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Pesquisador explica como controle biológico pode ser alternativa aos pesticidas

Em entrevista ao Portal Revide, Carmino Hayashi explicou o conceito de controle biológico

Com uma economia voltada para agronegócio, a região de Ribeirão Preto também estuda e produz tecnologias que auxiliam no desenvolvimento das lavouras. Dentre elas, está o controle biológico. Uma tecnologia que utiliza microorganismos para a regulação de uma população, ou seja, libera agentes que auxiliam o produtor a controlar ou combater pragas que prejudicam os cultivos.

O professor em Ciências Biológicas pela USP e blogueiro da Revide, Carmino Hayashi, explica sobre esse campo de estudo. Hayashi assina o blog "Conhecimento & Desenvolvimento".

De que forma o controle biológico pode ajudar o meio ambiente?

A terminologia “agrotóxicos” compreende uma enorme gama de produtos conhecidos como “defensivos agrícolas, agroquímicos ou pesticidas”, que na prática correspondem as substâncias químicas, físicas ou biológicas comumente utilizadas nos manejos agrícolas e pecuários, visando a eliminação de diversas pragas, principalmente envolvendo as monoculturas. Embora, estes produtos possam contribuir diretamente no manejo e produtividade de nossos alimentos, quando utilizados de maneira inadequada – o que é comum – são extremamente nocivos ao nosso meio ambiente e, responsáveis por inúmeras doenças que acometem o ser humano na atualidade.

Por outro lado, em termos conceituais, o “controle biológico” representa uma técnica específica para controlar ou combater algumas pragas que prejudicam os cultivos agrícolas, utilizando-se principalmente de outros organismos, tais como a introdução nos ecossistemas de inimigos naturais, geralmente predador ou parasita da espécie praga que se quer combater, sem os malefícios provocados pela utilização dos agrotóxicos sintéticos, uma vez que no controle biológico, utilizam-se processos de controle naturais.

Portanto, a utilização destas técnicas de controle biológico em substituição aos pesticidas, propiciam a utilização de mecanismos naturais no controle das pragas que afetam a produtividade dos cultivares, embasados na aplicação dos conhecimentos sobre as interações entre os organismos vivos na natureza, possibilitando principalmente a dispensa do emprego destes agroquímicos tão prejudiciais ao meio ambiente e a biodiversidade.

Esse processo pode ser aplicado em qualquer tipo de plantação?

Os processos de controle biológico, conforme preconizados acima, envolvem vários tipos de procedimentos e técnicas, mas podemos assegurar de maneira concreta que sempre é possível buscar uma alternativa para as soluções dos problemas apresentados, desde que haja um estudo planejado e metódico (pesquisas) a respeito do assunto, conforme já atestado pelas diversas soluções encontradas pelos cientistas que trabalham na área.

Como é feito esse controle? E de que forma ele auxilia o produtor?

Devemos lembrar que quando falamos em controle biológico, logo pensamos em algum tipo de controle mais utilizados em nosso cotidiano, como o emprego de produtos naturais aplicados no controle de pequenas pragas em nossos jardins e nossas hortaliças. Entretanto, o controle biológico é muito mais amplo e complexo, envolvendo inúmeras técnicas combinadas de manejo, assim como a possibilidade do uso de uma enorme variedade de espécies ou até de produtos sintéticos inertes nestes processos de controle.

Entre as técnicas de manejo integrado de pragas que podem reduzir consideravelmente o uso de agrotóxicos, podemos citar o emprego do manejo cultural que possibilitem a atuação dos agentes de controle biológico; tais como os insetos benéficos, predadores, parasitoides e outros microrganismos como os vírus, bactérias e fungos com potencial patogênico sobre os insetos-praga, que se objetivam eliminar. Outro exemplo, muito comum no Brasil, é o uso de um produto à base de baculovírus que é extraído de lagartas pragas infectadas e mortas naturalmente, sendo específico para o controle da lagarta-da-soja. Este produto (extrato) é dissolvido em água e pulverizado sobre o plantio de soja, contaminando as lagartas (praga) e eliminando-as.

