Potencial inexplorado
Ribeirão tem potencial cinematográfico, mas ainda mal explorado — histórias, locações e diversidade de cenários que pedem câmera, roteiro e ação
Em diversas cidades ao redor do mundo, o audiovisual não é apenas arte, mas um motor econômico, que gera empregos, transforma o cenário urbano e cria identidade. Em Barcelona, na Espanha, por exemplo, uma estratégia municipal destina entre 1,5 e 2 milhões de euros anuais para fortalecer o setor – criando programas de formação, internacionalização e atração de filmagens. Na francesa Côte d’Azur, as filmagens geraram mais de 62 milhões de euros em 2023, com mais de 10.200 empregos diretos criados. No Brasil, segundo estudo da Oxford Economics, o setor audiovisual sustentou R$ 70,2 bilhões em PIB e 608.970 empregos em 2024.
Neste cenário, Ribeirão Preto e região ainda engatinham, principalmente diante de eixos como São Paulo e Rio de Janeiro, mas a cidade já possui histórias vivas, de produtores que vivenciam os desafios e as conquistas de desenvolver essa arte também no interior. Em São Paulo, a SPcine mapeou que, entre 2016 e 2020, mais de 5 000 projetos foram apoiados e geraram impacto econômico de mais de R$ 2,1 bilhões, com retorno de R$ 20 para cada R$ 1 investido. No Rio de Janeiro, um estudo da prefeitura apontou que entre 2021-2023 o setor audiovisual cresceu 56,2%, com impacto de R$ 4,2 bilhões em 2023. Essas referências ilustram o que Ribeirão Preto pode almejar — e exigem olhar estratégico.
“No Rio de Janeiro, parte do ISS (Imposto Sobre Serviços) pode ser destinado ao setor audiovisual. Ribeirão Preto tem a economia fortemente baseada em serviços, poderia adotar uma lei semelhante, com renúncia fiscal parcial do ISS. Entre 2021 e 2024, a prefeitura carioca, por meio da Rio Filme, investiu quase R$150 milhões em mais de 400 produções, gerando impacto econômico. Investir em cinema é garantir retorno direto e exponencial para a cidade”, afirma Lucas Bretas, diretor e roteirista na Grattitude Films.
Júnior Perini, diretor operacional da RPCine, a Film Commission da Região Metropolitana de Ribeirão Preto, diz que a intenção é fazer da cidade um polo cinematográfico e audiovisual. “Nosso papel é apoiar essas produções, dando suporte desde a sua criação até o seu licenciamento e, principalmente, criar mão de obra especializada na nossa região, para que produções de fora possam vir a ser feitas aqui”, explica.
Edgard de Castro, co-fundador da Film Commission, diz que a cidade está vivendo um dos seus momentos mais brilhantes, com várias produções em cartaz, participando de festivais, em produção ou para serem lançadas. Co-produzido pela Kauzare Filmes, “Mauricio de Sousa: O Filme", está em cartaz por todo o país. “Love Kills” — premiado no Festival Internacional do Rio de Janeiro na categoria “melhor som” — tem direção da ribeirão-pretana Luísa Scheren Tubaldini, co-produção dela com Edgard de Castro, e está também na Mostra Competitiva de Cinema Internacional de São Paulo e no Festival Internacional de Cities, na Espanha, o maior festival do mundo de filmes de fantasia. O longa-metragem “Zeferina - a Maria Brasileira”, dirigido por Lucas Bretas e produzido pela Grattitude Films, conta a história da vencedora da São Silvestre que treinava descalça em canaviais. Foi rodado em Sertãozinho, Jurucê, São Paulo e Ribeirão Preto e estreia em dezembro. Outro segmento que começa a ser impactado também, segundo o cineasta, é o de séries para televisão. Recentemente a Netflix filmou na cidade um episódio de “DNA do Crime” e os “Gêmeos do Cinema”, os irmãos André e Marcos de Castro, estão produzindo a série “Dengue Alien”. “É uma produção substancial. Todos os setores estão sendo atingidos”, afirma Edgar.
