Por uma cidade mais resiliente
Especialistas explicam como o temporal se formou, por que foi tão destrutivo e quais desafios Ribeirão precisa enfrentar
Na madrugada de sexta-feira, 24 de julho, uma tempestade de cerca de 20 minutos mudou a paisagem de Ribeirão Preto. Foram 21 milímetros de chuva e rajadas de 121,7 km/h, segundo a estação do Inmet em Pradópolis, referência oficial adotada pela prefeitura. O temporal derrubou árvores, arrancou telhados, cortou a energia em bairros inteiros e expôs vulnerabilidades urbanas.
Para Augusto Cesar Marques, diretor do Hotel Aurora, no Centro, o caos revelou fragilidades além dos danos materiais. "Vi uma cidade que ainda precisa se preparar muito para ser mais resiliente e esse é um trabalho de décadas", afirma.
O hotel ficou quase quatro dias sem energia. "Ficamos no escuro por dias, no Centro da cidade, ao lado de um posto de saúde", enfatiza. Augusto relata perda parcial do telhado, infiltrações e a compra de um gerador e uma bomba a combustão para garantir água aos hóspedes, entre eles idosos e famílias com crianças. "Ficar quatro dias sem energia, isso extrapola", avalia.
Uma equipe da CPFL, segundo ele, deixou de realizar o reparo por falta de agentes de trânsito para sinalizar a via. "Isso mostra a falta de integração entre os serviços públicos durante a crise." Apesar das críticas, reconhece: "Tem muita boa vontade e profissionais extremamente competentes. O problema é que falta conexão entre eles." Para Augusto, o município precisa transformar a experiência em aprendizado. "Depois de mais de 30 anos da tempestade de 1994, a cidade já deveria estar mais preparada."
A prefeitura atribui os gargalos à excepcionalidade do evento, que atingiu todas as regiões ao mesmo tempo, e à necessidade de priorizar situações de maior risco à vida. Segundo o município, o Gabinete de Crise foi instalado para centralizar prioridades entre secretarias e concessionárias.
Explica, mas não justifica
Na semana anterior, Ribeirão Preto vivia um veranico, sequência de dias quentes em pleno inverno. "A superfície estava bastante aquecida e recebendo mais de dez horas diárias de insolação", explica o geógrafo e climatologista Gustavo Zen de Figueiredo Neves, professor e doutor pela USP de São Carlos.
“Também houve a entrada de jatos de umidade vindos da Amazônia, condição comum antes da passagem de frentes frias”, acrescenta. Enquanto isso, uma massa de ar polar avançava pelo continente e comprimia o ar quente sobre o interior paulista. "Formou-se uma diferença térmica muito grande entre a massa tropical e a massa polar. Na região de encontro dessas massas, formaram-se nuvens convectivas de grande desenvolvimento.”
Essas nuvens cumulonimbus chegam a 12 quilômetros de altura. Correntes ascendentes e descendentes movimentam água, gelo e ar, criando condições para chuva intensa, granizo e ventos fortes.
Assim que as primeiras imagens circularam, muitos moradores se lembraram de 1994, quando um tornado atravessou a cidade. As semelhanças eram inevitáveis; as causas, não. Segundo o engenheiro agrônomo e especialista em agrometeorologia Glauco Cortez, professor da Unesp, as evidências apontam para outro fenômeno. "O tornado possui um vórtice, com ventos girando em torno de um eixo. O que observamos agora apresenta características de uma microexplosão, quando o ar frio desce de forma extremamente rápida, provocando rajadas muito intensas."
Na microexplosão, o ar despenca da nuvem e, ao atingir o solo, espalha-se em todas as direções. "Pequenas diferenças nas condições atmosféricas fizeram com que a frente fria ganhasse intensidade justamente sobre alguns municípios", explica Cortez. Zen concorda: "Esse tipo de tempestade é raro pela magnitude registrada. Rajadas superiores a 160 km/h possuem recorrência muito baixa para nossa região."
A única medição oficial veio da estação do Inmet em Pradópolis, já que Ribeirão Preto não tem equipamento de medição direta em seu território.
