Quando o esporte vira caminho
Com 32 anos de histórias, o projeto Atletismo e Cidadania foi selecionado pela CBAt para receber apoio financeiro
Criado em 1992, em Ribeirão Preto, o programa Atletismo e Cidadania nasceu para abrir portas para crianças e adolescentes que dificilmente teriam acesso ao esporte de outra maneira. Ao longo desse tempo, muitos participantes tiveram suas vidas transformadas, em descobertas físicas, emocionais e sociais.
Idealizado pelo ex-atleta Sidnei Avelino, ganhador de títulos nacionais e internacionais, campeão mundial estudantil nos 110 metros com barreiras em 1979, o projeto atende 142 jovens dos bairros Campos Elíseos, Alexandre Balbo, Ipiranga, Cândido Portinari e Complexo Ribeirão Verde. Realizado na Cava do Bosque, oferece, além dos treinos, um ambiente de acolhimento, disciplina e pertencimento — elementos que, muitas vezes, faltam dentro e fora de casa. “Vi no atletismo não apenas um espaço de performance, mas também de formação humana. A ideia sempre foi essa: usar o esporte como ferramenta de transformação. Dar oportunidade, valores e caminhos”, afirma Avelino.

Sidnei Avelino: “A gente vê jovens mudando sua dinâmica no mundo”
Demorou 32 anos, mas o reconhecimento desse importante trabalho chegou, e em escala nacional. Em 2024, o programa foi selecionado, entre os 60 Centros de Formação da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), para receber aporte financeiro por 14 meses, ganhando, assim, a possibilidade de ampliar estrutura, manter núcleos e levar mais atletas para competições estaduais e nacionais. “É o reconhecimento de uma história que vem sendo construída com coragem e perseverança”, afirma o idealizador.
QUANDO CORRER ENSINA A RESPIRAR
Entre tantas trajetórias que cruzaram a pista de atletismo da Cava do Bosque por meio do projeto, a de Adolfo Campos Iza Pereira, hoje com 19 anos, é bastante simbólica. Por indicação médica, a mãe dele buscou atividades esportivas gratuitas para controlar sua asma. “Fui parar no hospital por causa de um jogo na rua e o médico indicou natação. Minha mãe chegou cedo na Cava, enfrentou fila, mas não conseguiu vaga. No ano seguinte deu certo. Então comecei natação e futsal com 8 anos. Meu irmão mais velho já fazia atletismo e eu o seguia por brincadeira. Aprendi os ensinamentos básicos: corria 30 metros, saltava em distância, lançava foguete, fazia um pouco de tudo. Então participei de uma competição e ganhei duas medalhas”, conta. Dessa forma, o esporte que deveria ser proibido virou cura.
Adolfo soube que sua escola participava do projeto e, mesmo sendo mais novo, conseguiu começar a treinar. A rotina era corrida: fazia capoeira, natação, badminton, futsal e atletismo, indo e voltando de ônibus, com os passes contados. No atletismo, encontrou espaço para criar foco e descobrir sua própria força. “Tinha asma, passava mal, mas fui persistente e, com o tempo, melhorei tudo. Acabei me destacando na prova de 800 metros, que requer um pouco de resistência e velocidade. Fui ganhando medalhas e virei campeão da região. Isso é bem doido! Se alguém me dissesse antes que treinando certinho eu curaria e correria uma prova de 800 metros, eu não acreditaria”, orgulha-se.

Adolfo Pereira: “O esporte mudou tudo em minha vida”
Seu talento, compromisso e determinação foram valorizados pelos treinadores, que conseguiram um padrinho para o custo com ônibus. Com bons resultados, no ano seguinte o padrinho elevou o valor do auxílio e Adolfo pôde comprar suplementos. Um ano depois, conquistou uma Bolsa Atleta da Secretaria de Esportes de Ribeirão Preto, que lhe possibilitou, pela primeira vez, comprar materiais de corrida –sapatilha, tênis, camisetas – e se consultar com uma nutricionista, para melhorar a alimentação. “Na época do Ensino Médio, eu almoçava às 10h, na escola, chegava à Cava do Bosque às 13h e só tinha um ‘Club Social’ [marca de bolachas salgadas] para comer antes do treino. Voltava para casa com fome, comia alguma coisa que tivesse e dormia”, recorda.
