Junho verde

Junho verde

No mês em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, escolas, universidades e espaços públicos de Ribeirão Preto ampliam o debate sobre as mudanças climáticas

Junho chegou e com ele o Dia Mundial do Meio Ambiente. Em Ribeirão Preto, o mês inteiro foi convocado para pensar, debater e agir sobre o que talvez seja o desafio atual mais decisivo: as mudanças climáticas e seus impactos sobre cidades, florestas, rios, saúde e modos de vida. Em torno da data, celebrada em 5 de junho, uma série de eventos, atividades e iniciativas torna a cidade palco de reflexão coletiva apontando que as respostas para a crise ambiental não cabem em uma única voz, nem em um único lugar. 


Da universidade ao quintal, passando por audiências públicas e mutirões de limpeza, Ribeirão Preto vive, neste mês, um junho verde. E o recado é o mesmo para todos: não há mais tempo para esperar. Com a intensificação das mudanças climáticas e o aumento da frequência de eventos extremos, as cidades enfrentarão desafios cada vez maiores relacionados à adaptação e à resiliência urbana. 
Não só meio ambiente, mas saúde pública, infraestrutura, economia e qualidade de vida da população sofrerão impactos e os efeitos ocorrem de forma desigual, atingindo com maior intensidade populações e territórios mais vulneráveis. Poder público, instituições, especialistas e sociedade precisam melhorar sua capacidade de resposta e adaptação.

 

A CIDADE QUE SE PREPARA PARA O CLIMA


A Prefeitura de Ribeirão Preto ampliou, neste ano, o escopo das ações do Dia do Meio Ambiente para um Mês do Meio Ambiente completo, com programação estendida de 1º a 30 de junho, sob o tema "Mudanças Climáticas: o compromisso com o amanhã começa hoje". A iniciativa, coordenada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Sustentabilidade - SMMAAS, inclui desde simpósios científicos internacionais até ações educativas em escolas periféricas, passando por blitz nas ruas e treinamentos para brigadistas.


Para a secretária Mariana Sargento, a mobilização vai além do calendário. "Ter um mês inteiro de ações voltadas à sensibilização e à conscientização da população sobre o meio ambiente e sua conservação, nos permite ampliar as atuações e o impacto em Ribeirão Preto. Nosso objetivo é tornar a pauta cada vez mais atrativa para a sociedade", afirma.


A gerente de Educação Ambiental da Secretaria, Rafaela Gomes, explica a lógica por trás da expansão da programação. "Decidimos ampliar o alcance deste projeto porque cuidar do meio ambiente é um compromisso urgente, que impacta diretamente o município e o planeta. Nosso objetivo é levar conhecimento e soluções práticas para o dia a dia das pessoas, incentivando a participação da população e fortalecendo uma rede de cuidado com a nossa cidade."


Um dos pontos centrais da programação municipal é o 1º Seminário de Adaptação e Resiliência Climática, realizado no dia 8 de junho no Centro de Apoio à Educação Ambiental, dentro do Bosque e Zoológico Fábio Barreto. O evento reúne pesquisadores, gestores públicos e especialistas para discutir como Ribeirão Preto pode se tornar mais preparada para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, das enchentes às secas, das ondas de calor aos incêndios florestais.


"As mudanças climáticas já deixaram de ser um desafio futuro e passaram a impactar diretamente cidades, áreas rurais e a qualidade de vida da população", adverte Daniel Caiche, especialista em mudanças climáticas e mercado de carbono, um dos palestrantes do seminário. "Minimizar esses riscos exige uma combinação entre redução de emissões, planejamento territorial, fortalecimento de políticas públicas, uso de ciência e dados, além da implementação prática de soluções sustentáveis", afirma.


Caiche defende o que chama de Soluções Baseadas na Natureza como caminho prioritário: arborização urbana, recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes e agricultura regenerativa. "São ações capazes de aumentar a resiliência dos territórios, reduzir vulnerabilidades e gerar benefícios sociais, ambientais e econômicos ao mesmo tempo", pontua.


