Muito além das flores
Entre estatísticas e histórias reais, mulheres estudam mais, lideram comunidades e produzem ciência, mas ainda enfrentam barreiras salariais e políticas
No calendário, o 8 de março parece uma data como outra qualquer. Nas vitrines, flores. Nos discursos, homenagens, mas a origem do Dia Internacional da Mulher está longe da delicadeza protocolar que muitas vezes marca a data. Ela nasce de greves operárias no início do século 20, ganha força na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em 1910, quando a alemã Clara Zetkin propõe um dia de mobilização feminina, e atravessa episódios como o incêndio da fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York, em 1911, que matou 146 trabalhadores, a maioria mulheres imigrantes.
Décadas depois, em 1975, a Organização das Nações Unidas oficializou o 8 de março como Dia Internacional da Mulher, no mesmo ano em que declarou o Ano Internacional da Mulher. O gesto não era apenas simbólico. Era político. O mundo começava a reconhecer que igualdade de direitos, acesso à educação, trabalho digno e participação pública eram fundamentos de uma sociedade justa.
Mais de um século após as primeiras mobilizações, as perguntas continuam ecoando: o que mudou? O que ainda precisa mudar? E como essas transformações se manifestam nas cidades, nas famílias e nas trajetórias individuais?
Em Ribeirão Preto, mulheres de gerações e áreas distintas ajudam a responder. Suas histórias não são lineares nem perfeitas. São atravessadas por perdas, descobertas, trabalho, reinvenção e coragem. Elas falam de cuidado, ciência e arte. Falam, sobretudo, de permanência.
O CORPO QUE FALA
Quando Odete Silva Dias começou a trabalhar no Hospital das Clínicas (HC) de Ribeirão Preto, em 1961, o Brasil era outro país. A jovem auxiliar de enfermagem acompanhava médicos pelos corredores, observava exames, aprendia na prática o que nem sempre estava nos livros. Décadas depois, se formaria técnica de enfermagem, depois enfermeira e, mais tarde, ainda cursaria filosofia. Hoje, aos 88 anos, fala com a lucidez de quem atravessou o século e com o brilho nos olhos de quem vislumbra a próxima viagem. “Quero ver a aurora boreal”, conta.
Sua vida é marcada por perdas precoces. Irmãos mortos ainda na infância, doenças que a ciência da época não conseguia tratar, tuberculose, meningite, ausência de vacinas. “Eu perguntava por que eles morreram. Diziam que era porque Deus quis. E eu, criança, sentia culpa”, recorda.
A dor não a paralisou. Transformou-se em busca.
Anos mais tarde, já enfermeira, enfrentou um diagnóstico negligenciado. Sentia dores persistentes, mas ouviu que “estava inventando doença”. A cirurgia de urgência revelou tuberculose extrapulmonar. A revolta que sentiu não foi apenas pessoal. Era o reconhecimento de uma estrutura que frequentemente desacreditava mulheres sobre o próprio corpo, um fenômeno que hoje a literatura médica descreve como “viés de gênero na saúde”.
No HC, Odete aprendeu que “o corpo fala”. A frase nasceu após um médico ensiná-la a ler exames simples, hematológicos e de urina. “Quando ele terminou de explicar, eu pensei: meu Deus, o corpo realmente fala.” A partir dali, desenvolveu uma sensibilidade clínica que a levaria à pediatria e à obstetrícia, sempre com foco na prevenção.
Nos anos 1970, testemunhou epidemias de meningite e quadros severos de desnutrição infantil. Criou estratégias de reidratação oral antes que a prática fosse amplamente difundida. Mais tarde, atuaria no Programa de Saúde da Família no extremo sul da Bahia, em Cumuruxatiba, e no Maranhão, onde enfrentou desigualdades estruturais e a fome estampada nos olhos de uma mãe que lhe pediu o resto de um litro de leite após uma ação comunitária. “Na Bahia, vi investimento em saúde e educação para transformar uma região. No Maranhão, vi o contrário. A diferença está na prioridade política”, resume.
A trajetória de Odete cruza cuidado e militância. Publicou uma trilogia de livros que começou como investigação pessoal. Foi atrás de cartórios, igrejas e cemitérios para entender mortes familiares. A pesquisa se expandiu para reflexões sobre identidade, escravidão e genética.