Nestas duas situações, estes manejos integrados para o controle de pragas, são extremamente vantajosos qualitativamente em relação ao uso de agrotóxicos, pois sendo naturais, não deixam resíduos tóxicos no ambiente, atingem pragas específicas, não provocam o surgimento de populações resistentes, não afetam outros sistemas de controles biológicos e, principalmente são inócuos para o ser humano.

Foto: Pixabay

A liberação de fungos e bactérias nas plantações para controle biológico pode, de alguma forma prejudicar o produtor ou o produto?

Ao pé da letra, se estivermos falando de controle biológico em sua legítima concepção, conforme as premissas científicas, fica evidentemente implícito que a liberação desses agentes de controle nos diferentes cultivares, visando o combate de pragas ali existentes (ou prevenindo a sua infestação), não afetarão de modo nenhum os produtos originários e, tampouco a saúde do produtor ou o ecossistema como um todo.

Como é feito o controle do organismo que é liberado na plantação?

Como são inúmeros e diversificados os processos de produção e controle dos agentes de controle biológico, podemos exemplificar com um caso (lagarta-da-soja) para que se tenha uma ideia destes procedimentos.

Os estudos necessários para a utilização de organismos que atuarão com total segurança como agentes do controle no combate as pragas, são feitos “a priori”, ou seja, os cientistas primeiramente estudam as inter-relações que ocorrem entre os organismos (relação presa x predador) em seus mínimos detalhes, para que possam planejar e propor os manejos com total segurança. Neste processo, faz-se o levantamento e coleta dos inimigos naturais da praga em seu meio ambiente e, posteriormente buscam desenvolver processos de isolamento, identificação, caracterização e avaliação da eficiência destes agentes enquanto controladores, sendo que ao final, desenvolvem-se os produtos compostos (extratos) a base destes agentes, avaliando-se ainda, a sua eficiência e segurança em campo para posterior colocação no mercado agrícola.

Evidentemente, devemos reforçar que os estudos de segurança ambiental, devem ser rigorosamente seguidos, especialmente nos casos da utilização de organismos controladores vivos (não inertes).

Por que esse método de controle não é amplamente utilizado pelos produtores?

Na proporção em que tomamos consciência da nocividade dos agrotóxicos, seria natural a tendência de maior utilização do controle biológico na produção agrícola nacional. Entretanto, nesse quesito ainda enfrentamos alguns problemas conjunturais de aceitação e utilização, por motivos diversos.

Um dos maiores entraves para ampliar a utilização do controle biológico pelos agricultores, talvez seja o pouco conhecimento sobre a tecnologia relacionada a estes produtos. Assim como os interesses econômicos envolvidos no processo da cadeia produtiva dos agrotóxicos, especialmente no tocante as suas estratégias de marketing. Por outro lado, existe ainda o agravante da antiga cultura do uso e facilidade de aplicação em relação aos agroquímicos, além da pouca responsabilidade social em relação as contaminações ambientais.

Alguns dados mostram que o mercado de produtos de controle biológico no Brasil, ainda são bastante inexpressivos, se compararmos com o mercado de agrotóxicos sintéticos. Entretanto, cumpre observar que empresas mais esclarecidas em relação as questões de sustentabilidade social e ambiental, tem direcionado inúmeros esforços rumo à utilização do controle biológico, em detrimento do controle químico. Especialmente no setor do cultivo da cana-de-açúcar e da sojicultora, sem deixar de mencionar a agricultura orgânica e de alguns pequenos produtores rurais que já se conscientizaram dos graves problemas que os agrotóxicos podem acarretar ao homem e aos ecossistemas.

 

Confira mais sobre o tema no blog "Conhecimento & Desenvolvimento"

Foto: Arquivo Revide

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