Resistência centenária
Espaço histórico de Ribeirão Preto mantém acervo, eventos e atendimento ao público mesmo sem repasses públicos fixos
Se tiveres um jardim e uma biblioteca, nada mais será necessário.” A frase do filósofo romano Marco Túlio Cícero costuma voltar à memória de Alfredo Rossetti sempre que ele fala da Biblioteca Padre Euclides. Vice-presidente da instituição, ele vê no espaço algo que ultrapassa a ideia de um simples depósito de livros. “Uma biblioteca é o jardim do conhecimento”, resume.
Enquanto percorre as estantes da Padre Euclides, Alfredo lembra de um poema escrito sobre o local, em que os livros “gritam por nossos dedos desconcertantes”. Para ele, a biblioteca permanece como um dos espaços mais importantes da cidade, ainda que muitas vezes ignorado pelo poder público. “Ela está há 123 anos servindo Ribeirão Preto”, afirma.
HISTÓRIA
A história da Biblioteca Padre Euclides se confunde com a própria trajetória de Ribeirão Preto. Tudo começou em 1903, quando o padre Euclides Gomes Carneiro fundou a Associação dos Catequistas Voluntários, mais tarde rebatizada como Sociedade Legião Brasileira. Desde o estatuto original, já existia o desejo de criar um museu e uma biblioteca. O primeiro acervo foi formado a partir dos livros particulares do próprio padre, reunindo obras raras do século XIX e início do XX que hoje se tornaram verdadeiras relíquias históricas.
A construção da primeira sede própria teve início em 1904, graças a doações e recursos arrecadados em quermesses. Após anos de interrupções por dificuldades financeiras, o prédio foi inaugurado em 1917, na região central da cidade. Ao longo das décadas, a biblioteca participou ativamente da vida ribeirão-pretana: serviu como abrigo durante a chuva de pedra de 1909, hospital improvisado nas revoluções de 1924 e 1930, quartel-general durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e até sede da única rádio da cidade naquele período.
Em 1965, a antiga construção foi demolida para dar lugar ao Edifício Padre Euclides, onde a instituição permanece até hoje. Embora tenha utilidade pública municipal, estadual e federal, a biblioteca é uma entidade privada e sobrevive principalmente de doações e da renda de imóveis comerciais. Atualmente, abriga cerca de 18 mil exemplares e atende principalmente estudantes do ensino médio e universitário.
Mais do que uma biblioteca tradicional, a Padre Euclides transformou-se em um polo cultural e de formação cidadã. O espaço abriga a única gibiteca da cidade, uma zineteca, oficinas culturais, saraus, palestras e feiras literárias permanentes. Mesmo enfrentando dificuldades financeiras e constantes ameaças de fechamento, a instituição segue como um dos principais símbolos da memória, da cultura e da resistência histórica de Ribeirão Preto.
ENTRE O HISTÓRICO E A RESISTÊNCIA
Chegar aos 123 anos, porém, nunca foi simples. A Biblioteca Padre Euclides atravessa mais uma fase de dificuldades financeiras e continua funcionando graças ao trabalho voluntário, a doações e à renda de alguns imóveis comerciais. Não existe repasse público fixo para manter as atividades.
Alfredo Rossetti diz que Ribeirão Preto cresceu sem construir uma política consistente para bibliotecas públicas. Segundo ele, a Padre Euclides acabou assumindo esse papel ao longo do tempo, mas sem o suporte necessário. “A biblioteca presta um serviço histórico para a cidade e não recebe uma subvenção que seria justa”, afirma.
A preocupação com o futuro do espaço não é recente. Em 2007, Rossetti escreveu um desabafo publicado na imprensa local. Nele, afirmou que o fechamento da biblioteca representaria “um crime contra a história da cidade, contra a cultura do país e contra a consciência humana”. Quase duas décadas depois, a frase ainda acompanha a rotina da instituição.
No dia a dia, a biblioteca depende de um pequeno grupo de voluntários para manter as portas abertas. Elisa Aleixo é uma dessas pessoas. Frequentadora da Padre Euclides desde criança, quando ia ao local acompanhada dos pais nos anos 1950, ela hoje ajuda a cuidar do espaço.
“É lamentável que a biblioteca mais antiga da cidade continue sobrevivendo dessa maneira”, comenta. Segundo Elisa, o acervo da instituição está entre os mais completos de Ribeirão Preto e poderia ser mais aproveitado pelas escolas municipais e pela própria rede pública de ensino.
Ela conta que o movimento diário chama atenção pela diversidade. Jovens estudantes ocupam as mesas de leitura ao lado de aposentados, pesquisadores e leitores antigos. Muitos procuram livros para vestibulares e trabalhos universitários. Outros simplesmente passam parte da tarde lendo ou pesquisando.