Participou de uma comissão da Ordem dos Advogados do Brasil sobre a verdade da escravidão, defendendo o direito à identidade genética como instrumento de justiça histórica.
Sua história dialoga com dados nacionais. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mulheres são maioria entre profissionais de saúde no Brasil, especialmente na enfermagem, onde ultrapassam 80% da força de trabalho. Ainda assim, enfrentam desigualdades salariais e de reconhecimento. A experiência de Odete atravessa essas estatísticas com nome e rosto. “A gente estava ali todo dia, segurando as pontas, mas não aparecemos muito. A enfermagem trabalha muito e aparece pouco”, afirma.
Ela nunca parou. Nem mesmo quando a maternidade adotiva trouxe novos desafios, conflitos familiares e responsabilidades financeiras. “Eu sei lidar com dinheiro. Tive que aprender”, diz.
Aos 88 anos, mantém projetos. Quer atualizar a árvore genealógica da família e seguir defendendo o acesso democrático a exames genéticos. Sua história é uma afirmação de permanência, mas está longe de terminar. “Ainda tenho muitos projetos, muitos planos. Sinto que ainda tenho muito a viver. Estou me preparando para uma palestra sem deixar de pensar nas próximas viagens”.
COMBATE À DESINFORMAÇÃO
Se Odete representa a mulher que constrói o SUS por dentro, Julieta Ueta encarna a cientista que molda a universidade contemporânea. Professora Sênior da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto, ela entrou na ciência quase por acaso. “Foi em uma disciplina de bioquímica que despertei meu fascínio pelo estudo de venenos de cobra”, lembra.
A decisão de seguir na pesquisa foi natural e sem barreiras aparentes. “Na época, não havia discriminação explícita na pós-graduação”, recorda. Reconhece, porém, que áreas como engenharia mantinham preferência masculina. Hoje, avalia, a presença feminina é numericamente expressiva em vários programas, especialmente na saúde. Ainda assim, a equidade plena depende de análise por área e de políticas consistentes.
Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) confirmam a tese da professora. Mulheres são maioria entre bolsistas de iniciação científica e pós-graduação no Brasil, mas sua participação diminui nos níveis mais altos da carreira e em posições de liderança. O chamado “teto de vidro” permanece.
Julieta rompeu esse teto quando se tornou chefe de departamento. A conquista foi quase acidental, mas estratégica. Fortaleceu a formação em farmácia clínica, ampliando o papel do farmacêutico na equipe multiprofissional, ao lado de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos. “É avanço científico e também avanço de cuidado”, afirma.
Sua visão da ciência é inseparável do contexto social. “Vivemos tempos de muita informação e, paradoxalmente, de desinformação”, diz. Para ela, o desafio contemporâneo não é apenas produzir conhecimento, mas garantir que dados corretos orientem políticas públicas e decisões individuais.
Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil assistiu à centralidade da ciência no debate público e também à circulação massiva de notícias falsas. A experiência reforçou a percepção de que a alfabetização científica é uma questão democrática.
Julieta é otimista. Vê no intercâmbio internacional e na consolidação do Brasil como centro formador de pesquisadores um sinal de maturidade institucional. “Antes, buscávamos centros no exterior. Hoje, também recebemos. Avançamos”, acredita.
A maternidade, diz, foi outro aprendizado. “Desaprende-se e reaprende-se. Me fez melhor.” Seu filho é farmacêutico. Ela jura que não influenciou, mas reconhece que exemplos moldam escolhas.
Quando fala do Dia Internacional da Mulher, Julieta admite ter sido cética. “Para que um dia específico?”, questionava. Com o tempo, mudou. Entendeu que a data é instrumento de reflexão sobre mulheres que ainda enfrentam submissão e invisibilidade. “É preciso transformar a sociedade em uma sociedade mais justa para todos”, pondera.
“A ciência é ferramenta de transformação, mas não atua sozinha. Precisa de políticas públicas, financiamento estável e compromisso social”, defende.
O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em pesquisa e desenvolvimento, número abaixo da média de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Para Julienta, ampliar esse percentual é passo essencial para consolidar a presença feminina em todos os níveis da carreira científica.
