Eternos
Os exemplos e lições deixados por grandes nomes do Direito ribeirão-pretano nas palavras de seus “herdeiros”. Nossa melhor forma de reverência é contar um pouco sobre os legados deixados por eles
Nesta terceira edição do Guia Jurídico Revide, homenageamos profissionais que deixaram suas marcas no ambiente do Direito ribeirãopretano, não apenas pela fama, mas pelos bons exemplos e modelos de atuação que seguem influenciando a atual e novas gerações de advogados. Caso dos saudosos advogados Brasil e Marcelo Salomão, Luiz Carlos Bento, Ovídio Rocha Barros Sandoval, Said Issa Halah e Saulo Ramos.
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Imortais do Direito
Os legados imateriais deixados por eles, a seus pares e a descendentes, consistem em valores como respeito, honestidade, generosidade, que nunca antagonizaram com a combatividade demandada a qualquer profissional da lei e que eles também sabiam exercer. Assumindo o papel de “memória” de nosso público leitor, registramos aqui nossa melhor forma de reverência, que é contar um pouco sobre esses legados.

Entre os nomes memoráveis do Direito ribeirão-pretano que homenageamos nesta edição, o “Dr. Brasil” – como era e continuará sendo chamado o advogado Brasil do Pinhal Pereira Salomão – e Marcelo Vianna Salomão são as perdas mais recentes e, certamente, as que mais geraram comoção, não apenas entre seus pares.

Pai e filho saíram ou foram citados em tantas matérias nestes 40 anos de Revide que sequer damos conta de quantificar – a última, juntos, foi na edição 2025 deste Guia Jurídico; sozinho, Dr. Brasil também foi personagem em uma das memoráveis primeiras capas da Revide Ancienne (nº 10, de outubro de 2020).
Ele foi, porém, mais do que fonte e personagem para a Revide. Tornou-se um grande parceiro, sempre disponível para consultas ou entrevistas, assim como esteve para todos os clientes ao longo da história do Brasil e Matthes Advocacia, escritório que ele fundou e Marcelo fez crescer Brasil afora e atravessar o Atlântico – além da matriz, em Ribeirão Preto, tem unidades em São Paulo, Franca, Rio de Janeiro, Campinas, Goiânia, Três Lagoas, Belo Horizonte, Rondonópolis, Cuiabá, São José do Rio Preto e, em Portugal, na capital Lisboa e na cidade de Porto.
Foram muitos os legados deixados por ambos para o ambiente do Direito, não só em Ribeirão Preto. “Marcelo e papai influenciaram o Brasil e, além das fronteiras, inspiraram e forjaram muitos profissionais”, resume a consultora Simone Vianna Salomão, filha de Dr. Brasil e irmã de Marcelo.
Gerações de profissionais iniciaram suas carreiras como estagiários no escritório. A maior parte dos que saíram abriu seus próprios escritórios, seguros dos valiosos aprendizados que levavam na bagagem. O maior deles sendo também o principal legado deixado por Dr. Brasil e Marcelo, na opinião unânime de todos que foram atendidos, atendem ou atenderam com eles: “entrou por aquela porta, é rei. O cliente é rei”, reproduz Simone o jargão do pai. “E também é amigo, fornecedor, parceiro — é quem caminha junto, cresce junto”, acrescenta.

Marcelo foi além dos aprendizados, inovando na governança, viabilizando atualizações, colocando em prática um olhar visionário responsável pela expansão do escritório e seu reconhecimento como um dos maiores e mais importantes do país. “Ele sempre foi um construtor de pontes. Sempre conectou pessoas, fosse para auxiliar nossos clientes em suas demandas, fosse para nos unir sempre mais como sócios. A sua gestão humanizada buscou inovar para trazer soluções às mais variadas questões, sempre com muito carinho e atenção às pessoas”, comenta a viúva de Marcelo e também advogada no escritório, Mariana Denuzzo Salomão.
A advogada Mariana Denuzzo Salomão, viúva de Marcelo: "ele sempre foi um construtor de pontes"
E se Dr. Brasil e Marcelo conseguiam ser acolhedores em um meio tão combativo como o Direito, o que dizer deles na intimidade? “Melhor filho que uma mãe poderia desejar”, responde dona Lúcia Helena Viana Salomão sobre Marcelo. “Inteligente, amoroso e protetor. Continuou o legado do pai, com brilhantismo, e o aprimorou. Sinto muito por uma pessoa tão especial como ele não ter tido tempo suficiente para encaminhar seus três filhos, mas acredito que ele cumpriu sua missão e hoje repousa nos braços de Nossa Senhora”, completa, antes de demonstrar, em depoimento sobre Dr. Brasil, o quanto sua admiração pelo marido perdura. “Um visionário, inteligente, batalhador e competente em tudo o que fazia. Realizou o sonho da vida dele, que era ser advogado, e o foi até o seu último dia. Entristece-me lembrar de suas orações... pedindo só mais um tempo para acompanhar de perto seus quatro netinhos, por quem tinha verdadeira adoração… e, de alguma forma, encaminhar aqueles que escolheram a mesma profissão dele”.
Para Simone, ter nascido em tal núcleo familiar foi uma “vivência única”. Sobre o irmão, diz que só quem teve a bênção de conviver sabe o quanto era iluminado, profundo em sabedoria humana, no defender e no cuidar, além de brilhante advogado. “Hoje, mais do que lembrar, é reconhecer e sentir a presença expandida deles em cada lembrança, decisão, ensinamento”, comenta, emocionada, antes de concluir: “são marcas que ficam na alma e, em especial, no coração. Ao Brasil e ao Marcelo, muito, muito obrigada! Deus os abençoe onde estiverem”.

