Empresas de Ribeirão Preto avançam no fim da escala 6x1 e antecipam mudança na jornada de trabalho
Pressão por qualidade de vida e receio de impacto econômico, a discussão sobre o fim da escala 6x1 ganha força em Ribeirão Preto e expõe os limites de um modelo que organiza a rotina dos trabalhadores
O dia de folga de Rita de Cássia Moreira Lima nunca foi exatamente um dia de descanso. Camareira sênior há dois anos em um hotel na zona sul de Ribeirão Preto, ela aprendeu a tratar o tempo como escasso. No único dia livre, precisava resolver tudo o que se acumulava: compromissos familiares, tarefas domésticas e pequenos problemas. Descansar, quando possível, virava efeito colateral. “Era cansativo, não tinha tempo com a família, e nem tempo para resolver meus problemas pessoais”, conta. A frase, dita com naturalidade, revela o funcionamento de um modelo amplamente disseminado no mercado de trabalho brasileiro. A escala 6x1 organizou a rotina de Rita e ainda organiza a de milhões de trabalhadores. Seis dias consecutivos de trabalho, um de descanso. Um formato legal, consolidado e essencial para o funcionamento de setores como comércio, hotelaria e serviços.
No hotel onde Rita trabalha, a mudança começou bem discreta. Primeiro como teste. “Iniciamos os testes em outubro com o setor de governança. Fizemos um estudo para buscar formas de melhorar a qualidade de vida e a saúde mental dos colaboradores. A estratégia focou em tornar o ambiente de trabalho mais atrativo e competitivo no mercado”, explica a gerente de Recursos Humanos, Jéssica Maximiano. A escala foi reorganizada, o tempo redistribuído e o ritmo alterado. O impacto não apareceu inicialmente nos indicadores da empresa. Veio antes no corpo. “Melhoria para tudo, pois uma folga não dava para nada”, resume Rita.
Na cozinha do hotel, a percepção seguiu outro caminho. Bruna Elisa Cima, cozinheira líder há três anos, lembra da reação inicial com cautela. “Minha primeira reação foi de susto”, diz. Mudanças na rotina de trabalho raramente chegam acompanhadas de garantias. Exigem adaptação. “Acho comum sermos um pouco cuidadosos com as mudanças, mesmo que sejam positivas”, explica. Com o tempo, no entanto, o estranhamento deu lugar a uma sensação de satisfação. “Quando eu entendi, percebi como é melhor.” Hoje, o impacto se traduz em algo mais sutil, mas significativo. “Me sinto mais disposta para trabalhar.” Ednalva de Oliveira Bernardo, também camareira, explica que consegue “resolver os problemas pessoais em um dia e descansar no outro”, depois que passou a viver a mudança de escala, no início do ano.
O que acontece dentro desse hotel, em Ribeirão Preto, é um exemplo do que vem pautando a relação entre trabalhadores e empresas no país desde o final do ano passado, quando a escala 6x1 passou a ser questionada por diferentes setores. “O que está acontecendo agora é uma mudança de percepção. O modelo não mudou, mas a forma como as pessoas se relacionam com ele mudou. E isso faz com que a escala 6x1 passe a ser questionada”, afirma o sociólogo Rhavier Henrique Mazieri Pereira.
Em Brasília, a discussão sobre a jornada de trabalho é tema de uma comissão especial na Câmara dos Deputados para tratar do tema que marca um novo estágio de um debate antigo. Hoje, a legislação brasileira estabelece uma jornada semanal de até 44 horas. A proposta em discussão prevê a redução dessa carga horária sem diminuição salarial. A ideia, aparentemente simples, produz efeitos complexos. Trabalhar menos horas mantendo o mesmo salário tensiona uma lógica histórica. Ao mesmo tempo, responde a um cenário crescente de desgaste. “É uma mudança que precisa ser analisada com muito cuidado, porque altera a relação entre custo de mão de obra e produtividade, principalmente em setores que dependem de presença contínua”, afirma a presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), Sandra Brandani.
Para o ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, “a meta é melhorar a qualidade de vida do trabalhador sem comprometer a sustentabilidade de quem gera emprego.” Para sustentar essa posição, o governo recorre a dados. Pesquisa do Sebrae indica que 51% dos donos de micro e pequenas empresas acreditam que a mudança não traria impacto negativo. Já um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que a redução de 44 para 40 horas semanais elevaria o custo médio do trabalho em 7,84%.