No dia 11 de junho, a cidade dará mais um passo na construção coletiva de um futuro climático mais seguro realizando a Audiência Pública do Plano Municipal de Adaptação e Resiliência Climática (PARC), no Centro Cultural Palace. O plano, elaborado de forma participativa por um Grupo de Trabalho Interinstitucional que reúne poder público, academia, setor privado e sociedade civil, será apresentado à população para receber sugestões e contribuições.

 

CIÊNCIA E SUSTENTABILIDADE DENTRO DA UNIVERSIDADE


A Universidade de Ribeirão Preto – UNAERP, está entre os parceiros centrais da programação municipal e abriu o mês com sua própria Semana do Meio Ambiente, entre os dias 1º e 2 de junho, no Teatro Bassano Vaccarini. Com o tema "Educação Ambiental, Tecnologias e Sustentabilidade". O evento reuniu docentes, pós-graduandos e graduandos apresentando pesquisas aplicadas que conectam ciência e soluções concretas para os desafios do presente.


A programação abordou temas como vermicompostagem e créditos de carbono, monitoramento da qualidade do ar em ambientes urbanos, filmes de biopolímero de alga como alternativa sustentável a plásticos convencionais, contaminação por metais em peixes e riscos à saúde humana, tratamento de efluentes e gestão de resíduos sólidos urbanos — uma mostra da pluralidade de frentes em que a pesquisa ambiental atua dentro da universidade.


Para a professora Isadora Alves Lovo Ismail, doutora em Tecnologia Ambiental, coordenadora da Sala Verde UNAERP, do Ministério do Meio Ambiente, e uma das organizadoras do evento, a iniciativa representa muito mais do que uma celebração de data. "A Semana do Meio Ambiente da UNAERP representa um espaço de integração entre ciência, educação e sustentabilidade, aproximando a universidade da sociedade por meio de debates atuais e de grande relevância ambiental. Esses eventos são fundamentais para ampliar o olhar crítico da sociedade sobre as questões ambientais e estimular a construção de soluções coletivas."


A programação universitária inclui ainda, no dia 10 de junho, um Simpósio Internacional sobre "Microbiota dos Alimentos e Saúde dos Ecossistemas", no Bosque Zoo, em parceria com a Secretaria Municipal. Realizado integralmente em inglês, o evento reunirá pesquisadores da USP-Ribeirão Preto e da Appalachian State University (EUA) para discutir as conexões entre biodiversidade, sistemas alimentares e saúde global, a chamada abordagem One Health.

 

ENGENHEIROS, ARQUITETOS E AGRÔNOMOS NO DEBATE AMBIENTAL


A Associação de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Ribeirão Preto — AEAARP, também entrou em campo com sua Semana de Meio Ambiente, realizada entre os dias 1º e 3 de junho.
As palestras articularam o debate ambiental nas perspectivas dos hábitos sustentáveis no cotidiano, impactos do aquecimento global sobre a saúde humana e potencial econômico da economia circular.

Mariana Bombonato, do movimento Verdes Marias — vencedor do TikTok Awards 2025 e integrante do programa Agentes do Verificado da ONU — apresentou "Microrrevoluções: mudanças que podemos fazer para levar uma vida mais sustentável". Sérgio Tulio Caldas, jornalista vencedor do Prêmio Jabuti e colaborador de veículos como National Geographic e Veja, abordou os impactos do aquecimento global sobre a saúde humana. Diego de Freitas Espinoza, especialista em economia circular e fundador da RÜPU Consultoria, discutiu como transformar resíduos em ativos econômicos e ambientais.


"A questão ambiental deixou de ser um tema restrito aos especialistas e passou a fazer parte das decisões que impactam diretamente a qualidade de vida nas cidades. A proposta da Semana de Meio Ambiente é justamente aproximar informação, conscientização e atitudes práticas da comunidade. Este ano nossa preocupação foi trazer palestras educativas e de conscientização para demonstrar a realidade ambiental em que estamos inseridos e formas de tornar a nossa vida mais sustentável, econômica e ambientalmente mais adequada", diz Liliane Terra, engenheira e diretora de Meio Ambiente da AEAARP.