AUTONOMIA CRIATIVA
Se o cuidado e a ciência estruturam trajetórias, a arte e o empreendedorismo definem a caminhada de Fátima Mikawa Musa. Administradora de empresas, ela começou com tricô e crochê ainda criança. Mais tarde, bijuterias, bolsas de tecido, decoupage... O que era hobby virou produção consistente e, diante do acúmulo de peças, negócio.
Autodidata, Fátima fala da repetição paciente até alcançar o efeito desejado. “São várias tentativas. Quando consigo, sinto orgulho”, diz. O artesanato carrega, nas mãos dela, tempo e sensibilidade. “Todo trabalho artesanal leva o coração de quem faz”, garante.
O passo seguinte foi coletivo. Ao lado da artista Cássia Faria, criou o Mercado Viale após uma exposição coletiva. A proposta era dar visibilidade à arte e ao artesanato em Ribeirão Preto. As edições reuniram dezenas de expositores, muitos deles mulheres que transformaram produção manual em renda. “A gente percebeu que tinha muita mulher talentosa produzindo em casa, mas sem espaço para mostrar. Nosso objetivo era abrir essa porta”, explica.
A economia criativa responde por cerca de 3% do PIB do Estado de São Paulo, segundo dados da Federação das Indústrias (Fiesp). Mulheres têm presença expressiva nesse setor, especialmente em artes visuais, moda e artesanato. Em tempos de trabalho informal e busca por autonomia, feiras e coletivos tornam-se espaços de afirmação econômica e simbólica.
Fátima diz nunca ter se sentido subestimada como artesã. Ainda assim, reconhece a importância do 8 de março como momento de reflexão. “Celebrar conquistas e reforçar a luta por igualdade de gênero é cada vez mais importante e necessário”, declara.
A trajetória da artesã revela uma dimensão frequentemente negligenciada no debate sobre igualdade do trabalho criativo e doméstico convertido em empreendimento. A habilidade manual, historicamente associada ao universo feminino e muitas vezes desvalorizada, ganha status de produção cultural e econômica.
Entre linhas, tintas e vernizes, Fátima construiu uma rede de apoio. “É uma satisfação ver artistas que passaram pelo Mercado Viale hoje consolidadas.”
DATA NECESSÁRIA
Histórias como as de Odete, Julieta e Fátima se cruzam em pontos essenciais, como educação, trabalho, autonomia e compromisso com o coletivo. Uma formou-se enfermeira aos 41 anos e, depois, filósofa. Outra consolidou carreira científica e liderança universitária. A terceira transformou arte em rede de empreendedorismo.
O 8 de março, nesse contexto, deixa de ser apenas memória e torna-se lente de leitura do presente. No Brasil, mulheres têm maior escolaridade média que homens, mas ainda recebem salários inferiores em cargos equivalentes. Segundo o IBGE, a diferença salarial média ultrapassa 20% quando avaliados os mesmos cargos. Na política, ocupam pouco mais de 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados. Em Ribeirão Preto, apenas 13% - três dos 22 vereadores são mulheres.
De outra perspectiva, as mulheres lideram movimentos comunitários, estão à frente de famílias monoparentais e são maioria no ensino superior. A complexidade desses dados exige olhar atento, como pede Julieta, “porque informação como dado é fundamental; sem ela, a gente não consegue fazer a sociedade crescer de forma adequada”.
O Dia Internacional da Mulher nasceu de greves e lutas operárias. Hoje, convoca a sociedade a revisitar desigualdades estruturais e reconhecer avanços. Não é data para flores, mas para perguntas. “Vivi todo tipo de preconceito na minha vida, mas aprendi que a gente não pode aceitar as coisas só porque sempre foram assim. Se incomoda, tem que perguntar, entender e mudar”, aconselha Odete.
Perguntas sobre quem cuida e quem decide. Sobre quem pesquisa e quem financia. Sobre quem cria e quem reconhece. No fim das contas, talvez a melhor definição do 8 de março esteja menos na origem histórica e mais na permanência do seu sentido de lembrar que igualdade não é destino garantido, mas construção diária. “Igualdade também se faz no detalhe, no trabalho de cada dia, quando a gente ocupa espaço com o que sabe fazer e ajuda outra mulher a ocupar o dela”, conclui Fátima.