Ativista quer “resfriar” Ribeirão Preto e dobrar áreas verdes até 2030
À frente do Instituto Ribeirão Menos 3 graus, urbanista Carla Roxo defende meta de 30% de cobertura verde até 2030 para enfrentar o calor extremo e transformar a cultura do concreto em Ribeirão Preto
Voltar a morar em Ribeirão Preto, em 2018, foi o ponto de virada para a arquiteta e urbanista Carla Meirelles Roxo. Depois de viver em cidades com qualidade de vida urbana, Carla se deparou com uma Ribeirão quente, cinza e carente de áreas verdes — cenário que a levou a cofundar o Instituto Ribeirão Menos 3 Graus.
Hoje, ela se define como ativista climática, engajada em mobilizar profissionais e cidadãos para transformar a cidade em referência de resiliência ambiental. À frente do Instituto, Carla lidera um plano ambicioso: aumentar para 30% a cobertura verde urbana até 2030, usando o poder da natureza para enfrentar o calor extremo. “A mudança é urgente e coletiva”, afirma, destacando que cada cidadão pode fazer sua parte e pressionar governos e empresas a agir. Para ela, já existem soluções concretas para tornar Ribeirão uma cidade mais saudável e justa para todos.
Você se considera mais arquiteta, urbanista ou ativista climática hoje? Como essas três facetas dialogam no seu dia a dia?
Hoje, me considero uma ativista climática. Acredito que, atualmente, todos os cidadãos — independentemente de sua profissão ou área de atuação — deveriam pautar suas ações e decisões com base em um novo cenário: o da resiliência diante das mudanças climáticas. No meu caso, o ativismo climático está profundamente entrelaçado com minha formação em arquitetura e urbanismo, e com a prática profissional que desenvolvi ao longo dos anos.
Minha experiência com certificações ambientais, como o "Green Building", e com políticas públicas urbanas, reforçou em mim a convicção de que arquitetura, urbanismo e ativismo são dimensões complementares. Como arquiteta, busco desenvolver projetos que vão além da redução de impactos — que realmente contribuam para regenerar os ambientes urbanos. Como urbanista, trabalho para promover cidades mais verdes, inclusivas e resilientes, capazes de responder aos desafios ambientais e sociais do nosso tempo.
Essas três frentes dialogam constantemente no meu dia a dia. O ativismo se manifesta nas escolhas que faço, nas causas que apoio e na urgência com que encaro meu papel como profissional. O antigo modelo de cidade — cinza, centrado no concreto e nos carros — não é mais viável. Precisamos redesenhar nossas cidades com base na adaptação, na natureza e na vida coletiva. E acredito que nós, arquitetos e urbanistas, temos um papel central nesse processo de transformação.
Quando e como surgiu a ideia de criar o Instituto Ribeirão Menos 3 Graus?
Morei durante muitos anos em cidades que ofereciam boa qualidade de vida urbana — lugares onde eu não precisava de carro, podia caminhar com segurança pelas ruas e desfrutar de espaços públicos verdes. Quando voltei a morar em Ribeirão Preto, em 2018, me deparei com uma realidade bastante diferente: muito calor, escassez de áreas verdes, poucas árvores e uma mobilidade urbana extremamente limitada.
Foi nesse contexto que comecei a me envolver com coletivos locais e com políticas públicas. Logo percebi que a pauta ambiental urbana era pouco discutida e raramente colocada em evidência. Não existiam planos, orçamento, leis ou diretrizes específicas voltadas para arborização urbana, mobilidade ativa, mudanças climáticas, entre outros temas fundamentais.
Ao mesmo tempo, percebi que não estava sozinha — muitas outras pessoas também estavam incomodadas com essa realidade e desejavam um novo modelo de cidade. Assim, começou a nascer um movimento coletivo que viria a se tornar o Instituto Ribeirão Menos 3 Graus. Um grupo interdisciplinar de profissionais e cidadãos se reuniu com o objetivo de transformar esse cenário. Juntos, construímos um plano de ação com 20 soluções e demos início às atividades, unindo esforços para promover uma cidade mais verde, resiliente e voltada para as pessoas.
A meta de alcançar 30% de cobertura verde até 2030 é bastante ambiciosa para Ribeirão Preto. Quais são os principais desafios para atingi-la e que impacto concreto essa meta trará para a cidade e para seus moradores?
