A força do ensino superior
Com quase 68 mil matrículas na região metropolitana, instituições impulsionam o mercado imobiliário, o comércio e os serviços em Ribeirão Preto
Todos os anos, no período de matrículas e início de aulas compreendido entre novembro de um ano e fevereiro do seguinte, cerca de 25 mil estudantes entram e saem de Ribeirão Preto, ocupando e desocupando imóveis, em um movimento que o mercado imobiliário convencionou chamar de “turnover”. “É um número bastante expressivo”, comenta Antônio Marcos Melo, corretor e diretor no CRECI (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) São Paulo - regional de Ribeirão Preto.
O mercado de locação de imóveis está entre os setores da economia local mais impactados pela consolidação da cidade como um polo regional de ensino superior, com suas 15 instituições do gênero – número que resulta da soma manual das Instituições de Ensino Superior (IES) atribuídas a Ribeirão Preto no site do e-MEC, – base de dados oficial do Ministério da Educação (MEC).
Embora não haja uma estimativa do volume de negócios movimentado por este nicho no mercado imobiliário ribeirãopretano, o economista Luiz Guilherme Scorzafave pontua que é significativo o bastante para propulsionar a construção de empreendimentos específicos para o perfil universitário, como apartamentos de 1 quarto e quitinetes. “Esse tipo de imóvel é interessante para o locador, pois em geral o preço do aluguel por metro quadrado é maior do que de um apartamento de 2 ou 3 quartos voltado para a classe média”, exemplifica.
De acordo com o economista, antes de tornar-se um polo educacional, Ribeirão Preto desenvolveu forte vocação como polo de serviços, em especial na educação e na saúde. Foi o que passou a atrair estudantes de municípios do interior de São Paulo e diversas regiões de Minas Gerais, predominantemente. “Essa população paga aluguéis, compra nos supermercados e restaurantes da cidade, tendo presença relevante na economia local”, confirma Scorzafave.
Só em 2025, a região metropolitana registrou 34.562 matrículas em cursos superiores presenciais — 22.973 na rede privada e 11.589 na pública — e outras 33.332 em educação a distância, das quais 30.527 estão no setor privado. Os números constam no 16º Mapa do Ensino Brasileiro no Brasil (2026), publicado pelo Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), que cruza dados do Censo Escolar do Ensino Superior do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), com os da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua do IBGE, da Pesquisa de Mensalidades Aplicadas do próprio Semesp, entre outras bases estatísticas.
O Mapa não tem dados restritos apenas a Ribeirão Preto, mas é seguro dizer que a grande maioria das quase 68 mil matrículas (somadas as de cursos presenciais, semipresenciais e Ensino a Distância - EAD) ficam na cidade, diz o economista. Apenas o campus da USP Ribeirão conta, atualmente, com perto de 18 mil alunos – somados os de graduação, pós e afins – recebeu, em 2026, quase 1.400 ingressantes, segundo informações de sua Assessoria de Imprensa. Em 2026, foram matriculados 1.400 ingressantes. Sua estrutura inclui oito unidades de ensino e pesquisa distribuídas pela cidade, além de mais de mil docentes e cerca de 2 mil servidores técnico-administrativos.
Recursos de metrópole, jeito de interior
Oferta acadêmica combinada a uma percepção de qualidade de vida contribuem para a atração de estudantes de fora a faculdades sediadas em Ribeirão Preto. Não é acaso que os dois universitários ouvidos nesta reportagem professam, sem se conhecerem, o mesmo raciocínio ao justificarem suas escolhas por estudarem na cidade.
Oriunda de Goiânia (GO), Fernanda Machado conta foi aprovada em Administração na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de lá e considerou ingressar em programa do Insper, na capital paulista, mas preferiu vir cursar Agronegócio na Harven Agribusiness, pensando em uma melhor qualidade de vida. “Não gostei de São Paulo e acabei vindo para Ribeirão Preto porque ainda mantém um clima de cidade do interior”, relata.
“Ribeirão Preto é uma cidade grande, com todos os recursos de uma, mas que manteve a essência interiorana. Aqui dispomos de tecnologia, bons comércios, bons hospitais, como em uma grande metrópole”, comenta Ulisses Ávila Reis, estudante de Medicina do Centro Universitário Barão de Mauá vindo de Boa Esperança, pequena cidade ao sul de Minas Gerais.
Fernanda diz ter encontrado fácil um apartamento em bairro universitário próximo de sua faculdade, e que sua impressão positiva sobre a cidade se confirmou. Ela gosta do fato de ser uma cidade cheia de estudantes de fora e muitas festas de faculdade. Também afirma estar satisfeita com o curso escolhida e, boa aluna que é, atua nos cargos de diretora da Liga de Pecuária da faculdade e de presidente da Liga de Finanças, a Harven Finance. “Só não gosto de estar longe da minha família e acho que o aeroporto daqui oferece poucas opções de voos. Para ir a Goiânia, preciso fazer escala em Belo Horizonte, Campinas ou São Paulo. Isso deixa a desejar”, avalia.
Já Ulisses teve mais dificuldade para se acomodar na cidade, mas porque recebeu a resposta sobre sua bolsa do Prouni – Programa Universidade para Todos do Governo Federal – apenas uma semana antes do início das aulas. “Tive pouco tempo para conhecer Ribeirão e procurar moradia. Morei por um mês em um hostel no Centro de Ribeirão Preto e quando encontrei imóvel, a princípio, morei sozinho. Hoje divido o apartamento com um colega de turma. É uma forma de auxílio nas contas da casa, além de ter um suporte e alguém com quem contar dentro da cidade, visto que toda a minha família está em Minas”, afirma.
