O dilema da Nove
A interdição foi necessária após uma forte chuva acentuar desníveis e soltar paralelepípedos na via

O dilema da Nove

Interdições na Avenida Nove de Julho reabrem debate sobre falhas estruturais e o impasse entre manutenção do tráfego pesado e preservação histórica

A Avenida Nove de Julho, um dos principais eixos viários e cartões-postais de Ribeirão Preto, voltou a ser parcialmente interditada no dia 17 de março, para novos reparos no pavimento de paralelepípedos. O bloqueio atinge a pista Centro-Bairro entre as ruas Floriano Peixoto e a Avenida Independência, com previsão inicial de duração de dez dias. A interdição foi necessária após uma forte chuva acentuar desníveis e soltar paralelepípedos na via. O ponto mais crítico está no cruzamento com Avenida Independência, área de intenso fluxo. Durante o período, o acesso local será mantido apenas para moradores e comerciantes, enquanto motoristas devem utilizar rotas alternativas indicadas pela RP Mobi. 


Em nota, a Prefeitura destacou que as intervenções ocorrem dentro do período de garantia de cinco anos, no qual “eventuais ajustes e manutenções são de responsabilidade da construtora”. Segundo a empresa Era-Técnica Engenharia Construções e Serviços Ltda., responsável pela obra, os reparos estão sendo executados dentro do prazo de garantia contratual. A Secretaria de Obras acompanha a execução dos serviços.


Ademais, de acordo com as regras do tombamento da avenida estabelecidas pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural do Município (Conppac), o rejunte entre as pedras não pode ser impermeável, precisa ser feito com pó de pedra e areia.  “Entre essas determinações está a impossibilidade de realizar rejuntamento entre os paralelepípedos, conforme previsto no projeto elaborado na gestão anterior. O assentamento das peças segue o método original da via, com base em pó de pedra, característica que preserva seu padrão histórico, que demanda manutenções constantes, especialmente em períodos de chuvas intensas, quando o fluxo de água sobre a superfície pode ocasionar deslocamentos localizados dos paralelepípedos”, destacou o Executivo.


Além dos entraves técnicos, a obra também é marcada por problemas na licitação. Um parecer da Procuradoria Geral do Estado (PGE) identificou irregularidades no processo licitatório de 2024, o que levou à suspensão de repasses estaduais previstos para o projeto. Ao todo, cerca de R$ 13 milhões deixaram de ser transferidos — valor que integra o Programa Ribeirão Mobilidade e que seria financiado pelo governo estadual, com execução pelo município. Segundo o prefeito Ricardo Silva (PSD), o impacto direto na obra seria de aproximadamente R$ 7 milhões. Diante do impasse, a Prefeitura anunciou que arcaria com parte dos custos com recursos próprios e que uma nova licitação seria aberta para viabilizar a conclusão de etapas consideradas essenciais, como as intervenções de drenagem na rua Comandante Marcondes Salgado. A indefinição contratual e financeira, somada às limitações técnicas impostas pelo tombamento, ajuda a explicar por que a obra, mesmo após concluída e entregue, segue demandando intervenções recorrentes. 


O histórico da obra inclui ainda a rescisão do contrato com a primeira construtora, após baixo avanço físico, e a contratação da atual empresa por novo certame. Mesmo após a entrega, em março do ano passado, os problemas persistem e motivaram questionamentos na Câmara e denúncia ao Ministério Público, que apura possíveis irregularidades. A Prefeitura sustenta que segue fiscalizando os serviços e que “eventuais ocorrências [...] são prontamente avaliadas, e a empresa responsável é acionada para realizar os reparos necessários”, buscando garantir segurança e circulação sem comprometer as diretrizes de preservação do patrimônio histórico.

 

TRÁFEGO X PATRIMÔNIO


Para especialistas ouvidos pela reportagem, as falhas vão além da execução da obra e revelam uma indefinição estrutural sobre o papel da via na cidade. O engenheiro Anderson Manzoli, com experiência em pavimentação e sistemas de drenagem, avalia que o principal entrave está no planejamento urbano. “O maior problema não é nem técnico no sentido de infraestrutura, é um passo anterior: o planejamento. Enquanto a Nove de Julho não tiver uma identidade clara, não há solução definitiva”, afirma. Segundo ele, há uma incompatibilidade entre manter o caráter histórico do pavimento e, ao mesmo tempo, utilizá-lo como corredor de tráfego pesado. “O que não pode é tentar juntar as duas coisas. Elas são antagônicas do ponto de vista técnico”, diz.


Manzoli argumenta que cidades que preservam calçamentos históricos, como Paraty e Ouro Preto, adotam restrições à circulação de veículos pesados — algo que não ocorre de forma efetiva em Ribeirão Preto. Para ele, a tentativa de um modelo híbrido tem levado a intervenções recorrentes e pouco resolutivas. Em sua avaliação, “acreditar que é possível manter o paralelepípedo e, ao mesmo tempo, suportar veículos pesados” é um erro que tende a elevar custos sem resolver o problema.


O engenheiro também aponta que qualquer solução passa, necessariamente, por uma decisão estratégica: ou a via assume vocação histórica, com restrições de tráfego e intervenções mais leves, ou passa por uma reestruturação profunda para suportar cargas maiores. Como alternativa intermediária, ele sugere a setorização da avenida, com trechos distintos para preservação e mobilidade, ou até a adoção de soluções estéticas que simulem o paralelepípedo sem manter sua função estrutural original.

 

PROBLEMA ESTRUTURAL


Já para Cláudio Santos, engenheiro civil e especialista em geotecnia e infraestrutura, existem falhas estruturais na própria concepção técnica da obra. Segundo ele, as intervenções não atacaram a causa principal: a drenagem. “O problema surge quando essa água não é devidamente drenada”, explica, ao destacar que a infiltração é característica do paralelepípedo, mas exige um sistema eficiente de escoamento.


De acordo com Santos, a persistência de afundamentos e soltura de peças indica saturação das camadas inferiores e perda de capacidade de suporte do solo. Nesse cenário, intervenções pontuais tendem a ser apenas paliativas. Ele afirma que “é possível remendar, mas, para resolver de forma definitiva, o problema provavelmente exige uma requalificação estrutural da via”, com revisão completa da drenagem e recomposição das camadas de base.


O especialista também chama atenção para a reincidência precoce das patologias, observadas poucos meses após a entrega da obra, o que reforça a hipótese de inadequação estrutural. Para ele, a combinação entre drenagem deficiente, suporte comprometido e tráfego intenso cria um ciclo de degradação acelerada.


Sobre o uso da avenida, Santos vê incompatibilidade entre a estrutura atual e o tráfego pesado. Embora pavimentos em paralelepípedo possam suportar esse tipo de carga, ele ressalta que isso depende de condições técnicas que não parecem estar sendo atendidas. Diante disso, aponta três caminhos possíveis: reforçar completamente a estrutura, restringir o tráfego pesado ou redistribuir esse fluxo para outras vias. Caso contrário, alerta, a tendência é de agravamento contínuo dos danos e aumento progressivo dos custos de manutenção.

 

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