O advogado criminalista Luiz Carlos Bento estampou páginas da Revide pela primeira vez, em outubro de 1991, em uma entrevista de páginas amarelas, que abriam cada edição à época. Foi apresentado como um filho de família humilde que conseguiu graduar-se em Direito e erigir-se entre os mais respeitados profissionais da área, em Ribeirão Preto.

Autoconfiante, Bento não se intimidava ou se colocava na defensiva, mesmo quando vítima de preconceitos. Era combativo, sem ser desrespeitoso, segundo a advogada Sandra Escolano, que trabalhou em seu escritório. “Tinha paciência de ensinar. As portas do seu escritório estavam sempre abertas para colegas que quisessem tirar dúvidas”, acrescenta.
Inspirou tanto respeito em vida que após sua morte, em dezembro de 2020, deram seu nome à sala da OAB no 1º Distrito Policial – hoje Central de Polícia Judiciária. “Foi mais do que merecido. Ele vivia por lá defendendo seus clientes. Os juízes o consideravam um grande processualista e muito competente. Mais do que isso: em todas as demandas em que a OAB precisou de um advogado nativo para atender pedidos de pessoas simples, ele prontamente atendia”, elogia advogado Luiz Vicente Ribeiro Corrêa, presidente da 12ª secção da entidade à época.

Segundo dos três filhos do advogado, Felipe Bento, 33 anos, foi o único a seguir a carreira do pai – Rafael, único do primeiro casamento, faleceu aos 36, em 2014, em acidente de trânsito; Estevão, 23, atua com segurança privada. “Tivemos pouco contato durante minha infância, mas, a partir do momento que comecei a trabalhar com ele, aos 15 anos, tivemos várias interações como pai e filho. Isso influenciou minha formação como pessoa”, conta Felipe, que atua como planejador jurídico em um escritório da cidade.
Ele considera uma grande responsabilidade carregar tal sobrenome, mas, acima de tudo, um orgulho! “Há pedaços da vida do meu pai espalhados por toda Ribeirão Preto e isso é muito gratificante! Colegas meus advogados atuantes na área criminal têm meu pai como referência. Então, o legado dele segue vivo”.

O maior dentre muitos conteúdos publicados pela Revide sobre o ex-juiz, advogado e jurista Ovídio Rocha Barros Sandoval é um conteúdo de capa da Revide Ancienne nº 3, de setembro de 2019. Dr. Ovídio somava, então, 79 anos de vida, 57 de carreira, um casamento de 53 anos, cinco filhos e 12 netos, mas sequer cogitava se aposentar. “Minha paixão pelo Direito é tão grande que eu não sei ficar sem ela”, dissera, então.

Tal paixão foi o maior legado deixado por ele aos três filhos que seguiram seus passos no Direito: Ovídio Júnior, nascido em 1966, Henrique Augusto (1978) e Thiago (1983). As filhas, Luciana (1970) e Maria Beatriz (1982), seguiram outras profissões. Os três, e também o neto Leonardo, levam adiante seu legado no escritório Saulo Ramos Rocha Barros Sandoval. “A importância do nosso pai no que se refere ao Direito é assustadora para nós até hoje. Recentemente, eu estava num almoço em Campinas com três desembargadores e eles disseram que meu pai não marcou somente a magistratura e a advocacia, mas também a vida deles como pessoas”, narra Ovídio Júnior.
“Nosso pai veio de uma escola de juristas extremamente competentes e reconhecidos”, comenta Henrique, referindo-se, principalmente, às atualizações feitas por Ovídio para o livro “O Direito e a vida dos direitos”, de Vicente Ráo, e para livros de José Frederico Marques, juristas renomados e seus primeiros mentores na carreira, iniciada em 1962 em escritório deles. Como professor universitário também foi exemplo para jovens advogados.