Também adaptado a Ribeirão Preto, o universitário já faz planos de permanecer pela região após a formatura. “Gostei muito da cidade e creio que existam muitas oportunidades de emprego. Além disso, pretendo me especializar e fazer Residência Médica por aqui”, comenta.
Modelos privados, impactos diferentes
No ensino privado superior, o efeito econômico varia conforme o modelo. Cursos presenciais convencionais têm mensalidades estimadas entre R$ 900 e R$ 1.300, enquanto graduações de alto custo, como Medicina, podem alcançar de R$ 8.500 a R$ 11 mil mensais – estimativa obtida aplicando-se a média do Semesp sobre valores públicos de tabelas vigentes em faculdades particulares aferidas por portais como o Quero Bolsa e o Guia da Carreira.
A presença diária no campus exige moradia, transporte e alimentação e sustenta empregos acadêmicos, administrativos e de manutenção. Já o Ensino a Distância (EAD), com mensalidades na faixa de R$ 150 a R$ 400, amplia o acesso e permite escala, mas tende a gerar menor deslocamento residencial e consumo cotidiano no entorno das instituições. O semipresencial ocupa uma faixa intermediária: preserva parte da circulação física e, ao mesmo tempo, atende estudantes que trabalham e precisam de flexibilidade.
A Unaerp representa o modelo de universidade presencial com estrutura ampla de ensino, pesquisa e extensão. A instituição informa reunir quase 8 mil estudantes em 27 cursos de graduação, cinco programas de pós-graduação stricto sensu e 11 de lato sensu. Em 2026, 43% de seus alunos vieram de outras cidades e estados. Para Rafael Tomaz de Oliveira, diretor de Ensino, Pesquisa e Extensão, esse contingente “gera impactos em diferentes setores do município, como moradia, alimentação, transporte, comércio, saúde, cultura, serviços e lazer”.
O efeito local inclui ainda hospitais, clínicas, assistência jurídica, laboratórios e projetos em parceria com o poder público, estruturas mais intensivas em profissionais qualificados e investimento contínuo do que uma operação concentrada apenas na sala de aula. De acordo com o diretor, o desenvolvimento de atividades de pesquisa, por meio de programas de pós-graduação, representa uma estratégia importante no campo da formação continuada e ainda produzem importantes resultados para Ribeirão Preto e a sua macrorregião. No caso específico do município, praticamente todos os nossos programas possuem convênios e desenvolvem projetos em conjunto com secretarias municipais, destacando-se, entre elas, a secretaria do meio-ambiente e a secretaria de saúde”, assinala Oliveira.
Na outra ponta, escolas especializadas procuram transformar vocações regionais em diferenciação acadêmica. Na Harven Agribusiness School, o currículo é organizado em torno dos negócios do agro e da aproximação precoce com empresas. O sócio fundador Roberto Fava Scare afirma que apenas um terço dos graduandos vem de Ribeirão Preto e do entorno. Outro terço procede de cidades em um raio de até 350 km, e o restante chega de áreas mais distantes do Brasil e até do exterior. “Todas as cidades-polo do agro brasileiro estão mandando seus filhos para estudar aqui”, diz.
A instituição declara manter mais de 61 empresas parceiras, além de conexões com ambientes locais de tecnologia, o que mostra como uma escola de nicho pode atrair renda externa e, ao mesmo tempo, aproximar formação, estágios e cadeias produtivas regionais.
EAD
A Faculdade Metropolitana ilustra o modelo de escala apoiado em EAD e semipresencialidade. A rede informa atender 280 mil alunos em graduação, pós-graduação, extensão e aperfeiçoamento, a maioria em formatos a distância ou semipresenciais.
O CEO Antonio Steca atribui a expansão à combinação de tecnologia, atendimento e preço acessível. Segundo ele, a flexibilidade ganhou peso sobretudo entre estudantes que trabalham, e o semipresencial cresce por combinar essa conveniência com interação física. Nesse arranjo, o impacto local se concentra menos na mudança de domicílio de cada aluno e mais na manutenção, em Ribeirão Preto, de equipes docentes, mediação pedagógica, tecnologia, produção de conteúdo, gestão e infraestrutura de campus. A presença física, afirma Steca, ajuda a gerar confiança mesmo entre quem estuda remotamente.
Fora da mensalidade e do aluguel, o universo universitário irriga uma cadeia pulverizada. Scorzafave destaca lavanderias, alimentação rápida, festas, transporte por aplicativo, DJs e bandas locais entre as atividades diretamente alcançadas pelo consumo estudantil. A capacidade de converter esse movimento temporário em desenvolvimento permanente, contudo, depende da absorção dos formados. O economista observa que o resultado varia por área: Administração e Economia perdem parte dos egressos para São Paulo, enquanto Enfermagem encontra maior espaço em Ribeirão por causa do tamanho do setor de saúde.
Neste sentido, a Unaerp procura favorecer a absorção dos concluintes de seus cursos no mercado de trabalho ribeirãopretano por meio do Núcleo de Egressos e de ações voltadas à aproximação e à manutenção do vínculo com sua Comunidade Alumni. O objetivo é acompanhar a trajetória desses egressos após a conclusão do curso e compreender sua inserção profissional.
Ribeirão Preto é, portanto, um polo educacional não apenas porque concentra matrículas, mas porque combina formatos capazes de atingir públicos distintos. O presencial traz jovens, famílias e demanda recorrente por moradia e serviços; universidades completas acrescentam pesquisa, extensão e atendimento comunitário; escolas especializadas conectam a cidade a cadeias produtivas; e redes EAD e semipresenciais ampliam o acesso e criam operações de escala. O desafio é fazer com que essa pluralidade continue gerando inovação e empregos qualificados, reduzindo a fuga de talentos e transformando a passagem dos estudantes em vínculos econômicos duradouros.