EVOLUÇÃO TRABALHISTA
A discussão sobre a jornada de trabalho não surge do nada. Ela acompanha a própria evolução das relações de trabalho no país. “A forma como o trabalho se organiza nunca foi estática. A jornada muda conforme mudam as relações econômicas, sociais e tecnológicas”, afirma Rhavier. Do ponto de vista legal, antes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituída em 1943, não havia limites claros para a jornada. A definição de oito horas diárias foi, à época, um avanço significativo e também alvo de resistência. Outras mudanças seguiram esse mesmo padrão. O 13º salário, por exemplo, foi inicialmente visto como risco econômico. Com o tempo, tornou-se parte estrutural da economia. “O que muda agora é o contexto. A tecnologia, as novas formas de trabalho e a forma como as pessoas passaram a enxergar qualidade de vida fazem com que a relação entre tempo e produtividade seja mais questionada”, afirma o sociólogo. Segundo ele, o cenário atual é marcado por uma contradição. A tecnologia ampliou a capacidade produtiva, mas não reduziu o tempo de trabalho. Em muitos casos, ampliou a disponibilidade exigida dos trabalhadores. “Nunca se trabalhou tanto”, diz.
Por outro lado, entidades empresariais pedem cautela e têm se posicionado de forma crítica ao avanço da proposta. “A Acirp reforça o entendimento de que qualquer alteração na legislação trabalhista deve considerar a viabilidade econômica das empresas, sob risco de comprometer a sustentabilidade dos negócios e o nível de emprego”, explica a presidente da entidade. A preocupação é maior entre micro e pequenas empresas, que representam a maior parte do empresariado brasileiro. São negócios com margens reduzidas e menor capacidade de absorver mudanças estruturais. A mudança não é simples, como explica Jéssica. “É necessário um planejamento rigoroso para manter a eficiência da operação, especialmente em períodos de maior demanda”.
UMA DIVISÃO QUE JÁ EXISTE
A discussão também revela uma divisão estrutural no mercado de trabalho brasileiro. Para trabalhadores formais, a redução da jornada pode significar mais tempo livre sem perda de renda. Já para trabalhadores informais, a lógica tende a ser inversa. Reduzir o tempo de trabalho pode significar reduzir a renda. Isso leva, na prática, à ampliação da jornada. A questão passa a ser sobre acesso ao tempo. “Essa discussão também expõe uma desigualdade importante, porque nem todos têm acesso ao mesmo tipo de trabalho. Para muitos, o tempo livre ainda é um luxo”, afirma Rhavier.
“A prática recorrente de jornadas extensas e até múltiplos vínculos de trabalho mostra que muitos profissionais já precisam ampliar suas horas para dar conta da renda”, explica Sérgio Roberto Balduíno da Silva, presidente do sindicato dos auxiliares e técnicos de enfermagem e empregados em estabelecimentos de saúde de Ribeirão Preto e região (SINDEES).
No comércio, a defesa da mudança é direta. Regina Pessoti, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Ribeirão Preto (Sincomerciários), afirma que a redução da jornada é necessária. “Quando o trabalhador não tem tempo para descansar e conviver fora do trabalho, isso deixa de ser apenas uma questão individual e passa a impactar toda a dinâmica do trabalho”, diz.
Já na área da saúde, outra marca da cidade, Sérgio Roberto é categórico em afirmar que “defender o fim da escala 6x1 é uma pauta de saúde pública. Profissionais exaustos cometem mais erros, adoecem mais e se afastam com maior frequência”, diz. A resistência à redução da jornada está frequentemente associada ao custo. Mas essa conta nem sempre considera fatores menos visíveis. No hotel citado no início da matéria, a experiência mostrou que a redução de faltas e afastamentos impacta diretamente a operação. “A queda significativa na quantidade de atestados e faltas marca o sucesso da iniciativa”, afirma Jéssica. Segundo ela, o modelo anterior tinha custos que não apareciam de forma clara.
O QUE ESTÁ EM DISPUTA?
A discussão no Congresso vai além da redução de horas e trata de como a mudança será implementada. Parlamentares defendem transição gradual, considerando diferenças entre setores. O Chile, citado como referência, adotou redução progressiva ao longo de cinco anos. “No Brasil, a tendência é seguir caminho semelhante”, explicou o ministro.
Longe de Brasília, Rita e a atendente de hospedagem Joyce Marques dos Santos destacam a necessidade de reorganização. “Uma redução de horas pode tornar a rotina mais corrida, por isso é preciso se organizar para cumprir as mesmas metas do 6x1. Todo benefício precisa ser validado para virar direito”, explica.
A tensão entre mais tempo livre e produtividade aparece também entre gestores. Para Jéssica, a mudança só se sustenta com ajustes estruturais. “Não se trata apenas de dar mais folgas, mas de reorganizar a operação para manter a eficiência”, afirma. Embora parte dos empresários reconheça a necessidade de adaptação, o receio de aumento de custos segue como entrave. “Qualquer mudança precisa ser discutida com responsabilidade, já que o setor opera com margens apertadas”, afirmou a Abrasel.
Para Rhavier, é nesse ponto que o debate ganha profundidade. “O que está em discussão não é só a quantidade de horas, mas o lugar do trabalho na vida”, afirma. Segundo ele, a tendência é que esse questionamento cresça à medida que a sociedade passa a valorizar também o tempo disponível.