O negócio da educação básica
Crescimento das matrículas sugere expansão da procura pelo ensino privado, segmento que pode movimentar mais de R$ 500 milhões por ano em Ribeirão Preto
Ao longo da última década, Ribeirão Preto assistiu a uma consolidação do “mercado” de ensino privado de educação básica, que inclui desde o ensino infantil até o médio, passando pelo Fundamental I e II, ofertados em cerca de 200 estabelecimentos. O dado, de 2025, é do Censo Escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão do Ministério da Educação (MEC).
O levantamento mostra a quantidade de escolas particulares nessa modalidade relativamente estável entre 2015 e 2025, mas um crescimento de 12,48% no volume de matrículas, correspondente a 4.579 alunos a mais no mesmo período — de 36.677, em 2015, para 41.256, no ano passado, representando 24% de todas as matrículas de educação básica do município.
A comparação dos números de matrículas nos últimos cinco anos sugere uma ampliação da procura pelo ensino particular para os filhos, investimento que vai além do custo das mensalidades. De acordo com a publicação Números da Educação Privada Brasileira, da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares) – que utiliza informações da última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2017/2018 –, a média de gasto anual privado em educação, por aluno, no estado de São Paulo (não há números locais) ficou em torno de R$ 13.020. O valor considera os custos de cursos regulares (R$ 11.306), mais transporte escolar (R$ 632), material didático (R$ 753) e uniformes (R$ 330), deixando de fora, por exemplo, o de alimentação.
Não há números oficiais sobre os valores movimentados pela cadeia da educação básica privada na cidade, mas, para o economista e professor universitário Pedro Henrique Nascimento, uma forma de dimensionar esse “mercado” é cruzar o número de matrículas com o de valores de mensalidades cobradas pelas escolas. “O desafio é que não existe uma mensalidade única: os valores variam bastante conforme a instituição e a etapa de ensino”, comenta.
Usando esse raciocínio, podemos chegar a uma estimativa aproximada ao multiplicar a média anual de gastos com mensalidades na educação básica do estado de São Paulo, segundo a Fenep (R$ 11.306), pelas 41.256 matrículas aferidas no Censo Escolar 2025 do Inep. O resultado é um volume próximo de R$ 466,4 milhões ao ano — ou de R$ 537,2 milhões, considerados os custos somados de mensalidade, transporte, material e uniformes (R$ 13.020).
Nascimento pontua, porém, que esses valores são “estimativas construídas a partir de cenários de mensalidade média, e não dados de faturamento efetivamente declarado pelas escolas”. A estimativa não representa o faturamento declarado pelas escolas nem contempla todos os valores movimentados pela cadeia do setor.
De acordo com ele, esse volume alimenta tanto empregos diretos tradicionais do setor (professores, coordenadores, secretários) quanto indiretos, gerados na rede de fornecedores movimentada por ela – empresas de alimentação e cantinas, transporte escolar, limpeza, segurança, manutenção predial, material escolar e papelaria, uniformes, editoras e sistemas de ensino, softwares educacionais, entre outros.
“Há ainda um segundo efeito econômico, uma vez que parte dos salários pagos pelas escolas acaba sendo gasta na própria cidade, movimentando comércio, alimentação, serviços, moradia e lazer. Por isso, a avaliação econômica deve ser mais ampla, abrangendo o impacto em efeito direto, gerado pela própria atividade escolar, mas também o efeito indireto, decorrente da contratação de fornecedores e, por fim, o efeito multiplicador que transcende as escolas chegando à economia local”, afirma o economista.
Para além do ensino formal
De acordo com Números da Educação Privada Brasileira da Fenep, a renda média domiciliar per capita dos domicílios com estudantes no ensino básico privado, no estado de São Paulo (não há números regionalizados), foi aferida em R$ 2.946,70, com base em dados da última PNAD (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio) Contínua do IBGE, de 2022. Se considerarmos a média de membros por família, no Brasil (3,7), a renda por domicílio giraria em torno de R$ 10.902, sugerindo um perfil de classe média – mas, de novo, vale aqui aquele mesmo alerta de que se trata de uma “estimativa construída a partir de um cenário”.