Metade da história
Se a meteorologia explica a formação da tempestade, a cidade ajuda a compreender a dimensão dos impactos. Nas últimas décadas, áreas verdes deram lugar a asfalto, concreto e edificações, córregos foram canalizados e terrenos permeáveis diminuíram. "Quando tudo está asfaltado, a água praticamente não infiltra. Ela ganha velocidade e chega rapidamente aos córregos. Se a chuva é intensa, o sistema de drenagem não consegue suportar esse volume", afirma Cortez.
Outro efeito desse crescimento é a formação das ilhas de calor. Enquanto áreas arborizadas usam parte da energia solar na evapotranspiração, o concreto e o asfalto absorvem calor o dia todo e o devolvem lentamente à atmosfera. "Esse calor fica armazenado na cidade. Quando chega uma frente fria intensa, esse contraste favorece tempestades mais severas", explica o professor.
Áreas afetadas
Após o temporal, o mandato da vereadora Maria Eduarda Alencar Hidalgo mapeou, com informações dos moradores, problemas como falta de energia e água, alagamentos, quedas de árvores, danos a moradias e acúmulo de lama e entulho.
Entre as regiões mais afetadas identificadas pelo mandato estão Comunidade da Paz, Locomotiva, SBT, Jóquei Clube, Vila Seixas, Sumarezinho, Ipiranga, Vila Virgínia, Planalto Verde, Parque São Sebastião, Jardim Macedo e Vila Tibério. "Fizemos esse levantamento de baixo para cima. A população informava os problemas, nossa equipe verificava as ocorrências e fazia a ponte com o poder público", afirma Duda.
O levantamento embasa questionamentos sobre a capacidade da Defesa Civil municipal. Criada oficialmente em outubro de 2025, a coordenação tem orçamento previsto de R$ 1,2 milhão neste ano. Duda considera necessário avaliar se a estrutura é compatível com o porte da cidade. "O temporal funcionou como um teste de estresse de uma estrutura recém-criada. Agora é obrigação do poder público apresentar os dados e avaliar o que funcionou e o que falhou", diz.
Procurada, a prefeitura confirma o efetivo e o orçamento citados pela vereadora: três servidores no quadro próprio, mas com capacidade ampliada em emergências pelo Gabinete de Crise — que mobiliza GCM, Bombeiros, Polícia Militar, Defesa Civil Estadual, municípios vizinhos e até o Exército, conforme a ocorrência —, e R$ 1,2 milhão previstos para 2026, pela primeira vez com dotação específica na Lei Orçamentária e no PPA 2026-2029. O valor já executado, segundo a administração, ainda está sendo consolidado.
A vereadora também chama atenção para a redução de mais de 55% dos recursos estaduais destinados a drenagem e combate a enchentes entre 2025 e 2026. Para ela, a decisão contraria a realidade dos municípios. "Eventos climáticos extremos deixaram de ser uma possibilidade distante. Reduzir investimentos em prevenção significa caminhar na direção contrária do que a realidade exige."
Na avaliação da parlamentar, a reconstrução deve ser acompanhada de políticas permanentes de adaptação climática. "Não podemos gastar milhões para reconstruir Ribeirão exatamente como ela estava e simplesmente esperar o próximo temporal. Reconstruir precisa significar reconstruir melhor e mais preparada", conclui.
Planejamento
Antes do temporal, pesquisadores da USP já alertavam para a necessidade de adaptar Ribeirão Preto. Publicada no começo do ano, a Cartilha de Diagnóstico Ambiental e Climático reúne dados sobre temperatura, cobertura vegetal, recursos hídricos, impermeabilização do solo e riscos ambientais e defende soluções baseadas na natureza.
As conclusões dialogam com o Plano Municipal de Adaptação e Resiliência Climática (PARC), em elaboração pela prefeitura, que considera secas mais prolongadas, ondas de calor e tempestades potencialmente mais intensas.
Segundo a administração, o PARC é elaborado pela Secretaria de Meio Ambiente, Agricultura e Sustentabilidade, com participação da Defesa Civil, e reunirá diagnósticos como as Cartas de Suscetibilidade do IPT, os pontos de alagamento e o Mapeamento de Risco de Incêndio. A prefeitura também cita a adesão ao Programa Cidades Resilientes, da ONU, e metas de resiliência no orçamento e no PPA 2026-2029.
