Crônica de um abandono anunciado
Protetores, tutores e o poder público expõem como a repetição dos maus-tratos transforma a omissão cotidiana em responsabilidade coletiva; caso do Orelha voltou a colocar problema em evidência
A porta do apartamento da tatuadora Aniele Brandão, a Anie, fica numa rua movimentada do Centro. A poucos metros, carros disputam vagas, gente atravessa fora da faixa, sacolas batem nas pernas. O cotidiano segue no modo automático até que um detalhe rompe a normalidade, uma cachorrinha recém-chegada, pequena, ainda desconfiada, tentando entender que aquela casa não é mais uma escala na rota do abandono. Maturin chegou no final de janeiro. Ainda sem nome, com o corpo doendo por dentro e uma história que parece grande demais para caber em um animal tão pequeno. “Ela está em tratamento para infecção do útero e bexiga, pois está toda infeccionada por dentro”, conta Anie. Teve filhotes recentemente; para ela, o quadro tem cara de negligência repetida. “Provavelmente por isso ela deve ter ficado assim por dentro, por falta de cuidados.”
O caminho até a adoção começou em rede. A amiga Daniela, dona de petshop e ligada à causa; a protetora Gislaine, que postou o pedido de ajuda, o perfil de Larissa, do banho e tosa, onde Anie viu a foto e mandou mensagem, e um lar temporário que parece uma síntese do colapso silencioso. “A Gislaine enviou a Maturin pra um lar temporário com mais de 90 cães na casa de uma senhora chamada Márcia, que cuida deles.” Antes do resgate, Maturin estava presa com outros quatro cães numa casa “rodeados de sujeira sem comida e água”. “Não comia há dias”, diz Anie. E as cenas, quando descritas por quem viu, não pedem adjetivo. “Ela estava fazendo coco com vermes, tadinha.”
A conta chegou cedo. Até o momento da entrevista, os gastos com tratamento giravam em torno de mil reais, e o que vem pela frente ainda assusta. “Tem mais tratamento e a castração, pois ela precisa urgentemente ser castrada para poder melhorar 100%.”
E isso é parte do motivo pelo qual Anie demorou a adotar de novo. O que pode soar como hesitação, para ela é responsabilidade. “A decisão de não ter um animal até agora reflete meu respeito por eles. Compreendo que a guarda responsável vai além do carinho e amor… Envolve disponibilidade de tempo e estabilidade financeira. Prefiro não ter um bicho a não ser capaz de garantir a ele uma vida plena e digna.”
COMPAIXÃO, SISTEMA E EXAUSTÃO
Carla e Bia Papis, moradoras do Campos Elíseos, descrevem dez anos na proteção animal como uma sequência de resgates que já não cabe em planilha. “Já fizemos mais 200 resgates, já perdemos até a conta”, dizem. Não são ONG formal, fazem questão de explicar. São protetoras. Gente que pega a urgência na rua, acolhe em casa, paga quando pode, pede quando não dá e tenta doar com critério, escolhendo famílias compatíveis com o perfil do animal, o que, na prática, é um jeito de tentar quebrar o ciclo da devolução e do abandono.
Elas falam de maus-tratos comuns, como acorrentamento, relento, alimentação ruim, mas apontam o crime de abandono como algo normalizado. “No fim do ano a gente resgatou muitos animais em estradas, porque ninguém vê, né? Joga o animal ali no meio do nada.”
Mas Carla faz questão de reforçar que o problema é estrutural e que heróis sozinhos não vão conseguir resolver completamente o problema. “Se resolve com política pública permanente, fiscalização e uma rede que não dependa da sorte de alguém passar por ali e ter “bom coração”, explica.
“Para quem está na causa animal tentando salvar animais nas cidades, o maior desafio não é apenas a falta de recursos financeiros, mas uma combinação de falta de rede de apoio e omissão do poder público”, explica Anie. E ela lista mais lares temporários, mais empatia e políticas de castração. “Com microchip dá pra identificar os tutores e punir de alguma forma caso os abandonem.”
O QUE O PODER PÚBLICO ESTÁ FAZENDO
A Prefeitura de Ribeirão Preto afirma ter uma política oficial para proteção e bem-estar animal que inclui recolhimento e atendimento veterinário. “Atuamos no recolhimento de cães e gatos não tutorados em situação de vulnerabilidade (como atropelados em vias públicas e as vítimas de maus-tratos, por exemplo); atendimento veterinário aos cães e gatos comunitários; monitoramento de colônias de gatos (captura, castração e devolução); castrações; campanhas de adoção responsável; e atendimento de denúncias”, afirma Claudio Almeida, secretário municipal do Meio Ambiente.
Os números apresentados pela gestão dão dimensão do que entra no sistema público e, ao mesmo tempo, sugerem o tamanho do que fica fora. Segundo o secretário, nos últimos dois meses, foram feitos 51 atendimentos a animais atropelados, cães e gatos principalmente, e 67 atendimentos de assistência veterinária à cães comunitários. Em relação a maus-tratos, o município registrou 49 ocorrências entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano.
Para quem está no resgate, porém, os números são apenas a parte visível. Eliana Aparecida Pinheiro, tesoureira da Associação Cãopaixão, descreve o que acontece quando a urgência aparece e a pessoa não tem para onde correr. “Às vezes um atropelado… a pessoa tem bom coração, tem boa vontade, mas infelizmente não tem condição financeira”, diz. Sem assistência, o animal morre no asfalto, ou sobrevive para sofrer por dias. “Hoje o atendimento emergencial a animais de rua fica exclusivamente daquele que o resgatou… faz bazar, faz vaquinha, pede colaboração… e a gente tenta fazer o melhor.”
