Tecnologia em ação

Tecnologia em ação

De 27 de abril a 1º de maio, a 31ª Agrishow mostra como a gestão cada vez mais apoiada em dados, planejamento e integração está mudando o cenário do Agronegócio

Ao longo de sua trajetória, a Agrishow — principal feira de tecnologia para o agronegócio da América Latina — deixou de ser apenas uma vitrine de lançamentos para se consolidar como um dos principais ambientes de negócios do agro mundial. Os números impressionam: em 2025, foram R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios (7% a mais que no ano anterior), 800 marcas expositoras e mais de 197 mil visitantes de mais de 50 países. Para além dos dados, há um impacto menos mensurável, mas essencial: o cultural. A feira funciona como espaço de encontro, onde diferentes elos da cadeia se conectam, trocam conhecimento e constroem os próximos passos do setor.


A maior exposição agropecuária do Brasil reúne o que há de mais novo em tecnologia agrícola em uma área de 523 mil m². Para além de máquinas e soluções inovadoras que impulsionam produtividade, eficiência e sustentabilidade, o evento ainda revela um ambiente onde decisões são tomadas e tendências se formam para o futuro de um dos setores mais relevantes da economia brasileira. 


Em um cenário global marcado por desafios climáticos, demandas por sustentabilidade e necessidade crescente de produção de alimentos, essa articulação se torna mais estratégica. O Brasil tem condições de se consolidar como pilar da segurança alimentar global. Hoje, o país atende cerca de 10% da demanda global por alimentos, com presença em cinco continentes, segundo a Secretaria de Política Agrícola (SPA) do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária). Em 2025, o agronegócio brasileiro bateu o recorde de US$ 169,2 bilhões em exportações, segundo o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), aproximando-se de se tornar o maior exportador mundial do setor. 


Para o presidente da feira, João Carlos Marchesan, esse protagonismo ganha ainda mais visibilidade durante a Agrishow, quando Ribeirão Preto se torna ponto de convergência entre tecnologia, produção, investimento e estratégia global. “Os negócios que acontecem na Agrishow não se resumem ao Brasil, pois impactam a segurança alimentar do planeta”, afirma. “O país ocupa posição privilegiada ao integrar tecnologia de ponta, escala produtiva e rápida adaptação às normas internacionais”, conclui.

 

“Nos corredores da Agrishow, diretrizes do setor ganham corpo”, afirma João Marchesan 

 

CAMPO MAIS CONECTADO


Realizada entre 27 de abril e 1º de maio, a 31ª edição da feira promete deslocar o foco dos recordes para a reflexão de um agro que não apenas produz mais, mas melhor, com inteligência, responsabilidade e visão de longo prazo. O destaque de 2026, de acordo com Marchesan, não está em um equipamento específico, mas na mudança de mentalidade: a agricultura reativa, baseada na experiência e na resposta a imprevistos, dá lugar a uma gestão orientada por dados, em que sensores, drones, imagens de satélite e plataformas digitais passam a integrar a rotina no campo, trazendo previsibilidade.


Dados da Pesquisa SAE Brasil Caminhos da Tecnologia no Agronegócio indicam que o uso de ferramentas digitais já está presente em grande parte das propriedades rurais. Segundo o levantamento, 91% dos produtores utilizam GPS nas operações agrícolas, 85% adotam aplicativos de gestão financeira, 76% recorrem a imagens de satélite e aplicativos de gestão agronômica e 70% utilizam práticas de agricultura de precisão. “A tecnologia passou a ter um papel mais estruturado dentro da propriedade. Ela organiza a operação, gera informação e permite que o produtor dedique mais tempo à gestão e ao planejamento da fazenda. Ter controle sobre variáveis que antes eram imprevisíveis muda completamente a lógica da produção”, afirma Marchesan. 


Na prática, isso significa tratores, pulverizadores e colheitadeiras com sistemas que monitoram, em tempo real, velocidade, aplicação de insumos e desempenho, gerando dados que permitem acompanhar as atividades, corrigir desvios e otimizar decisões ao longo da safra. A isso soma-se o uso crescente de drones — presentes em 61% das propriedades, segundo a SAE Brasil — que ampliam o monitoramento das lavouras, viabilizam pulverizações localizadas e ajudam a identificar pragas, falhas de plantio e estresse das culturas, reforçando a previsibilidade no campo ao digitalizar processos e reduzir riscos. 


