago, um dos diferenciais da indústria chinesa está na concentração de fornecedores, fabricantes e operadores logísticos em um mesmo polo industrial. Essa integração reduz custos, encurta prazos e facilita ajustes durante a produção.


Outro aspecto que o surpreendeu foi o atendimento. “Muita gente imagina que o principal diferencial seja o preço. Para mim, é o atendimento. Eles fazem questão de entender o que você precisa e entregar a melhor solução”, afiança.


A construção desse vínculo ultrapassa a fábrica. “Quando o chinês convida você para jantar, significa que a relação comercial entrou em outro nível. Negócio nenhum substitui relacionamento”, afirma.

 

A aproximação entre os dois países também abre espaço para novas estratégias comerciais. É esse o caminho adotado por Eduardo Ferreira, diretor da Petrotec, fabricante nacional de equipamentos para a construção civil. Para competir também com os importados, o grupo criou a Madequip, marca que comercializará equipamentos completos produzidos por fabricantes chineses.


A estratégia é combinar a competitividade desses produtos com a estrutura mantida no Brasil. “Por meio da Madequip, os equipamentos chegam já homologados pela Petrotec, acompanhados de garantia, assistência técnica especializada, estoque de peças e suporte comercial”, explica.


Segundo Eduardo, a proposta é oferecer uma alternativa aos importados que chegam ao país sem estrutura de atendimento. “Nosso objetivo não é simplesmente comercializar produtos importados, mas entregar uma solução completa, respaldada pela credibilidade que construimos ao longo de décadas no mercado da construção civil.” Na avaliação de Eduardo, essa transformação marca uma nova fase da relação entre Brasil e China. “Durante muito tempo ela foi vista apenas como fornecedora. Hoje também participa da criação de soluções e da transferência de tecnologia. É uma oportunidade que muitas empresas brasileiras ainda descobrem”, acredita.

 

ANTES DO NEGÓCIO, A CULTURA


Para Fernando De Lazzari, fundador do Equilibrius e professor de Tai Chi Chuan e Meditação, essa coincidência está longe de ser casual. Estudioso da cultura oriental há décadas, Fernando já esteve seis vezes na China. No fim deste ano, liderará um grupo de 35 brasileiros em um encontro internacional de Tai Chi Chuan, em um roteiro por templos, cidades históricas e paisagens naturais.


Para ele, muitos ocidentais conhecem apenas uma das faces do país. “Hoje a China é reconhecida como uma potência industrial, mas durante séculos foi procurada por pessoas interessadas em aprender com sua cultura, sua história e seus conhecimentos milenares”, pontua.


Segundo Fernando, compreender essa herança ajuda a entender o ambiente de negócios encontrado pelos empresários brasileiros. Valores da tradição confucionista, como disciplina, persistência, respeito, lealdade e dedicação ao trabalho, continuam presentes na sociedade e influenciam a maneira como as relações profissionais são construídas. “Esses princípios tiveram papel importante no desenvolvimento do país e continuam presentes nas relações entre as pessoas”, diz.


Para ele, conhecer costumes não é apenas uma curiosidade cultural. “Compreender a cultura e os costumes de um povo é essencial para construir relações comerciais sólidas e duradouras. Esse conhecimento demonstra respeito, reduz mal-entendidos e fortalece os vínculos entre as partes”, pondera.


Isso ajuda a explicar por que praticamente todos os entrevistados mencionaram as conversas fora das salas de reunião, os jantares com os fornecedores e o tempo dedicado à convivência antes da assinatura de um contrato. Em mercados onde a confiança é construída gradualmente, conhecer a cultura passa a integrar a própria estratégia de negócios.


Fernando acredita que esse aprendizado ultrapassa o ambiente empresarial. “Mais do que visitar pontos turísticos, as experiências mais significativas nascem de uma mente aberta para conhecer tradições, costumes e a história de um país. Essa vivência gera reflexão, amplia a visão de mundo e rompe barreiras que criamos quando permanecemos apenas na nossa própria realidade”, conclui. 

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