Hoje, trabalhando de manhã e treinando à tarde, Adolfo segue competindo e alimentando o próximo sonho: fazer faculdade de Educação Física. Ele quer ser professor e, assim como seus treinadores, inspirar jovens e modificar vidas. “O esporte mudou tudo em minha vida”, destaca.
PERTENCIMENTO É A CHAVE
Para Sidnei, as histórias se repetem — cada uma com sua dor, sua virada e sua vitória. “A gente vê jovens se redescobrindo. Disciplina, respeito, autossuperação, interação, novos modelos de vida. Tudo isso muda a dinâmica deles no mundo”, afirma.
O projeto Atletismo e Cidadania não nasceu para revelar estrelas, embora revele muitas. Ele existe para criar oportunidades reais de desenvolvimento, especialmente onde elas costumam faltar. Outros jovens como Adolfo – que encontrou fôlego e identidade na pista – estão descobrindo disciplina, cuidado e esperança. Este é o legado que o projeto deixa, há mais de 30 anos, em Ribeirão Preto: não apenas formar atletas, mas cidadãos prontos para respirar e correr atrás de seus sonhos com mais determinação.
O projeto já ajudou atletas a conquistarem vagas em universidades, a se profissionalizarem, a aumentarem a renda e, principalmente, a se enxergarem com mais valor. O sentimento de pertencimento, diz Sidnei, é uma das chaves: “Eles entendem que têm espaço, que podem errar e tentar de novo, vencer ou perder com consciência”, explica.
O reconhecimento como Centro de Formação da CBAt reforça esse caminho e o apoio financeiro garante que os núcleos não parem e mais jovens possam competir e se desenvolver. “Queremos ampliar a participação em eventos nacionais, aumentar a captação de recursos e incentivar que os jovens continuem sua formação educacional e profissional”, finaliza.
HISTÓRIA MUITO ALÉM DAS PISTAS
André Luis Gonçalves da Silva foi convidado em 1999, por uma professora, a participar dos Jogos da Primavera – competição tradicional entre escolas de Ribeirão Preto – e não parou mais de conquistar bons resultados. Hoje profissional de Educação Física e psicoterapeuta corporal, ele lembra que, mais do que o esporte em si, o que marcou aquele início de sua trajetória foi o acolhimento encontrado no projeto. “Em um momento delicado da minha vida pessoal, o Atletismo e Cidadania me ofereceu algo essencial: pertencimento. Foi o que determinou a minha permanência. Encontrei um lugar onde podia ser, crescer e acreditar”, afirma.

André Luis Gonçalves: “encontrei um lugar onde podia ser, crescer e acreditar”
Na categoria Mirim, ele conquistou resultados em nível municipal e regional. Na categoria Menor, permaneceu invicto em uma sequência de competições de salto em altura, conquistou dois títulos de campeão brasileiro e a honra de integrar a Seleção Brasileira no Campeonato Mundial de Atletismo realizado em Marrakech (Marrocos), em 2005. Na Juvenil, foi campeão brasileiro e participou de campeonatos Sul-Americano e Pan-Americano, realizados no Brasil. Na Sub-23, ficou entre os melhores atletas do país nos 110 metros com barreiras. Já na categoria Adulta, disputou edições do Troféu Brasil de Atletismo, reservado apenas a atletas que atingem índices mínimos de excelência.
“Digo que o Atletismo e Cidadania para mim vai além das pistas porque tive grandes mestres ao longo dessa caminhada, que deixaram marcas profundas na minha vida, além de oportunidades. Consegui bolsa de estudos para cursar o Ensino Médio, depois Educação Física em uma instituição renomada de Ribeirão Preto, e também no Instituto Lumen, onde me formei como psicoterapeuta corporal, analista bioenergético e analista psicossomático”, conta.
