O papel vive
Leitores, livreiros e escritores explicam o porquê mantêm o hábito de ler no papel em tempos de digital e como o momento offline transforma a experiência com livro, jornal e revista impressos
A cena poderia ser de outra década. Uma mesa de madeira no fundo da livraria, copos de café esquecidos, livros abertos com post-its coloridos marcando trechos. Uma jovem advogada passa o dedo por uma lombada como quem reencontra uma memória. Um advogado dobra o jornal no meio, sublinha um parágrafo e comenta em voz baixa com o colega ao lado. Um artista gráfico ri ao lembrar da primeira charge publicada em papel, aos 15 anos. Na porta, uma criança segura firme um livro infantil escolhido sem ajuda. A alguns metros dali, no Centro de Ribeirão Preto, duas colegas jornalistas folheiam uma revista de curiosidades. O jornal ainda tem suas gôndolas próprias e uma cópia é levada por um rapaz que caminhava pela avenida. Não é 1998. Nem 2005. Nem o início dos anos 2010. É 2026.
Durante pelo menos quinze anos, repetiu-se com segurança quase científica que o papel estava com os dias contados. O Kindle seria o novo padrão. O jornal impresso se tornaria peça de museu. Livrarias físicas sobreviveriam como espaços cenográficos, não comerciais. A pandemia, quando chegou, parecia selar o destino de portas fechadas, vendas online disparando, leitores confinados diante de telas. O que se desenha agora, porém, é um cenário mais complexo e menos fatalista.
Dados recentes do Painel do Varejo de Livros da Câmara Brasileira do Livro, divulgados em 2025, mostram que o livro físico não apenas estabilizou suas vendas após os anos mais críticos como apresentou recuperação gradual em determinados segmentos, especialmente literatura e infantil. O digital cresceu, mas não substituiu os impressos. No Brasil, sua participação permanece minoritária e complementar.
Em Ribeirão Preto, essa estatística ganha rosto, voz e hábito. A advogada Marcela Marques Cilento calcula ter lido cerca de 930 livros ao longo da vida. O quarto onde dorme se assemelha a uma biblioteca pessoal, com mais de 300 volumes organizados em estantes, que contam sua história melhor que qualquer currículo. “Eu reservo todas as minhas horas livres para leitura offline”, diz. O leitor digital aparece em sua rotina antes de dormir, pela iluminação embutida, mas é o papel que a faz sentir-se “em casa”.
A Advogada Marcela Marques Cilento é leitora voraz e mantém mais de 300 livros em casa
Marcela começou cedo. Aos 7 ou 8 anos já frequentava concursos de leitura na biblioteca da escola. Os avós a levavam à Feira do Livro de Ribeirão Preto. O pai é leitor assíduo. A avó também era. “Depois dos 10 anos, nunca deixei de ter um livro nas mãos”, conta.
Há algo de continuidade nessa prática. “O passar das páginas gera um certo saudosismo. Me sinto mais perto da Marcelinha do passado”, diz.
Ela lê no digital quando precisa, especialmente livros em inglês ou francês, graças ao dicionário automático, mas guarda o impresso como quem alberga testemunhos. “O livro impresso nunca vai acabar a bateria, né?”
A jornalista Bruna Martinelli Zanatto compartilha sentimentos semelhantes. Descobriu a leitura como prazer aos 14 anos, em uma feira do livro escolar. “Até então eu achava que literatura era só para estudar.” A saga “Fallen” abriu uma porta que nunca mais se fechou em Bruna, que hoje lê mais de dois livros físicos por mês. Em 2026, dos nove títulos já concluídos até fevereiro, cinco foram no papel.
Bruna Martinelli Zanatto é jornalista e integrante do Clube das Ladies, grupo de leitura que tem até fila de espera
Ela integra o “Clube das Ladies”, grupo exclusivamente feminino que debate obras presencialmente. Ali, percebe o fenômeno curioso de que todas usam Kindle, mas nenhuma abriu mão do físico. “O digital virou complemento, não prioridade”, observa.
O Clube das Ladies reúne mulheres mensalmente para discutir uma obra previamente escolhida. O grupo mantém frequência regular e lista de espera. “Já aconteceu de alguém dizer que não gostou do livro e sair transformada pela conversa”, conta Bruna. Para ela, o encontro amplia a leitura e cria continuidade, algo que o digital raramente entrega sozinho. Ela fala do cheiro do livro novo, da contracapa, das ilustrações. Fala também do prazer de visitar livrarias sem destino definido. “Escolher algo inesperado na estante me traz conforto”, confessa.
Se existe uma palavra que atravessa esses relatos, é ritual. A escritora Manuela Titoto leva essa ideia ainda mais longe. “Eu leio com o corpo inteiro, sublinho, anoto, dialogo com o texto e com as referências. O livro se transforma em um lugar ao qual posso retornar”, descreve. Para ela, reler é também um exercício de identidade. “Reler um livro muitas vezes é reler a si mesmo”, filosofa.