Os documentos defendem que o clima oriente decisões sobre mobilidade, habitação, ocupação do solo, infraestrutura e saúde pública.
Nesse cenário, o desafio não é apenas prever. É agir. A expectativa de que a tecnologia antecipe tempestades como a de julho esbarra nos limites da própria ciência. "Nem os Estados Unidos nem o Japão, na fronteira da tecnologia meteorológica, conseguem fazer esse tipo de previsão com mais de quatro horas de antecedência", explica Zen. Para ele, a diferença entre esses países e o Brasil não está apenas nos equipamentos: "Eles levam muito a sério o que os cientistas dizem. O galpão pode ser destruído, mas o objetivo principal é salvar vidas."
Segundo o pesquisador, o Brasil ainda apresenta fragilidades importantes em seus sistemas de monitoramento. "Somos extremamente vulneráveis tecnologicamente." A maior vulnerabilidade, afirma, é cultural. "Precisamos construir cidades mais inteligentes, produzir dados, antecipar riscos e incorporar o conhecimento científico ao planejamento. Nós não fazemos a lição de casa. O manual de instruções existe: planejamento, equipes interdisciplinares e valorização da ciência."
Ele defende que a discussão sobre responsabilidade deixe de ocorrer apenas depois das tragédias. "O que mais vi depois do temporal foi uma disputa para saber quem era o culpado. Precisamos discutir a responsabilidade pela inação. Quando alertas e informações técnicas são ignorados, essa omissão também precisa fazer parte do debate", alerta.
Lições a assimilar
José Walter Figueiredo Silva, engenheiro agrônomo que coordena o projeto Ribeirão Floresta, da AEAARP, e integra o ArboreSer Ribeirão, defende que um manejo eficiente das árvores não impede fenômenos extremos, mas reduz a vulnerabilidade da cidade diante deles. "Muitos galhos que caíram eram epicórmicos, que nascem da casca da árvore, provocados por poda errada", explica.
A Secretaria de Meio Ambiente estima a queda de cerca de 500 árvores. Sobre inventário arbóreo e poda técnica junto à rede elétrica, a prefeitura cita levantamento de 2021-2022, restrito a 10% da malha viária, e afirma que a poda perto da fiação cabe à CPFL — tema que deve ganhar reportagem própria da Revide.
Gestão da água
Na gestão da água, o geólogo Celso Graminha defende que eventos severos sejam tratados como cenários possíveis, não exceções. "A cidade deve fortalecer planos de contingência, identificar estruturas estratégicas e criar mecanismos de redundância [sistemas duplos: quando um quebra, outro entra em ação] capazes de reduzir a dependência de um único sistema quando há falhas generalizadas", afirma.
Segundo a Saerp, o temporal paralisou 96 dos 123 poços da cidade após o apagão, que atingiu cerca de 130 mil unidades consumidoras — 80% das ligações ativas de água tiveram o abastecimento comprometido em algum momento, embora a interrupção total tenha atingido sobretudo casas sem caixa-d'água suficiente. A recuperação ocorreu de forma progressiva, em uma atuação conjunta da prefeitura, da Saerp e da concessionária de energia: “na segunda-feira, apenas um poço permanecia desligado e outros dois ainda apresentavam intermitências; restavam 1.236 ligações de energia interrompidas, com 99,7% da cidade funcionando normalmente", informa nota da autarquia. Desde o início da gestão, segundo a prefeitura, a Saerp vem ampliando a capacidade de armazenamento de água. Já foram contratados quatro novos reservatórios, que atenderão Bonfim Paulista e os bairros Jardim Nova Aliança, Jardim João Rossi, Salgado Filho e Vila Tibério.
Ainda assim, o geólogo defende que o município mapeie quais poços, reservatórios e setores são estratégicos, para garantir neles uma segunda fonte de energia ou acesso rápido a geradores em eventos extremos.