A rotina exige improviso constante. São poucos voluntários para organizar empréstimos, catalogar livros, atender leitores e preparar atividades culturais. Mesmo assim, a programação continua acontecendo. O espaço abriga encontros literários, oficinas, saraus, além da gibiteca e da zineteca criadas nos últimos anos.
Para Elisa, falta reconhecimento. “A administração pública não dá o devido valor à biblioteca”, afirma. Ela acredita que a cidade deveria tratar a Padre Euclides como patrimônio cultural permanente e criar formas de apoio mais estáveis.
Alfredo Rossetti faz uma observação parecida ao falar das pessoas que mantêm a biblioteca funcionando. “Existe um pequeno grupo de abnegados lutando há anos para manter isso aqui aberto”, diz.
Lusiane Bendhack, outra voluntária da Biblioteca Padre Euclides, acompanha há anos as dificuldades financeiras enfrentadas pela instituição. Segundo ela, o principal problema continua sendo o custeio das atividades básicas necessárias para manter o atendimento ao público. Hoje, sete voluntários se revezam para garantir o funcionamento diário da biblioteca, embora a estrutura necessitasse, pelo menos, de dois funcionários fixos para atender à demanda operacional.
Ela observa que a importância da biblioteca é reconhecida por boa parte da população que frequenta o espaço. Ao longo dos anos, médicos, advogados, dentistas, professores e outros profissionais costumam relatar que passaram parte da formação estudando entre as estantes da Padre Euclides. “Os leitores reconhecem a qualidade do espaço para estudar, pesquisar e se atualizar”, comenta.
O perfil do público é variado. Crianças, estudantes, idosos e frequentadores antigos convivem no mesmo ambiente. Muitos procuram empréstimos de livros; outros participam das atividades culturais promovidas pela instituição. Lusiane afirma que o acervo continua sendo atualizado, apesar das limitações financeiras, e destaca que a biblioteca ainda consegue adquirir novos títulos.
Ao mesmo tempo, ela critica a ausência de apoio do poder público municipal. “Não há qualquer iniciativa de manutenção das portas abertas da biblioteca”, afirma. Para os voluntários, o desinteresse acaba colocando em risco um patrimônio histórico da cidade.
A coordenadora da biblioteca, Fatu Antunes, conta que conheceu a Padre Euclides pouco depois de chegar a Ribeirão Preto, em 2001. Segundo ela, o espaço atravessava um período de quase abandono, situação que a motivou a participar das atividades culturais desenvolvidas ali. Desde então, passou a acompanhar de perto as dificuldades para manter o funcionamento da instituição.
Fatu lembra que a escassez de recursos acompanha a biblioteca há décadas. Em 2009, um repasse da Prefeitura deixou de existir e nunca mais foi retomado. Nos últimos anos, segundo ela, a saída encontrada foi ampliar as atividades culturais e tentar aproximar novos públicos do espaço.
Parte dessa tentativa apareceu recentemente nas obras de modernização realizadas entre abril e setembro de 2024, com recursos da Lei Paulo Gustavo Estadual. O prédio passou por restauração do piso de madeira, renovação da iluminação e adequação dos banheiros para acessibilidade. A biblioteca também ampliou espaços voltados para quadrinhos, zines e oficinas culturais.
Fatu destaca ainda algumas raridades presentes no acervo, como uma edição de “Retirada da Laguna”, de Visconde de Taunay, autografada para Dom Pedro II, além de uma edição em latim da “Suma Teológica”, de Tomás de Aquino, publicada em 1871.
Mesmo com as dificuldades, a movimentação dentro da biblioteca continua. O número de empréstimos aumentou nos últimos anos e a programação cultural segue ativa, atraindo estudantes, artistas e professores. Uma feira permanente de livros usados ajuda na arrecadação de recursos para compra de novos exemplares. Há ainda parcerias independentes, como a realizada com a editora paulistana Reformatório, que contribui com parte das vendas destinadas ao caixa da instituição.
Elisa Aleixo observa que o crescimento do público jovem talvez seja uma das maiores surpresas dos últimos anos. “Muita gente imagina que os jovens perderam completamente o interesse por bibliotecas, mas isso não corresponde ao que vemos aqui dentro”, comenta.
Alfredo Rossetti faz uma leitura parecida. Para ele, a permanência da Padre Euclides ao longo de mais de um século só foi possível porque sempre houve pessoas dispostas a impedir o fechamento do espaço, mesmo nos momentos mais difíceis. “É uma luta contínua”, resume.