“Enxergo a Agrishow como um verdadeiro termômetro, não só para Ribeirão, região e Estado de São Paulo, mas também para todo o Brasil, alcançando, inclusive, os países vizinhos. É um orgulho que impulsiona a economia, mostrando a força, tecnologia e sustentabilidade do Agro, o melhor do mundo, com certeza. Meu receio é que políticas futuras possam comprometer a segurança jurídica e o desenvolvimento que tanto lutamos para construir no agronegócio. Precisamos de estabilidade, de regras claras e de um ambiente que incentive o investimento, em vez de incertezas, insegurança e falta de confiança. Penso que esta Agrishow será um espelho do que estamos vivenciando no momento”, afirma Paulo Junqueira, presidente do Sindicato Rural de Ribeirão Preto.


Esse ecossistema se completa com plataformas digitais que integram informações de produtividade, custos, manutenção e histórico das áreas, oferecendo uma visão mais estratégica da propriedade e diminuindo a dependência de controles manuais e dispersos. Tudo isso significa acompanhar em tempo real desde o desempenho de máquinas até as condições climáticas e a saúde das lavouras. O resultado é um campo mais conectado, mais preciso e menos sujeito a decisões tomadas no escuro.


Esse movimento silencioso redefine a forma de produzir e, segundo Marchesan, a Agrishow 2026 se consolida como vitrine dessas transformações, trazendo inovações em mecanização, agricultura de precisão, irrigação, armazenagem e gestão, com foco na redução de custos e no aumento da produtividade em toda a cadeia produtiva. 


De acordo com a organização, as tecnologias expostas vão desde o uso de inteligência artificial e automação até soluções voltadas à redução do desperdício de recursos naturais, fundamentais para ampliar a produção sem a necessidade de expansão de áreas, um dos principais desafios globais. “A Agrishow é o epicentro dessa transformação. O que mostramos aqui é a transição definitiva da agricultura reativa para a agricultura de precisão, em que cada decisão é baseada em dados e cada hectare é potencializado pela inteligência”, acrescenta.

 

ENTRE A TRADIÇÃO E A INOVAÇÃO


A Agrishow 2026 chega com o tema “A força de nossas raízes”, com o objetivo, segundo sua organização, de evidenciar uma das principais características do agronegócio brasileiro: evoluir sem romper com sua base. “A trajetória do agro remete ao conhecimento acumulado no campo, à capacidade de adaptação dos produtores e à evolução tecnológica que sustenta o setor. A Agrishow nasce dessa base e segue como um espaço onde tradição e inovação caminham juntas”, afirma João Carlos Marchesan.


De acordo com ele, em 2026, a programação inclui Rodada Internacional de Negócios e pavilhões estrangeiros, aproximando empresas brasileiras de parceiros globais. A presença crescente de jovens também reforça essa integração: em 2025, millennials representaram 23,39% do público, a geração Z 16,82%, a geração X 14,12% e os boomers 4,66%. Para conectar diferentes perfis, a feira oferece Wi-Fi gratuito, aplicativo com mapa interativo, assistente virtual e ferramentas de networking digital.


Entre os destaques, a organização cita o Agrishow Labs, voltado a startups, e o Agrishow Pra Elas, que evidencia o protagonismo feminino no setor. Enquanto o Labs aproxima inovação e mercado, criando um ambiente de experimentação, o Pra Elas promove debates, troca de experiências e ações sociais — como a arrecadação de lenços para pacientes oncológicos — refletindo um agro em transformação tecnológica e cultural.

“Agrishow fortalece posicionamento de Ribeirão Preto como hub de eventos e negócios”, diz Aguinaldo Rodrigues. Foto: Luan Porto 

 

RIBEIRÃO PRETO EM MOVIMENTO


Durante a Agrishow, Ribeirão Preto deixa de ser apenas sede para se tornar parte do próprio evento, funcionando como um hub internacional de negócios. Entre os impactos: alta ocupação hoteleira, comércio aquecido, restaurantes com horários ampliados e serviços operando em ritmo intenso. “O reflexo em Ribeirão Preto é direto. Para além da movimentação recorde em hotéis e restaurantes, a feira coloca o interior paulista no radar dos grandes fundos de investimento globais. É nos corredores da Agrishow que as diretrizes do setor ganham corpo e onde as políticas públicas são debatidas olho no olho com as autoridades”, afirma João Marchesan.


De fato, a feira reforça o papel da cidade como destino de turismo de negócios. Em 2025, o município teve ocupação próxima de 100% e permanência média de três a quatro dias. Aguinaldo Rodrigues, presidente do Observatório Econômico e Turismo de Ribeirão Preto (OET-RP) e Região, diz que o impacto é direto na economia local, especialmente no setor de alimentação fora do lar.


“Bares e restaurantes registraram aumento de até 30% no movimento, com pico entre terça e quinta-feira, dias de maior concentração de público. Churrascarias, bares e restaurantes tradicionais estiveram entre os segmentos mais beneficiados, impulsionados pela maior demanda. Houve elevação do faturamento e contratação de mão de obra temporária”, aponta.