“Percebo um movimento que antes não existia. A RPCine tem promovido encontros entre produtores e facilitado o acesso a autorizações de filmagem em locais públicos — algo que tem aproximado e fortalecido o setor”, destaca Gilberto Ferreira Reis, ator e produtor, fundador da Brodowski Filmes — que atualmente grava “Três Vagabundos e um Bebê”. Ele ressalta que iniciativas como a Film Commission, festivais e editais “são fundamentais para o crescimento do audiovisual na região, criando espaço para troca de experiências e superação conjunta dos desafios burocráticos.”
Profissionalização e pluralidade emergentes
Lucas Bretas concorda com Edgard e Gilberto: a cidade vive um momento aquecido e cada vez mais profissional. “Ribeirão Preto tem se colocado no mapa do cenário audiovisual brasileiro. Difícil fazer uma leitura mais ampla, mas estamos movendo uma engrenagem que levará o setor audiovisual local aos maiores palcos do Brasil e do mundo”, declara. Sejam proponentes locais ou produtoras de fora, que trazem suas gravações para cá, esse fomento faz aumentar o fluxo de oportunidades para os profissionais do audiovisual. “Precisamos produzir de forma mais sistemática e contínua, como uma indústria cinematográfica mesmo, em várias frentes, com várias produtoras diferentes, de nichos e matizes ideológicas diferentes. Da pluralidade e do coletivo, vamos extrair o nosso melhor, mas não podemos nos enganar, ainda há um longo caminho a ser percorrido”, ressalta o diretor.
Gilberto Reis aponta também para uma fragilidade estrutural, onde a carência de apoio das prefeituras e a burocracia tornam-se freios à expansão. “Precisamos de políticas mais simples para o audiovisual do interior, como foi a Lei Paulo Gustavo, que infelizmente foi extinta”, afirma. Ele destaca que pequenos produtores acumulam várias funções e enfrentam dificuldades por falta de apoio municipal. “As leis estaduais e federais são muito burocráticas para equipes pequenas. A região de Ribeirão Preto tem enorme potencial — só precisamos de leis que realmente incentivem quem produz de forma independente.”
Os irmãos gêmeos cineastas Marcos e André, que se apaixonaram por cinema ainda crianças, após assistirem ao Oscar de 1984, observam pontos falhos nos editais locais. “Em termos municipais não há oportunidade para o audiovisual crescer. Os editais oferecem entre 10 mil e 50 mil por projeto. Impossível fazer um longa-metragem com isso, só dá para fazer curta e com todo mundo ganhando muito mal”, diz André.
O caminho para se construir um projeto, segundo ele, tem sido buscar editais ou leis de incentivo estaduais e federais. “Mesmo assim, não basta ganhar o dinheiro e fazer, na venda a gente encontra problemáticas e desafios e nem todos conseguem superar essa barreira”, enfatiza.
Além da falta de iniciativas locais e de editais mais consistentes, outra problemática é a da falta de uma banca avaliadora especializada. “O audiovisual é uma área muito específica — não basta ter um olhar amplo da cultura. Quem vem de outras linguagens, como teatro ou dança, pode não perceber o caráter técnico e comercial de um projeto audiovisual. Por isso, é fundamental que as avaliações sejam feitas por profissionais do setor, capazes de entender tanto o impacto cultural quanto o retorno econômico que cada produção pode gerar”, explica André de Castro.
No processo de amadurecimento do setor na cidade, segundo os produtores, duas pontas precisam se encontrar: a do investidor — que ainda olha com certa reticência quando recebe uma proposta de renúncia fiscal, para aportar recursos numa produção cinematográfica — e a da mão de obra, que tem um volume insuficiente de profissionais. “Precisamos formar novos trabalhadores para o audiovisual”, aponta André, reforçando que “todos os cineastas do interior, não importa de qual interior, precisam ter um plano B, C ou D de trabalho para conseguir sobreviver”. Isso porque um filme demora de dois até cinco anos para estar pronto e, durante esse tempo, é preciso ter uma fonte de renda.