André considera o projeto fundamental para Ribeirão Preto, por permitir que crianças e jovens vivenciem experiências transformadoras desde a iniciação, passando por diferentes categorias, competições e níveis técnicos e sociais. Dá como exemplo histórias de atletas que chegaram aos Jogos Olímpicos, campeonatos mundiais, sul-americanos e panamericanos (veja quadro ao lado). “Eu mesmo tive recorde brasileiro na categoria Menor. Mas, acima de tudo, o projeto fomenta algo ainda maior: um desenvolvimento social positivo, que transforma pessoas, famílias e a cidade. Sou fruto desse projeto. E sigo honrando essa história todos os dias. Foi onde aprendi – e aprendo – sobre resiliência, disciplina, autocuidado, pertencimento, responsabilidade e determinação”, conclui.
Remédio contra a ansiedade

“Comecei no atletismo aos 7 anos. Era um menino cheio de energia, não parava quieto, então meus pais me levaram à Cava do Bosque para eu ‘gastar’ toda essa agitação e foi ali que conheci o professor Marcão, que abriu a porta para tudo o que vivo hoje. Treinei por diversão até os 11 anos. Parei por causa da pandemia. Aos 15 anos, trabalhando com meu pai, comecei a ter crises de ansiedade e o médico recomendou esporte. Fui acolhido de novo pelo Marcão, que me apresentou ao professor Alex Faustino. Com ele e toda a equipe, comecei a evoluir, ganhar confiança e entender que a pista era meu lugar. O atletismo não cuida só da minha saúde física, mas também da mental. Corro para aliviar a ansiedade, organizar meus pensamentos e voltar para casa melhor. Minha família é meu suporte e meus professores, meu impulso diário. Hoje sonho grande: quero chegar longe, inspirar outros jovens e – quem sabe? – alcançar uma Olimpíada. O atletismo mudou minha vida e continua mudando todos os dias".
Peterson Sales Archangelo, 16 anos
PROJEÇÃO INTERNACIONAL
Resultados internacionais de atletas do projeto Atletismo e Cidadania, da Associação dos Amigos do Atletismo de Ribeirão Preto:
ANDRÉ CALIARI DE OLIVEIRA
Participou do Campeonato Sul-Americano de Atletismo Sub 18 no revezamento 4x100m
(Colômbia, 1999)
RENAN DOS SANTOS FERNANDES
Participou do Campeonato Sul-Americano
de Atletismo Sub 18 no salto em altura
(Colômbia, 1999)
ANDRÉ LUIS GONÇALVES DA SILVA
Participou do Campeonato Mundial de Atletismo Sub 18 no salto em altura (Marrocos, 2005) e do Campeonato Pan-Americano de Atletismo Sub 20 na prova de 110m com barreiras
(São Paulo, 2007)
GLADSON ALBERTO DA SILVA BARBOSA
4º colocado na prova de 3000m com obstáculos no Jogos Pan-Americanos (Rio de Janeiro, 2007)
MAURREN HIGA MAGGI
Campeã Olímpica no Salto em distância
(Pequim, 2008)
FERNANDO CARVALHO FERREIRA
Participou nos Jogos Olímpicos de Tokyo (2021) e Paris (2024) na prova de salto em altura
GABRIEL DE SOUZA TIBÚRCIO
Campeão Sul-Americano Sub 18, nas provas dos 100m rasos e revezamento 4x100m (2024)
VICTOR HUGO ALVES SANTOS
Vice-Campeão Sul-Americano de Atletismo
Sub 23 nos 800m rasos (Colômbia, 2024)
ZILEIDE CASSIANO SEVERINO SILVA
Bi-Campeã Mundial-salto em distância
(Paradesporto, 2023 e 2025)
Vice-Campeã Paralímpica em salto em distância (Paris, 2024)
Fotos: Guilherme Fuzaro