Alcançar 30% de cobertura verde até 2030 é, de fato, uma meta ousada. Hoje, Ribeirão Preto tem apenas 12,7% de seu perímetro urbano coberto por vegetação arbustiva ou arbórea (segundo o Inventário Amostral da Arborização Viária da PMRP, 2021). O debate sobre o tema só ganhou força nos últimos dois anos, impulsionado por episódios extremos — como os dias em que a fumaça escureceu o céu e os picos de calor e poluição afetaram diretamente a saúde da população.Durante muito tempo, o tema foi negligenciado pelo poder público. Só recentemente começaram as discussões sobre a criação do Plano Estratégico do Sistema de Áreas Verdes e Arborização Urbana (PESAVAU).
No entanto, ainda não há orçamento público permanente destinado à infraestrutura verde. Hoje, a maioria das árvores plantadas é resultado de compensações ambientais obrigatórias — ou seja, não representam um ganho real, mas apenas o mínimo exigido por lei.O maior desafio é tanto cultural quanto institucional. Precisamos superar a mentalidade do concreto, das calçadas áridas e impermeabilizadas, e entender que o verde urbano deve ser tratado como infraestrutura essencial — assim como postes, redes de água e drenagem. Árvores não são “decoração”, mas elementos fundamentais para o equilíbrio e a saúde das cidades.Ainda hoje, há grande resistência ao plantio de árvores nas calçadas em frente aos imóveis, sejam eles residenciais ou comerciais. É comum ouvirmos frases como: “árvore dá trabalho e suja muito.”
A mesma pessoa que rejeita ter uma árvore em frente de casa, estaciona seu carro onde há sombra.Ao mudar essa mentalidade, com planejamento e investimento contínuo, os benefícios serão evidentes: melhoria da qualidade do ar, redução das ilhas de calor, promoção da saúde física e mental, e mais qualidade de vida. Um bom exemplo é a chamada regra 3-30-300, proposta por Cecil Konijnendijk, diretor do Nature Based Solutions Institute (2021), que sugere: cada pessoa deve ver pelo menos três árvores de sua janela (3); cada bairro deve ter 30% de cobertura arbórea (30); e todos devem estar a no máximo 300 metros de um espaço verde de qualidade (300).Cumprir essa meta é, sem dúvida, um grande desafio coletivo — mas os ganhos para a cidade e seus moradores são imensos.

Simulação do Instituto mostra soluções criativas para aumentar a cobertura verde em Ribeirão Preto
A cidade tem se expandido muito em áreas asfaltadas e com pouco planejamento verde. Como o Instituto pretende dialogar com o setor imobiliário e a construção civil para reverter esse cenário? Enfrentam resistência desses setores?
Infelizmente, ainda observamos uma expansão urbana em Ribeirão Preto sem a devida qualificação ambiental. Isso está diretamente ligado a questões culturais e à falta de diretrizes mais claras no planejamento urbano. Não temos uma visão consolidada da cidade que queremos construir. Qual é a Ribeirão Preto que queremos para 2050, por exemplo?
Enquanto isso, cidades como Paris comemoram conquistas ambientais concretas, como a redução de 40% na poluição do ar — resultado de políticas urbanas baseadas no conceito da “cidade de 15 minutos”, onde serviços essenciais estão acessíveis por meio de caminhadas ou pedaladas curtas. A gestão parisiense adotou uma postura clara e, como a própria prefeita declarou, "radical", priorizando pedestres, ciclistas e o transporte público. Na prática, foram eliminadas cerca de 50 mil vagas de estacionamento e construídos mais de 1.300 km de ciclovias.
Ou seja, quando a prefeitura, por meio de suas secretarias, estabelece diretrizes e legislações urbanas que exigem um novo modelo de cidade, o setor da construção — incorporadoras, construtoras, arquitetos, engenheiros — tende a se adaptar e buscar soluções mais sustentáveis e economicamente viáveis. Para isso, é fundamental ampliar o diálogo com todos os setores que impactam diretamente o espaço urbano, especialmente o setor imobiliário e da construção civil.