As famílias ouvidas nesta reportagem dão pistas de uma classe média que se esforça em priorizar o investimento em ensino particular para os filhos, por mais que pese no orçamento, por considerarem-no de maior qualidade que o da rede pública. Seus critérios de escolha das instituições, porém, vão muito além desse.
Quando pensa em educação para o filho Otto – atualmente com 11 anos, cursando o 6º ano na Moura Lacerda –, a coordenadora jurídica Adriana Prado diz não se basear apenas na grade acadêmica e no ensino passado em sala de aula e via livros. Desde as primeiras escolhas para ele, no ensino infantil, ela diz se preocupar com diferenciais que ajudem a forjar autonomia, raciocínio lógico e capacitações variadas. “Afinal, estamos formando futuros cidadãos para o mundo, que precisam saber resolver problemas. Quando optei pela rede particular foi pensando em um futuro melhor para o meu filho. Infelizmente, a escola pública, hoje, está sucateada e tem progressão continuada, que não pode mais reprovar o aluno”, comenta.
Para a professora Carolina Maulin, mãe de três alunos matriculados na rede particular de educação básica – Luca, 12 anos, no 7º ano do Fundamental; Theo, 14, no 8º; e Enzo, 16, no 2º do Ensino Médio –, o tipo de cobrança que se tem dentro de uma escola particular não tem como ser feito em uma pública. “Quando você vai colocar um filho na escola, um dos critérios que você avalia é o tipo de material que ele vai estudar, mas para mim também é importante que trabalhe certos princípios. Não que a escola tenha o dever de fazer isso. O dever é da família, mas escola e família alinhadas no mesmo propósito deixam tudo mais fácil”, acredita.
Já Adriana Cristina Cicelini Lória, mãe de Felipe Cicelini Lória, estudante na 1ª série do Fundamental I do Ateneu Barão de Mauá, cita entre os fatores determinantes para a escolha da rede privada de ensino a “busca por uma proposta pedagógica humanizada, além de segurança, corpo docente capacitado e o diálogo constante entre escola e família”.
O desafio dos reajustes
A determinação de famílias como as dessas três mães é frequentemente desafiada pelos reajustes das mensalidades escolares, que, como lembra o economista Pedro Nascimento, costumam ficar acima do índice oficial de inflação do país. Em 2025, por exemplo, o aumento médio das mensalidades do ensino básico foi de 9,8%, frente a uma inflação de 4,26% medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). “Parte dessa diferença pode ser explicada pela própria estrutura de custos das instituições de ensino, que é bastante intensiva em mão de obra. Salários de professores e demais funcionários, encargos trabalhistas, manutenção, tecnologia, material didático e investimentos em infraestrutura possuem dinâmicas próprias de custos e não necessariamente evoluem no mesmo ritmo da inflação média da economia”, explica ele.
Acostumada a lidar com esta discrepância todos os anos, Adriana Prado se habituou a improvisar cortes de gastos. “Quando ‘o cinto aperta’, a gente reduz o que considera supérfluo, deixando o próprio lazer, por exemplo, de lado. Confesso que também já fiz muito bico por aí para fechar a conta no final do mês”, diz.
Na média do ano todo, ela calcula que a educação de Otto consome 35% de sua renda, já acrescida da pensão paga pelo pai dele. Seus custos incluem mensalidade escolar, uniforme, material didático, lanche, combustível para o transporte e escolinha de futebol.
Carol Maulin admite comprometer 50% “ou mais” de sua renda mensal com a educação dos filhos – na divisão de despesas com o marido, esta ficou a seu cargo. Ela garante que o casal está alinhado quando o assunto é investimento em uma formação de qualidade, que consideram a melhor herança a ser deixada para os rebentos.