Ovídio Jr. ampara caricatura enquadrada do pai, entre os irmãos Thiago (esq.) e Henrique (dir.)
Ovídio Júnior foi o único dos filhos a acompanhar a atuação do pai como juiz, entre 1981 e 1985. “A paixão que ele tinha pela magistratura me encantava”, lembra. Já em sua prática como advogado, o que ficou mais marcado para os filhos foi sua empatia e calor humano no atendimento aos clientes e na relação com seus pares. “Meu pai gostava de criar vínculo e fazer amizade, conhecer a vida, entender não só o problema, mas a pessoa que o trazia”, descreve Ovídio Júnior. “Ele impunha respeito sem ser hostil ou grosseiro”, acrescenta Henrique.
Já o ser humano Ovídio orgulha a toda a família. “Nosso pai deixou no coração de todos os filhos um amor tremendo e muita força, a ponto de todo dia nos lembrarmos dele”, conclui Thiago.

A última aparição do advogado Said Issa Halah na Revide também foi em uma capa da Ancienne (nº 5, de novembro de 2019). O título, “Saber e Viver”, foi apropriado, já que “saber” foi o que mais o dr. Said acumulou com a leitura de milhares de livros ao longo da vida. Seu “Viver” deixou inúmeros exemplos de boas condutas profissional e humana.

Segundo sua filha, a advogada Patrícia Halah – irmã de André (médico) e Ricardo (engenheiro) –, o respeito inspirado pelo pai a seus pares era tanto que muitos o procuravam para pedir orientações em casos difíceis ou defendê-los em alguma arbitrariedade cometida por autoridades, por exemplo. “Meu pai sempre foi um defensor e lutou também pelos menos favorecidos. Era pessoa íntegra, respeitada, estudiosa, culta e extremamente generosa”, declara.
Patricia e o sobrinho Thales Halah Neto – também advogado e o que mais partilhava o prazer da leitura e conversas sobre livros com os avós – atuam no escritório onde Said trabalhou até o fim da vida, mas não foram os únicos seguirem carreira no Direito. “Dos sete netos, quatro atuam na área. Meu avô influenciou a segunda geração quase inteira da família”, graceja Thales, que demonstra orgulho em levar adiante o legado do avô. Com ele diz ter aprendido a atender qualquer pessoa com o mesmo carinho e cuidado, sem se importar se tem dinheiro ou não. “Dizia que mesmo que não ganhasse dinheiro, ganharia experiência”, conta. “Quantas e quantas pessoas ele atendia de graça, quantos casos e até custas para o cliente ele pagou!”, reforça Patrícia.
Patricia Halah e Thales Halah Neto: filha e neto se orgulham de levar adiante tudo o que aprenderam sobre Direito com Said Issa Halah
Como pai, segundo a advogada, Said deixou como legado consciência social, necessidade de aprimoramento pessoal permanente, respeito ao próximo, honestidade e posicionamento ante injustiças. Como avô, tudo isso e um orgulho imenso segundo Thales: “foi ele quem me ensinou essa profissão e enquanto eu advogar vou seguir o padrão dele”.

Ao falecer de câncer em 28 de abril de 2013, o jurista, jornalista, escritor e poeta Saulo Ramos – nascido José Saulo Pereira Ramos, em Brodósqui – ocupou manchetes imprensa afora que o identificavam, principalmente, como ex-ministro da Justiça. Era mais lembrado pelos cargos que ocupou na política – também como assessor especial do ex-presidente José Sarney e oficial de gabinete de Jânio Quadros –, mas sua atuação como jurista é até hoje incensada como sua maior contribuição para o país por grandes nomes do Direito. Entre eles o do atual ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), José Antônio Dias Toffoli, que já destacou como a grande obra de Ramos a idealização da Advocacia-Geral da União (AGU).

Como advogado, Ramos conduziu processos memoráveis, como o que culminou na cassação dos direitos políticos do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Trabalhando no escritório do célebre Vicente Rao, conheceu Ovídio Rocha Barros Sandoval, amizade da vida toda que até o influenciou a estabelecer-se em Ribeirão Preto. Morava no mesmo condomínio que o amigo, a quem legou de herança o terreno onde foi construída a sede do escritório Saulo Ramos Rocha Barros Sandoval, que hoje abriga um memorial seu.
Para os filhos, foi um paio do qual se orgulhar. A hoje arquiteta, urbanista e empresária Márcia Sartori, que tinha 6 anos de idade quando sua mãe se casou com Ramos, assumindo-a como filha, lembra dele receber em casa juristas e outros profissionais que vinham pedir sua opinião em questões para as quais sempre encontrava soluções.

Fernando Saulo Ramos, filho do primeiro casamento, não teve muito tempo com o pai na infância, mas a convivência foi suficiente para ter lhe deixado grandes lições. “O maior legado que recebi do meu pai foi como se provar na vida com honestidade e caráter ilibado”, diz o empresário, que, apaixonado por surf e esportes radicais, nunca se interessou em seguir carreira no Direito.
O mais importante, para Marcia, foi ter lhes deixado muito amor. Em suas palavras, um “amor que acolhe e que distribui”.