Apesar das dificuldades, os irmãos estão otimistas. “Há 20 anos era impossível falar em audiovisual em Ribeirão Preto, a coisa mudou muito. Não à toa o número de produtoras cresceu, de profissionais, e de pessoas que estão querendo aderir ao audiovisual e estão se informando, se formando, fomentando, difundindo, aprendendo, realizando cursos, pesquisando, indo atrás, lutando. Muitos braços envolvidos e isso não pode passar despercebido de quem está no comando.”
Fomento fora dos grandes centros
Tato Siansi, produtor na Kauzare Filmes, que começou fazendo videoclipes e agora assina a co-produção de “Mauricio de Sousa: O Filme", busca oportunidades nos editais — principalmente os estaduais — que têm cotas para o interior. “Isso fortaleceu bastante a cena local, e acho que é uma das grandes oportunidades dos últimos anos.”
Ele também destaca os incentivos dos editais de Ribeirão Preto, em parceria com a Secretaria de Cultura, e os eventos que vêm acontecendo na cidade, como o BraviLab, que têm contribuído muito para o fortalecimento do audiovisual na região. “Nossa identidade vem sendo construída contando histórias da nossa cidade ou da nossa região e a nossa Film Commission tem sido essencial, abrindo portas para locações, oferecendo apoio logístico e articulando projetos em diversas cidades”, pontua.
Para Tato, o cinema nacional estar cada vez mais em destaque, com premiações e indicações ao Oscar, traz um novo olhar para outros tipos de produções. “O interior vem mostrando sua cara e sua força dentro do cinema nacional também”, afirma, mas ainda faltam interessados em produzir projetos cinematográficos de grande expressão. “Vejo muita gente aparecendo apenas quando se fala em dinheiro, quando há editais com recursos. Agora, o movimento para construir políticas públicas e fomentar a cidade ainda é feito por poucos.”
Viviane Mendonça, produtora da MVM Movimentos Culturais, diz que Ribeirão tem uma estrutura incrível para receber produções — boas locações, hospedagem, alimentação e até luminosidade favorável para o cinema. “Mas é essencial que haja formação de público e políticas públicas locais, o entendimento do poder público sobre o funcionamento da indústria audiovisual, para atrair e apoiar grandes produções.”
Produzir fora do eixo Rio–São Paulo ainda é desafiador, mas Viviane se diz otimista. “As políticas públicas, os editais regionais e a regulação do streaming abrem espaço para um futuro mais democrático, com mais produtoras do interior fazendo parte dessa indústria”, acredita.
OLHAR DE FORA
O produtor Carlos de Andrade, da carioca Visom — responsável por produções premiadas como “Conselho Tutelar” e “Estranho Amor” — volta seu olhar a Ribeirão Preto e região, com o documentário biográfico “PORTINARI, Meu Pai”. “Zeferina e Portinari são histórias locais com identidade universal, a primeira de superação universal, a segunda de grandiosidade de um artista e sua obra”, ressalta o produtor. Para ele, a região é riquíssima cultural e economicamente, mas ainda discreta em contar suas próprias histórias. O produtor defende a criação de uma lei municipal de incentivo, que ajude na produção de histórias predominantemente locais, e sugere às produtoras locais estudar e entender a fundo as normativas da Agência Nacional do Cinema, ANCINE, para se estruturarem e se graduarem em níveis (de 1 à 5) que as permitam trabalhar em produções cada vez mais sofisticadas e ambiciosas. “Ribeirão pode mostrar ao país como o audiovisual revela joias esquecidas do interior”, diz. “O Brasil quer conhecer o Brasil — e precisamos construir pontes para isso acontecer.”
O QUE FALTA
• Estrutura em crescimento, mas com poucos recursos e políticas frágeis.
• Rede profissional nascente, com a Film Commission e encontros entre produtores.
• Incentivos: sem leis municipais, renúncia fiscal ou cash rebate, o setor depende de produções independentes.
Caminhos possíveis:
• Criar lei municipal de incentivo para investimento direto de empresas locais.
• Implantar cash rebate e editais especializados com bancas técnicas.
• Estimular formação e valorização da mão de obra local.
• Promover parcerias com o setor privado e fortalecer infraestrutura e comunicação da cidade como polo criativo.