Adriana Cicelini Lória reforça que a mensalidade escolar, apesar de pesar cada vez mais no orçamento familiar, não pode ser tratada como uma despesa qualquer, mas como um “investimento valioso para toda a vida”. “Também não temos nenhum problema em cortar gastos supérfluos para manter o que consideramos realmente importante”, declara.
Diferenciais
Se, de um lado, as famílias buscam uma formação de seus jovens que vá além dos conteúdos tradicionais do ensino básico, as escolas, por sua vez, têm respondido a essa exigência incorporando programas diferenciais para prosperarem neste ambiente cada vez mais competitivo e de custos crescentes.
Para o economista Pedro Nascimento, esta é uma das tendências do atual mercado de educação privada, que vem passando por uma transformação importante, tanto do ponto de vista pedagógico quanto da gestão das instituições. “Ensino bilíngue, período integral, atividades extracurriculares, formação socioemocional, preparação para vestibulares e desenvolvimento de competências relacionadas à tecnologia têm sido utilizados pelas instituições para agregar valor à formação e também para se diferenciar da concorrência. Nesse processo, a tecnologia ganhou espaço não apenas dentro da sala de aula, mas na própria gestão, por meio de plataformas educacionais, comunicação com as famílias, acompanhamento do desempenho dos estudantes e, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial”, comenta.
Para a diretora e mantenedora Christinne Magalhães, do Colégio Professor Lacordaire, as principais tendências observadas neste nicho da educação básica privada incluem inovação pedagógica e tecnológica, com escolas incorporando marcas e metodologias reconhecidas no ecossistema educacional. No Lacordaire, por exemplo, a grade inclui programas de robótica, pensamento computacional, aprendizagem digital, incentivo à leitura e desenvolvimento socioemocional.
Além disso, a tecnologia passa a integrar o apoio pedagógico com o uso responsável de ferramentas de inteligência artificial como assistentes dos docentes. “A ampliação da oferta de turmas em período integral, ensino bilíngue, escolinhas de esportes (como futsal, vôlei, judô e tênis de mesa) e oficinas culturais funcionam como diferenciais decisivos para reter e captar alunos”, diz Christinne.
No caso dos reajustes anuais, ela ressalta que são “calculados com responsabilidade” para cobrir a evolução da folha salarial dos colaboradores e custos de manutenção, tecnologia e infraestrutura, de forma a manter o equilíbrio financeiro sem inviabilizar o orçamento das famílias.
De acordo com o mantenedor do Colégio Novo, Gustavo Alves, a instituição nasceu justamente para responder a uma transformação na expectativa das famílias, que hoje esperam que a escola garanta aprendizagem acadêmica consistente e, ao mesmo tempo, desenvolva comunicação, autonomia, repertório cultural, equilíbrio emocional e capacidade de criar. Por isso, a proposta da instituição integra educação infantil, ensino fundamental e ensino médio com bilinguismo, tecnologia, competências socioemocionais e formação para o mundo contemporâneo incluindo empreendedorismo. “O ponto decisivo foi entender que existia espaço para uma escola contemporânea, próxima das famílias e comprometida com resultados que não se resumem a uma prova. O aluno precisa aprender os conteúdos, mas também saber se comunicar, trabalhar em equipe, resolver problemas, lidar com frustrações e aplicar o conhecimento”.
O reajuste da mensalidade, explica Alves, é construído a partir da planilha real de custos da instituição e não existe um único índice capaz de representar a operação de uma escola. Entram no cálculo o reajuste da cesta de materiais, os encargos trabalhistas, a manutenção e a melhoria da estrutura física, aluguel ou custo de ocupação, água, energia, conectividade, segurança, limpeza, materiais pedagógicos, sistemas de gestão, plataformas digitais, investimentos em laboratórios, tecnologia e inclusão. A inadimplência também é uma variável desta equação. “O principal componente é a folha de pagamento, porque educação é uma atividade intensiva em pessoas e a qualidade depende de professores, coordenadores, monitores e equipes de apoio bem formados e remunerados”, conclui.