O Instituto Ribeirão Menos 3 Graus atua justamente nesse sentido: provocando conversas, propondo soluções e mostrando referências que já foram implementadas com sucesso em outras cidades. Há, sim, muitas resistências — o que não é exclusivo de Ribeirão Preto —, mas a emergência climática exige respostas rápidas. Basta observar: Ribeirão ainda não possui edifícios sustentáveis de referência, enquanto o modelo predominante é o de condomínios murados, grandes áreas de estacionamento e um tecido urbano fragmentado. A mudança precisa acontecer, e o setor da construção tem um papel central nesse processo de transformação.
Ribeirão Preto é um polo do agronegócio, que exerce forte influência política e econômica. Como o Instituto lida com esse lobby e quais estratégias existem para equilibrar interesses econômicos e a necessidade de uma cidade mais verde e resiliente?
Atualmente, o Instituto Ribeirão Menos 3 Graus atua prioritariamente na malha urbana, mas reconhecemos que o debate sobre sustentabilidade precisa ultrapassar os limites da cidade e alcançar também a escala regional. A criação de corredores ecológicos e ilhas verdes nas franjas urbanas é uma possibilidade concreta — especialmente em uma cidade com forte presença do agronegócio. Também é necessário incluir, no debate em escala nacional, a promoção da agricultura regenerativa. No entanto, para que isso se concretize, é fundamental o envolvimento do poder público e a construção de políticas públicas regionais metropolitanas voltadas ao verdejamento do território.
Acredito que o desafio está em construir pontes entre os diferentes interesses — econômicos, sociais e ambientais — e mostrar que a sustentabilidade urbana e rural não são entraves ao desenvolvimento, mas oportunidades para inovação e resiliência.
Como o projeto de “verdejar” as escolas municipais contribui para a mudança de mentalidade da população em relação à importância das árvores e áreas verdes?
As escolas podem ser polos de transformação dentro das cidades. Torná-las “escolas verdes” é uma estratégia concreta de resiliência climática urbana. Infelizmente, o modelo atual das escolas reflete a cidade cinza que estamos construindo. Crianças e jovens passam a maior parte do dia em ambientes fechados e áridos. Já se sabe, por meio de estudos, que o déficit de natureza, especialmente nas áreas urbanas, pode afetar negativamente a saúde física e mental das crianças, comprometendo seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Sendo assim, escolas com pouca ou nenhuma área verde podem contribuir para a dificuldade de aprendizagem.
É fundamental que se trabalhe na criação de espaços verdes e na promoção de atividades ao ar livre, incentivando o contato com a natureza desde a infância. As crianças estão se tornando cada vez mais distantes do mundo natural — um fenômeno que o autor Richard Louv, em seu livro A Última Criança na Natureza, chama de Transtorno do Déficit de Natureza (TDN).Uma pesquisa publicada na revista científica PLOS Medicine e divulgada pelo jornal britânico The Guardian aponta que a presença de áreas verdes ao redor das escolas eleva o quociente de inteligência (QI) das crianças.
As escolas são o berço da nova geração e, ao terem contato diário com a natureza, as crianças desenvolvem uma nova relação com o verde. É por meio dessa vivência que podemos promover uma nova cultura ambiental. Vemos a escola como um ponto de partida — uma espécie de “acupuntura verde urbana”, com potencial de irradiar mudanças para o bairro e, em seguida, para a cidade como um todo. Esperamos que a Prefeitura dê continuidade a esse projeto até 2030, conforme o compromisso firmado por meio de uma carta oficial junto à atual gestão pública.

“As escolas podem ser polos de transformação nas cidades. Torná-las ‘escolas verdes’ é uma estratégia concreta de resiliência climática urbana”, destaca Carla
Que mensagem você deixa para quem ainda não se mobilizou? Como cada cidadão pode se tornar parte dessa transformação?
Engajem-se. Procurem, apoiem e fortaleçam os coletivos, movimentos e entidades que já estão há anos nessa luta pelo clima. Todos nós — cidadãos, profissionais, empresas — podemos e devemos repensar nossas ações e atuar de forma diferente. Já existem soluções concretas e viáveis que podem ser aplicadas no nosso dia a dia e nas cidades.
Cada pessoa pode fazer a sua parte, mas também temos o dever de pressionar os diversos setores — públicos e privados — para que a transformação aconteça de fato em Ribeirão Preto. A mudança é urgente e coletiva.
Foto: Reprodução