Um brinde perigoso
O álcool tóxico que causa cegueira e morte expõe falhas na fiscalização sanitária e afeta até 40% das vendas de destilados em bares paulistas
A contaminação por metanol nas bebidas alcoólicas deixou de ser um episódio isolado para se transformar em uma crise nacional. Ao longo dos meses de setembro e outubro de 2025, histórias de perda de visão, casos fatais e sequelas irreversíveis se espalharam pelo país. Até o fechamento desta edição, 32 casos haviam sido confirmados em três estados: São Paulo (28), Paraná (3) e Rio Grande do Sul (1). O padrão assustou especialistas e acendeu o alerta entre autoridades sanitárias, bares, restaurantes e consumidores.
A região de Ribeirão Preto, um dos polos mais importantes do país na área de pesquisa em toxicologia, ainda não havia confirmado nenhum caso, mas tornou-se ponto estratégico na investigação sobre os episódios de intoxicação por metanol. O Laboratório de Análises Toxicológicas Forenses da USP Ribeirão Preto, liderado pelo professor Bruno Spinosa De Martinis, é hoje uma das principais referências nacionais nas análises biológicas de sangue e urina utilizadas para quantificar metanol em vítimas suspeitas.
Bruno e sua equipe intensificaram o processamento das amostras que chegam de diversos municípios do Estado de São Paulo, muitas vezes encaminhadas pela Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (FMRP-USP) ou por hospitais regionais. Além disso, garrafas de bebidas apreendidas em operações da Polícia Civil e da Vigilância Sanitária também são analisadas no mesmo laboratório. “O nosso papel é fornecer evidências científicas que ajudem as autoridades de saúde e de segurança pública a entender o que está acontecendo. Trabalhamos tanto com amostras biológicas quanto com as próprias bebidas apreendidas”, explica o professor.
Os desafios técnicos são significativos. Diferenciar o metanol, altamente tóxico, em meio à alta concentração de etanol, comum em destilados, exige calibração precisa, controle rigoroso de contaminação e equipamentos sofisticados. O método adotado na USP utiliza cromatografia gasosa com detector de ionização por chama (GC-FID), aliada à técnica de headspace (veja no box abaixo), que permite a detecção de quantidades mínimas de metanol com rapidez e precisão. “Nós utilizamos um procedimento validado que tem alta sensibilidade. Em cerca de dez minutos, após a etapa de incubação, já é possível saber se há metanol presente na amostra”, detalha Bruno.
Ele ressalta, contudo, que o tempo é fator decisivo. “Quanto antes a suspeita é levantada e a coleta feita, maiores são as chances de tratamento. O metanol é metabolizado no organismo e, depois de algumas horas, já se transforma em substâncias ainda mais tóxicas, como formaldeído e ácido fórmico. Por isso, a rapidez do diagnóstico é crucial”, afirma.
O fato de Ribeirão Preto sediar um dos mais principais laboratórios de toxicologia forense do país deu à região uma vantagem estratégica. Casos que, em outros lugares, podem levar dias para serem confirmados, aqui chegam a ter resultado em poucas horas. Isso tem permitido descartar rapidamente suspeitas e evitar o pânico. “Até o momento, todas as amostras analisadas por nós apresentaram resultado negativo para metanol. Mas seguimos em alerta e preparados para agir rapidamente se algum resultado positivo surgir”, completa o pesquisador.
ECONOMIA TAMBÉM SENTE EFEITOS
O impacto da crise do metanol atingiu também a economia e o comportamento de consumo. Em Ribeirão Preto, bares e restaurantes sentiram o reflexo imediato da desconfiança. Estabelecimentos que dependiam fortemente da venda de destilados — como cachaça, vodca, gin e tequila — registraram queda de até 40% nas vendas. “Muitos clientes deixaram de pedir essas bebidas, optando por cerveja, vinho ou até água com gás, por segurança”, relatou o dono de dois bares no Centro.
Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), metade dos bares paulistas teve queda no faturamento. Para um setor já pressionado por custos elevados e ainda em recuperação pós-pandemia, a crise foi mais um golpe. Em nota, a entidade afirmou que a falsificação e adulteração de bebidas “são crimes graves contra o consumidor e contra a saúde pública”, defendendo ação conjunta entre autoridades, empresários e sociedade.
A Abrasel recomenda que bares, restaurantes e distribuidores comprem apenas de fornecedores reconhecidos, com nota fiscal e comprovação de origem. Para o advogado Percival Maricato, a alta carga tributária estimula o contrabando e amplia riscos à saúde. Já o presidente da Abrasel, Paulo Solmucci, defende educação e campanhas de conscientização em vez de medidas punitivas: “As novas gerações já mostram forte tendência à moderação no consumo. É um avanço conquistado pela educação”. Na região, a Abrasel Alta Mogiana — que representa mais de 300 estabelecimentos — reforçou entre os associados a importância da procedência. “O episódio serve como alerta. Não há registro de casos aqui, mas é fundamental manter uma postura preventiva”, declarou Vinicius Iozzi, diretor-executivo.
O setor varejista também se mobilizou. A Associação Paulista de Supermercados (Apas) destacou que a compra de bebidas em supermercados é segura graças a processos de rastreabilidade e controle logístico. Produtores de cachaça artesanal e microdestilarias, que vinham crescendo, também sentiram o baque. A Abrasel Alta Mogiana estima que o impacto ainda será sentido nos próximos meses, principalmente em pequenos negócios noturnos. Um estudo setorial estima que o mercado global de bebidas alcoólicas movimentou US$ 550 bilhões em 2024, com previsão de crescimento de 6,9% ao ano até 2029. No Brasil, o avanço médio foi de 1,7% nos últimos cinco anos, mas os números não consideram o mercado clandestino, que foge à fiscalização e amplia os riscos sanitários.
No mercado formal, as empresas investem em selos de segurança, controle de qualidade e rastreabilidade. No informal, a margem para adulteração é ampla, e a adição de metanol como diluente barato é uma tragédia anunciada. Segundo o pesquisador Bruno Spinosa de Martinis, o metanol pode surgir naturalmente em pequenas quantidades durante a fermentação de frutas ricas em pectina, como uva e maçã. O risco está na concentração elevada em destilados, quando a “cabeça” da destilação não é corretamente descartada. Mais grave, porém, é a adição deliberada da substância para aumentar o volume e reduzir custos. “Essa prática é criminosa e extremamente perigosa, podendo causar cegueira, coma ou morte”, alerta Bruno.
Diante da crise, a Vigilância Sanitária, a Polícia Civil e o Procon intensificaram fiscalizações em bares, distribuidoras e depósitos. Pelo menos cinco pessoas foram presas na região por comercializar ou produzir bebidas adulteradas. Em muitos casos, frascos recolhidos apresentavam rótulos falsos, tampas reaproveitadas e líquidos com odor de solvente.
MAIS DO QUE UMA RESSACA COMUM
O infectologista Luis Felipe Visconde alerta para a alta toxicidade do metanol: 10 mL podem causar cegueira e 30 mL levar à morte sem atendimento imediato. A mortalidade varia entre 20% e 40%, conforme a rapidez do diagnóstico. Os sintomas iniciais lembram embriaguez (dor de cabeça, tontura, náusea), mas entre 6 e 24 horas surgem sinais graves, como visão embaçada e perda progressiva da visão. O tratamento exige agilidade, com antídotos e, em casos graves, hemodiálise para eliminar o veneno. Segundo o médico, a prevenção é essencial: evitar bebidas sem procedência confiável, destilados adulterados ou produtos sem rótulo e muito baratos. A origem deve ser sempre verificada.
Foto: divulgação/ Governo de SP