A escritora Manu Titoto lê “com o corpo inteiro” e defende a convivência entre livro físico e digital
O artista gráfico Renato Andrade Vieira reconhece isso com humor: “provavelmente corre um pouquinho de celulose nas minhas veias”. Ele cresceu lendo gibis (“no linguajar menos pterodáctilo, HQs”), depois cartuns, revista MAD, Pasquim. “Foi um caminho sem volta.”
Formado entre gibis e charges impressas, o artista gráfico Renato Andrade vê no papel espaço de memória e crítica
Nesse contato com gibis, charges e imprensa alternativa, Renato formou também seu olhar profissional. Antes mesmo de pensar em seguir carreira como artista gráfico, ele aprendia a ler o mundo pelas entrelinhas do humor impresso. A revista, o jornal satírico, a charge publicada na página dobrada ensinavam humor e crítica. “A gente aprendia a pensar rindo”, resume. Para ele, o papel sempre foi também espaço de contestação.
Hoje escreve crônicas no celular, revisa no digital, consome notícias online, mas quando decide mergulhar em uma biografia de 700 páginas, como a da banda Led Zeppelin, prefere o peso físico do volume. “Virar as páginas, marcar o ponto da parada… é um ritual”, admite. Não faz anotações. Não dobra páginas, mas preserva alguns livros herdados do pai como relíquias. Outros, acredita que devem circular. “Livros são como motoristas de aplicativo, precisam rodar.”
LIVRARIAS COMO COMUNIDADE
José de Mello Junior trabalha com livros há três décadas e está à frente da livraria Geringonça, no Centro. Ao contrário do discurso comum de decadência, ele vê transformação. “A oferta de títulos aumentou muito. As pessoas chegam mais informadas.” Antes, segundo ele, o leitor se permitia mais a descoberta espontânea. Hoje, vem com demandas estabelecidas e muitas vezes impulsionadas por redes sociais. O perfil é variado, mas majoritariamente feminino. E, ao contrário do estereótipo, os jovens são maioria na livraria física. “A concorrência com o digital afetou sobretudo as redes instaladas em shoppings. Muitas diminuíram ou desapareceram, mas surgiram várias livrarias independentes.”
José de Mello Junior pesquisa o assunto de longa data e destaca que o debate sobre o fim do impresso é praticamente o mesmo de duas décadas atrás
José, defensor do físico, o livro digital nunca foi uma ameaça real. “Desde que comecei a pesquisar esse tema, fala-se nessa dualidade, mas, na verdade, estamos falando em complementaridade. O espaço do digital é complementar”, decreta.
Melissa Velludo conhece bem essa equação. Abriu a livraria virtual em 2019. Em 2021, inaugurou o espaço físico. Desde então, testemunhou duas ondas distintas. Primeiro, o aumento de leitores durante a pandemia; depois, o crescimento dos leitores que querem compartilhar a experiência. “Tem gente que nunca participou de clube e hoje participa de sete, oito”, comenta.
Curadoria e encontros presenciais para manter o impresso relevante são ponto crucial para o sucesso de uma livraria, afirma Melissa Velludo
Na livraria de Melissa, a faixa etária vai de crianças de 3 anos de idade a clientes com mais de 90. O maior público está entre 25 e 50 anos. Muitos jovens que migraram para o digital voltaram ao físico. “Querem sentir o cheiro do livro, escolher com calma”, acredita ela.
Porém, há tensão no bastidor. A concorrência com grandes marketplaces é descrita como desleal, por venderem “abaixo do preço de custo, usando o livro como isca”. Para a livraria física, cada venda importa. O que mantém o espaço vivo, segundo Melissa, são eventos presenciais – lançamentos, clubes, encontros. “Se não fossem os eventos, nem existiriam mais livrarias físicas”, garante.
Sobre as atividades em grupo, “tudo ajuda quando traz o leitor para a livraria”, explica José de Mello Junior.
Apesar do cenário competitivo, Melissa afirma que o público fiel mantém a livraria sustentável. As vendas não se concentram apenas nos best-sellers, mas em obras indicadas pela curadoria da casa. “Muitas vezes o cliente entra sem saber o que quer e sai com algo que nunca procuraria online”, explica. Para ela, o diferencial da livraria física está justamente nessa mediação humana.
O JORNAL DOBRADO NA MESA
Se o livro físico encontrou novo fôlego nas livrarias independentes, o jornal impresso sobrevive como hábito estruturado. Fernando Corrêa da Silva, advogado, lê diariamente um tradicional jornal voltado para economia em seu escritório. Recebe também a versão digital, mas prefere sublinhar no impresso. “Gosto de fazer anotações escritas e trocar detalhes com colegas, especialmente sobre o Caderno de Legislação.”
“A revista e o jornal abertos em cima da mesa iniciam debates e abrem caminhos para novas ideias”, diz o advogado Fernando Corrêa da Silva
No ambiente jurídico, ele percebe diferença concreta entre os formatos. O impresso, segundo Fernando, facilita a análise detalhada de leis e decisões, além de estimular o debate entre colegas no próprio escritório. O jornal aberto sobre a mesa funciona como ponto de partida para discussões técnicas, algo que, na tela, tende a se tornar mais individual e fragmentado.