Eliana explica que a tutela de casos graves, como a de animais com algum tipo de deficiência, dificilmente viram propaganda. “Atualmente, nós temos sete tutelados fixo, cachorros que nós mantemos desde seus resgates por serem cachorros deficientes. Temos um que nasceu completamente tetraplégico e vai ficar conosco até o seu desencarne.”
A protetora aponta também a reprodução sem controle e abandono por incapacidade financeira. “Tem pessoas que adotam, não conseguem cuidar e acabam abandonando. É preciso um programa de castração que atinja a massa”.
O secretário afirma que há previsão de ampliar programas de castração e educação. “O Castramóvel está em fase de assinatura dos contratos com as empresas terceirizadas. O novo edital de castração está sendo elaborado para contratação de clínica terceirizada”, diz. E adiciona um elemento de prevenção cultural: “Existe previsão para a aquisição de materiais educativos acerca de maus-tratos e guarda responsável de animais para palestras em escolas.”
Protetoras, por sua vez, descrevem um histórico de descontinuidade e a sensação de que o tempo administrativo não acompanha o tempo biológico dos animais. Carla, numa avaliação dura, mas comum entre quem espera anos por um serviço que deveria ser básico, critica a a falta de diálogo efetivo do poder público. Eliana explica que o diálogo é “mais teórico do que prático. Formaliza, recebe promessas, mas infelizmente nada é cumprido.”
“Não existe parceria formal. Existe previsão para o cadastramento de ONGs e protetores independentes”, afirma Claudio Almeida.
UMA NOVELA CHAMADA CLÍNICA VETERINÁRIA
A clínica veterinária pública de Ribeirão Preto virou, ao longo dos últimos anos, uma espécie de novela administrativa acompanhada de perto por protetores, ONGs e tutores. Anunciada pela Administração anterior como um equipamento estratégico para ampliar o atendimento a cães e gatos, especialmente de famílias de baixa renda, protetores independentes e animais em situação de rua, a unidade foi apresentada inicialmente como um hospital veterinário público, com promessa de consultas, exames e procedimentos de baixa e média complexidade. “A clínica seria importante porque atendimento veterinário é caro”, diz Eliana.
O tempo, porém, passou mais rápido que o cronograma. O projeto enfrentou entraves técnicos e jurídicos, incluindo suspensão e ajustes em editais, questionamentos de órgãos de controle e a necessidade de readequação do modelo de gestão. Enquanto isso, o prédio que fica na avenida Luís Galvão César, no bairro Jardim José Sampaio, zona norte da cidade, permanece fechado e, segundo relatos de protetores, chegou a sofrer episódios de depredação. Agora, a Prefeitura afirma que o processo está na fase de análise das propostas do plano de trabalho das empresas interessadas na operação da clínica e que a expectativa é iniciar o funcionamento ainda no primeiro semestre.
Enquanto isso não acontece, a prefeitura diz que atende urgências dentro de um limite. “A Gerência de Bem-Estar Animal presta atendimento veterinário de baixa complexidade a animais não tutorados em situação de vulnerabilidade. Atendimentos de média e alta complexidade são encaminhados a clínicas e hospitais veterinários particulares”, afirma o secretário.
Carla, Bia e Eliana repetem, com variações, uma constatação que a proteção animal já conhece há décadas. O peso do resgate costuma cair sobre mulheres, muitas delas de bairros populares, acostumadas a fazer vaquinha para aquilo que deveria ser serviço. “Eu falo mulheres porque a maioria das protetoras são mulheres que tiram do próprio bolso, que faz rifa, que se organiza para salvar vidas.”
Essa dinâmica ajuda a entender por que campanhas pontuais não mudam o cenário. Não se trata apenas de salvar um animal aqui e outro ali. Trata-se de reduzir a produção constante de novos abandonados. Carla traduz cultura em mito que precisa ser quebrado. “As pessoas precisam entender que para castrar um cachorro macho, ele não vai deixar de ser macho, o animal não precisa cruzar uma vez para provar virilidade.”
No ano passado, segundo a Prefeitura de Ribeirão Preto, foram realizadas cerca de 11 mil castrações gratuitas de cães e gatos, o maior programa da história do município para controle populacional desses animais. Segundo monitoramento da Divisão de Bem-Estar Animal, a cidade possui aproximadamente 300 mil cães e gatos, cifra que ajuda a dimensionar o salto que ainda falta dar em controle populacional. “Enquanto resgatamos um, dez estão nascendo ali”, lamenta Eliana.
BENTO PRECISA DE UM LAR
Bento não nasceu com dono, mas nasceu em meio a gente trabalhando. A mãe apareceu numa obra no bairro Nova Aliança Sul, em Ribeirão Preto, e ali deu cria. Pouco tempo depois, foi envenenada. Os filhotes também morreram. Só Bento sobreviveu. O engenheiro Alexandre Andrade, que acompanhou a história desde o início, explica que Bento tem pouco mais de três anos e cresceu livre. “É muito dócil, brincalhão, mas gosta e precisa de espaço”. Ele está com as vacinas em dia e os funcionários que cuidam do cão até pensam em ajudar quem adotar Bento, com a ração nos primeiros meses. Com a nova obra perto de ser entregue, Alexandre decidiu levar Bento temporariamente para casa, mas diz que não pode ficar. Falta espaço. Falta estrutura. Falta tempo. “Bento é um vira-lata de porte médio, acostumado ao quintal, a circular solto, a viver onde há gente, mas não grades”, descreve o engenheiro. Quem quiser adotar o Bento pode entrar em contato com o Alexandre pelo Whatsapp (16) 99159-5603.