Outra lição é a prática de simulados, ainda pouco incorporada à cultura local de Defesa Civil. "Esses treinamentos prévios poderiam ajudar órgãos públicos, concessionárias e comunidades a reagirem com mais rapidez a cenários de queda de energia, falta de água ou danos estruturais", sugere. Soma-se a isso a necessidade de ampliar a capilaridade da Defesa Civil por meio da criação de núcleos nos bairros. Atualmente ligada ao gabinete do prefeito, a estrutura municipal atende toda a cidade.
Graminha também chama atenção para a baixa cultura de reservação doméstica de água. "O cidadão se acostumou a depender só da água da rua, por isso, em muitas casas as caixas d'água são pequenas para o número de moradores", aponta. Para uma casa de quatro pessoas, recomenda uma caixa de ao menos 600 a 1.000 litros — o suficiente para aproximadamente um dia de autonomia em caso de desabastecimento.
Defesa Civil
A estrutura própria da Defesa Civil conta, segundo a prefeitura, com três servidores, duas viaturas e quatro drones — o monitoramento meteorológico depende dos boletins do estado, já que o município não opera estação própria. Diante da extensão dos danos, a resposta se apoiou no Gabinete de Crise, que mobilizou equipes de diferentes órgãos municipais e estaduais, incluindo o escritório regional da Defesa Civil paulista, sediado em Ribeirão e responsável por 48 municípios.
O alerta prévio foi enviado às 5h30 daquela sexta-feira, por SMS, aos moradores cadastrados no serviço 40199, com previsão de chuva forte, raios e ventos — canal que, segundo a administração, funciona mesmo sem internet. Não há, segundo a prefeitura, um intervalo médio entre a identificação do fenômeno e o envio do alerta: vendavais localizados como o do dia 24 têm formação rápida, difícil de antecipar com precisão.
No atendimento às famílias, equipes percorreram as comunidades mais afetadas entregando mantimentos; depois, os pedidos passaram à rede de Cras. Já os R$ 21,15 milhões estimados em prejuízos — valor também citado por Duda Hidalgo — abrangem despesas com limpeza e maquinário executadas pela Secretaria de Infraestrutura e Zeladoria, não o orçamento da Defesa Civil. É a primeira etapa de um levantamento mais amplo, que vai fundamentar pedidos de recursos emergenciais ao Estado e à União.
Acertos
Entre os acertos do governo municipal, Graminha cita a instalação de uma sala de crise, a articulação com a Defesa Civil, a comunicação por canais oficiais e a mobilização para remover árvores, galhos e resíduos. Para ele, diante da dimensão do episódio, "Ribeirão Preto até se movimentou bem".
A atuação coordenada com a CPFL, que recebeu reforço de equipes de outras cidades, também é apontada como positiva. O restabelecimento gradual da energia, essencial para a retomada do abastecimento, mostrou a importância da integração entre Prefeitura, concessionária, Defesa Civil e órgãos estaduais.
Os erros, ou fragilidades expostas pelo temporal, estão menos na resposta imediata e mais na preparação anterior ao desastre. A dependência quase total do sistema de água em relação à energia elétrica, a ausência de redundância em pontos estratégicos, a falta de simulados e a inexistência de estruturas regionais de Defesa Civil aparecem, na avaliação do geólogo, como pontos a corrigir.
Questionada sobre os aprendizados do episódio, a prefeitura credita a agilidade das primeiras medidas ao Gabinete de Crise e cita, entre as ações previstas, microdrenagem, ampliação da permeabilidade do solo e recuperação de equipamentos públicos preparados para eventos extremos, além do monitoramento de possíveis impactos do El Niño entre setembro e novembro. Sobre os pontos mais específicos levantados por Graminha — simulados regulares e núcleos de Defesa Civil por bairro —, a resposta não detalha ações concretas: limita-se a dizer que os protocolos "estão sendo aprimorados".
Graminha também ressalta a necessidade de Ribeirão Preto avançar no planejamento de adaptação às mudanças climáticas. "A cidade conseguiu mobilizar respostas emergenciais, mas precisa transformar o episódio em planejamento permanente, com sistemas mais resilientes, população orientada e Defesa Civil mais próxima dos bairros", resume.