Para 2026, a expectativa é de manutenção desse ritmo, acompanhando o volume de visitantes. O OET-RP realizará uma pesquisa de perfil do público em parceria com o CIET (Centro de Inteligência da Economia do Turismo), aprofundando dados sobre comportamento e consumo. 


No varejo, a projeção é de alta entre 0,5% e 1,5% nas vendas em abril, em comparação ao mesmo período do ano passado, quando a variação ficou positiva em 1,5%. O levantamento é do Sincovarp (Sindicato do Comércio Varejista) e da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Ribeirão Preto, por meio do CPV (Centro de Pesquisas do Varejo). “Devemos ficar próximos do desempenho do ano passado. O consumo, de uma forma geral, anda desaquecido e os próprios organizadores da Agrishow estimam receber praticamente o mesmo público de 2025, de até 200 mil pessoas”, afirma Paulo César Garcia Lopes, presidente de ambas as entidades. 


O setor de combustíveis também sente o impacto, com previsão de aumento médio de 17% nas vendas e crescimento nas lojas de conveniência, impulsionado pelo fluxo de visitantes hospedados em cidades vizinhas. A Associação Núcleo Postos de Ribeirão Preto, que reúne cerca de 90 revendedores da cidade e região, estima um aumento de vendas de 500 mil litros a mais do que o normal. E, ainda, uma alta média de 15% nas vendas das lojas de conveniências em postos associados. Trata-se de um momento positivo para os mercados local e regional de combustíveis, uma vez que, com a lotação do parque hoteleiro em Ribeirão Preto, muitos visitantes acabam se hospedando em cidades do entorno e precisam se deslocar diariamente para o recinto da Agrishow.


Confirmando-se as estimativas, a Agrishow seguirá fortalecendo Ribeirão Preto como destino de negócios, com efeitos que ultrapassam o período da feira, impulsionando renda e atração de investimentos. 

 


Foto: Fernando Gonzaga

 

SÍMBOLO DE FORÇA
“A Agrishow é um símbolo da força de Ribeirão Preto. Aqui vimos o agro crescer, se modernizar e se transformar em um dos motores mais importantes da nossa economia. Ribeirão se transforma, recebe visitantes de todos os cantos, movimenta hotéis, restaurantes, comércio, gera emprego, renda e abre portas para novos negócios. É impacto direto na economia, mas também projeção. É Ribeirão sendo vista, reconhecida e respeitada. E isso acontece porque temos história, estrutura e gente que trabalha todos os dias para fazer tudo acontecer. É daqui que a gente olha pro futuro com os pés firmes na nossa história e certeza de que ainda tem muito por vir.” 
Ricardo Silva, prefeito de Ribeirão Preto


 

 

INJEÇÃO NA ECONOMIA
“A Agrishow é fundamental para o agronegócio brasileiro e tem desdobramentos importantes na economia local. Chega a ser um segundo Natal para muitos setores de comércio e serviços de Ribeirão e região, onde a hotelaria esgota em um raio de 100 km e os bares e restaurantes têm alta de até 30% durante a feira. O Estado estima que essa movimentação de visitantes chega a injetar meio bilhão na economia local por edição. É o agro movimentando toda a nossa cidade.”
Sandra Brandani Picinato, presidente da Acirp

 

 

 

SETOR PREPARADO
“Em semana de Agrishow, milhares de veículos chegam a Ribeirão Preto ao mesmo tempo e circulam muito pela cidade durante o dia e à noite. E ainda tem a volta para casa, que também requer o abastecimento de grandes quantidades de combustíveis e pequenos serviços. Mesmo com esse cenário turbulento provocado pela guerra do Oriente Médio, o setor está devidamente preparado para atender à demanda, inclusive em suas lojas de conveniências”
Fernando Roca, presidente da Associação Núcleo Postos de Ribeirão Preto e Região

 

 

CONEXÃO 
“Como a maior parte do público da Agrishow vem de fora de Ribeirão Preto, esses visitantes sempre acabam consumindo no comércio local, incrementando as vendas. Sem falar no Ribeirão Rodeo e outros eventos de entretenimento, que também atraem milhares de moradores da macrorregião. Além do varejo, outros segmentos de mercado devem ser beneficiados pelo período da feira, especialmente os de hotelaria, locações por temporada/imobiliário, restaurantes/bares, atividades culturais, serviços de mobilidade e transporte de passageiros e serviços de receptivos. A Agrishow fortalece o Turismo de Negócios, que tem conexão direta com o comércio e isso é muito importante!”
Paulo César Garcia Lopes, presidente do Sincovarp e da CDL/RP

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