RESÍDUOS, QUEIMADAS E EDUCAÇÃO NAS RUAS


As ruas também são palco de ação no Junho Verde. A Prefeitura realizará três blitz educativas sobre prevenção de queimadas e incêndios florestais — em 15, 23 e 30 de junho — em pontos estratégicos como a Mata da USP, a Estação Ecológica de Santa Tereza e o Morro de São Bento, em parceria com Defesa Civil, Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana.


Nas escolas, conscientização lúdica e acessível. O Instituto do Livro realiza contação de histórias sobre prevenção de queimadas na Escola Sathya Sai, no Jardim Florestan Fernandes. A Defesa Civil promove aula prática com demonstração de equipamentos na EMEF Prof.ª Maria Ignez Lopes Rossi. No dia 3, alunos da Escola Estadual Professora Julieta Fernanda Sousa Taranto, no Jardim Marchesi, participam de mutirão de limpeza no entorno da escola, em parceria com a ESTRE Ambiental e a Entrevias, com orientações sobre descarte correto e coleta seletiva.


O Instituto Estre, parceiro em várias frentes da programação, amplia suas ações para além da cidade. Além de participar do 1º Seminário de Adaptação Climática (dia 8), um espaço de articulação, reflexão e difusão de conhecimentos voltado à elaboração do Plano Municipal de Adaptação e Resiliência Climática de Ribeirão Preto (PARC-RP), coordenado pela SMMAAS, também participa do evento Conexões Sustentáveis na Praça XV de Novembro (dia 20), promove imersões técnicas em empresas na unidade de Guatapará, ações educativas em Guariba e participação no Bike Tour da USP (dia 28).


"Em um momento em que os desafios ambientais também revelam crises nas formas de convivência e de relação com o mundo, promover um seminário como este é abrir espaço para imaginar outros caminhos possíveis. As Soluções Baseadas na Natureza nos lembram que a natureza é, há milhões de anos, um projeto de sucesso em cooperação, adaptação e regeneração", afirma Heloize Souza, coordenadora de projetos do Instituto Estre.


O QUINTAL QUE VIROU FLORESTA


Transformação ambiental também começa em casa. Paulo Sérgio da Cunha e Tany Maria Soares, moradores da City Ribeirão, transformaram a própria casa em uma pequena floresta urbana. Entre árvores nativas, plantas medicinais, composteiras e um meliponário credenciado de abelhas sem ferrão, o quintal se tornou refúgio para pássaros, gambás e diversas espécies que encontraram ali um ambiente favorável para viver.


"A gente tenta proporcionar um ambiente bom para os pássaros, para as abelhas e para outras espécies também. É um jeito diferente de olhar para a relação com a natureza", conta Paulo, idealizador do Movimento Ecossocialista Florestinha Urbana. O que começou como uma escolha pessoal tornou-se um trabalho permanente de conscientização ambiental ancorado na premissa de que questões sociais e ambientais são inseparáveis. "Não existe questão ambiental sem questão social", resume.


No dia a dia, o casal cultiva plantas nativas e medicinais, mantém a cobertura do solo com folhas e restos de poda recolhidos da própria vizinhança, realiza a compostagem de praticamente todos os resíduos orgânicos gerados em casa e dá a destinação correta aos materiais recicláveis. Além disso, participa do plantio de árvores no bairro, desenvolve ações de educação ambiental, fabrica composteiras domésticas e cria abrigos para abelhas nativas. O meliponário, por exemplo, nasceu muito mais como uma iniciativa de preservação do que de produção. "Se acabam as abelhas, acabam os alimentos. A gente tenta deixar o ambiente equilibrado", afirma Paulo.


Para Paulo, pequenas atitudes individuais têm potencial de gerar grandes transformações coletivas. Por isso, além das práticas realizadas em seu próprio território, o movimento busca inspirar outras pessoas a adotarem hábitos mais sustentáveis e a compreenderem que as questões ambientais e sociais caminham juntas. "Não existe questão ambiental sem questão social", resume.


A história do casal sintetiza, para além de palestras e campanhas, o espírito do Junho Verde: a certeza de que mudanças significativas podem começar com gestos simples, realizados todos os dias, dentro de casa, na calçada, no bairro e na relação de cada pessoa com o lugar onde vive. A solução é coletiva. 

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