Ele cresceu influenciado pelos pais e por uma parente que dirigiu a Biblioteca Nacional. Guarda livros por um tempo, depois doa. Lê em redes espalhadas pela casa, no escritório e no sítio da família. “No impresso, o tato e o barulhinho das folhas aguçam a percepção”, entrega.
Já na banca do Mário, na avenida Independência, a realidade é outra. O público envelheceu. “Agora é público da terceira idade”, comenta o próprio. Ainda assim, há adolescentes que compram HQs. E existe um campeão absoluto de resistência que é a revista de palavras cruzadas, “sem sombra de dúvida”. Para ele, a banca resiste porque é ponto de encontro cultural. “O jornal impresso e a revista podem não ser maioria, mas ainda organizam conversas. Ainda circulam bem. Combinam bem com um café”, explica.
Ao lado das filhas Márcia e Camila e da esposa Carmelita, Mário Rufino diz que “a banca ainda é ponto de encontro de formadores de opinião”
Talvez o erro tenha sido imaginar que a tecnologia opere sempre por substituição. O rádio não matou o jornal. A televisão não matou o rádio. O streaming não matou o cinema. O digital não matou o papel. Mudou o lugar dele. Como observa Manuela Titoto, a lógica da substituição parte do equívoco de temer o fim do livro impresso. “É como imaginar que as escadas deixariam de existir após a invenção dos elevadores”, compara.
Hoje, quem compra livro físico sabe que poderia baixar a versão mais barata. Quem assina jornal impresso sabe que poderia ler no celular. Quem frequenta clube de leitura poderia comentar online, mas escolhe não fazer apenas isso. Escolhe a pausa, o objeto. Escolhe o encontro. Em uma livraria do Centro, em uma banca de rua, em uma sala de escritório com o jornal aberto, em uma roda de mulheres debatendo personagens, o gesto de virar a página continua acontecendo.
CONTRA A MARÉ
Desde que foi revitalizada e, ironicamente, mais modernizada, a Biblioteca Sinhá Junqueira, no Centro de Ribeirão Preto, tornou-se um termômetro da popularidade do livro físico na cidade. “A gente segue na contramão das estatísticas. Emprestamos 90 livros físicos todos os dias, em média. E a maioria das pessoas que retiram esses livros são jovens”, afirma o coordenador, Ciro Athayde Barros Monteiro, responsável pela condução do espaço, que, nos últimos anos, ampliou programação cultural, clubes de leitura, oficinas e encontros literários.
Coordenador da Biblioteca Sinhá Junqueira, Ciro Athayde Barros Monteiro celebra recordes de empréstimos físicos entre jovens
No dia 6 de janeiro deste ano, a biblioteca registrou um recorde diário: 278 livros físicos foram retirados. Em 2025, foram aproximadamente 23 mil empréstimos ao longo do ano. “A estatística, por si só, já desmonta a narrativa de que a nova geração abandonou o papel”, confirma Ciro.
O movimento não se resume aos empréstimos. No ano passado, foram mais de 180 mil visitas. Em breve, o espaço vai ganhar totens digitais para facilitar a busca pelo acervo, que já passa de 20 mil livros. “É o digital impulsionando o físico”, celebra o coordenador.
Na prática, a biblioteca registra fluxo constante de estudantes, universitários e leitores na faixa dos 20 e 30 anos. Muitos chegam por indicação de redes sociais. Outros, por tradição familiar. Permanecem pelo ambiente.
Se nas livrarias independentes o impresso se fortalece pela curadoria e pelo encontro, na biblioteca ele se reafirma como política pública de acesso. O empréstimo diário de dezenas de exemplares sinaliza que o livro também é instrumento ativo de formação.
A PRIMEIRA IMPRESSÃO
Ao mesmo tempo em que as telas dominam as rotinas de informação e entretenimento, o mercado de jornais e revistas impressos vive um momento de transformações permanentes. Nem totalmente em declínio, nem em renovação simples.
Segundo o Digital News Report 2025 do Instituto Reuters, da Universidade de Oxford, apenas uma em cada dez pessoas no Brasil ainda recorre a jornais impressos para se informar, um índice que demonstra a grande migração para mídias digitais, redes sociais e plataformas de notícias online nos últimos anos.
Ainda assim, mesmo em meio à retração nas preferências pelo formato físico, dados de circulação dão sinais contraditórios. Em 2025, a circulação total de jornais impressos apresentou alta no Brasil, passando de cerca de 324 mil exemplares diários, em dezembro de 2024, para 381,9 mil, impulsionada, em parte, pelo desempenho de grandes diários tradicionais.
Relatório da consultoria internacional SkyQuest Technology Consulting projeta que o mercado global de jornais e revistas impressos pode crescer, de cerca de US$ 132,9 bilhões em 2025, para US$ 161,9 bilhões até 2033, com uma taxa de crescimento anual composta de cerca de 2,5%.
Com três décadas de mercado, José de Mello Junior observa que o impresso já atravessou outras previsões de desaparecimento. “Quando a internet se popularizou, diziam que seria o fim imediato das livrarias e talvez da leitura em papel. Não foi. Este, porém, é um debate complexo que está longe de terminar”, conclui.