Em busca de equilíbrio ambiental

Em busca de equilíbrio ambiental

Conversamos com o zootecnista Alexandre Gouvea e com o biólogo Otávio Almeida sobre o trabalho de recuperação de animais silvestres dentro do Bosque Zoológico Fábio Barreto

O Bosque Zoológico Fábio Barreto, criado em 1942 para entreter com a exibição de animais exóticos, se transformou ao longo das décadas. O que antes era vitrine virou também pronto-socorro de animais silvestres e, desde 2024, abriga um dos 28 Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetras) do Estado de São Paulo, responsável por reabilitar espécies e proteger a biodiversidade de Ribeirão Preto e outras 60 cidades da região. Logo no primeiro ano, o centro enfrentou o desafio dos incêndios que atingiram o país: mais de 1.400 animais, em sua maioria queimados, foram atendidos. A atuação da equipe formada pelo zootecnista Alexandre Gouvea, com mais de 30 anos dedicados à fauna, pelo biólogo Otávio Almeida, doutor em Biociências e Biotecnologia e coordenador do laboratório desde 2023, e pelo médico veterinário Pedro Favaretto, deve resultar na ampliação da estrutura física do Cetras, com obras previstas ainda para este ano.

 

Como o senhor descreveria a transformação do Bosque Zoo nessas três décadas de atuação?

Alexandre: Quando comecei, há 30 anos, o Bosque era voltado ao lazer e à exposição de animais, quase como um cartão-postal. Havia resgates, mas sem estrutura adequada. Com o tempo, aprimoramos o atendimento dos animais daqui e passamos a receber espécies variadas, cada uma com necessidades próprias. Assim, o que era apenas uma exposição se transformou em escola de educação ambiental e hospital de fauna silvestre. O processo foi natural, até nos tornarmos um centro de referência. Só no ano passado, mais de 1.400 animais passaram pelo Cetras Morro do São Bento. A expansão urbana intensificou o contato entre fauna e pessoas — capivaras em condomínios, corujas em postes, serpentes em quintais — e a sociedade passou a cobrar responsabilidade, não apenas jaulas com animais exóticos. Hoje, nosso trabalho é devolver à natureza o que chega fragilizado.

 

Reintroduzir é sempre a prioridade, mas nem todos podem voltar. Um animal cego, por exemplo, não sobreviveria. Nesses casos, avaliamos se pode permanecer no Bosque com bem-estar, atuando na educação ambiental. O importante é que tenha dignidade. Entendo as críticas ao cativeiro, mas nenhum animal está aqui por capricho. Muitos não teriam condições de viver em liberdade. Mantê-los no Bosque é garantir qualidade de vida e, ao mesmo tempo, aproximar a população das espécies nativas, despertando consciência ambiental.

 

Pode explicar como é a rotina quando um animal chega ao Cetras atualmente?

Alexandre: Os animais chegam ao Cetras por meio dos Bombeiros, Polícia Ambiental, Ibama, Guarda Civil, concessionárias de rodovias e da população — embora orientemos que não façam isso, já que muitos filhotes são retirados indevidamente. Em várias espécies, a mãe se afasta temporariamente para buscar alimento, e o animal não está abandonado. Nesses casos, acabamos assumindo o papel dos pais, alimentando o filhote até que aprenda a sobreviver. O acesso é feito pela portaria da avenida Capitão Salomão, direto ao hospital, agilizando o atendimento e evitando contato com outros bichos. O veterinário faz a triagem inicial e coleta exames, o biólogo processa no laboratório e eu, como zootecnista, elaboro a dieta. É um trabalho de equipe, em que clínica, laboratório e nutrição atuam juntos. Só quando o animal recupera as condições ideais pode ser reintroduzido na natureza.

 

 

O laboratório foi estruturado em 2023 e deve ser ampliado e modernizado agora. O que mudou na prática?

Otávio: Mudou tudo. Antes, precisávamos terceirizar exames, o que atrasava diagnósticos. Agora, fazemos tudo aqui: hematologia, bioquímica, parasitologia, microbiologia. Recebemos a amostra e entregamos resultado em tempo real. Já processamos sangue de aves, tecidos de mamíferos, fezes de répteis. Isso permite condutas muito mais precisas. E agora temos também a nosso favor um software desenvolvido pela equipe do Cetras Morro do São Bento em que colocamos os dados e todos os departamentos tem acesso otimizado aos resultados de exames, caminhos possíveis de tratamento, diagnósticos e alimentação recomendada. Todo animal que entra aqui ganha um chip, uma espécie de número de RG e tem toda a sua trajetória mapeada. Isso é importantíssimo para personalizarmos o tratamento de cada animal, não cometermos erros e aumentarmos a eficácia dos tratamentos.

Agora, com a ampliação e modernização dos espaços, vamos implantar a sexagem molecular em aves. Parece detalhe, mas é essencial. Muitas espécies não apresentam dimorfismo sexual visível. Saber se um animal é macho ou fêmea muda a dieta, o manejo e até o comportamento. Esse conhecimento será fundamental para a reabilitação.

 

O senhor defende que o Cetras e o Bosque Zoológico atuam também em situações de saúde pública…

Alexandre: Temos papel de sentinela. Um exemplo são as capivaras, que podem carregar o carrapato da febre maculosa. Se recebemos uma atropelada, coletamos amostras: negativo, a região se tranquiliza; positivo, o sistema de saúde é avisado. É a integração entre saúde animal e humana, a chamada “saúde única”. Nosso papel é monitorar e informar, não retirar animais — só o Estado pode autorizar. O mesmo vale para javaporcos, híbridos agressivos e de rápida reprodução, cuja caça já foi liberada em São Paulo como forma de controle populacional.

 

Ainda estamos no período de secas e em que as queimadas são mais recorrentes. Tem sido mais tranquilo em 2025 em relação ao ano passado na questão do resgate de animais?

Alexandre: Essa é a fase mais difícil. Recebemos aves com asas queimadas, tamanduás desidratados, serpentes intoxicadas pela fumaça. A triagem precisa ser rápida, porque o número aumenta muito. É também quando a parceria com bombeiros e órgãos ambientais se intensifica. Mas também temos casos gratificantes. Lembro de um tamanduá-mirim que chegou com queimaduras graves. Ficou meses conosco, passou por nutrição especial e fisioterapia. Quando voltou para a mata, foi uma festa. Esse é o tipo de recompensa que motiva.

 

Sobre a importância da educação ambiental. Como ela se materializa no dia a dia?

Otávio: Recebemos escolas, fazemos palestras, oferecemos estágios para universitários. Muitos alunos de biologia, veterinária e zootecnia têm aqui seu primeiro contato prático com a fauna. Eles aprendem que cada exame, cada dieta, não é apenas para “salvar um animal”, mas para preservar equilíbrio ambiental.

 

E Ribeirão Preto pode se tornar referência nacional neste trabalho?

Otávio: Sem dúvida. Ribeirão é polo do agronegócio, está no mapa global. Não faz sentido não ter também um centro forte de sanidade animal. O Cetras tem potencial de ser referência em saúde única, conectando bem-estar animal, saúde ambiental e saúde humana. É um investimento em ciência, segurança e qualidade de vida.

 

E o que mais falta para se tornar de fato essa referência?

Otávio: Estrutura física e recursos humanos. Temos equipe qualificada, mas precisamos ampliar. O ideal seria expandir o espaço de triagem, aumentar áreas de soltura e contar com mais profissionais. A demanda só cresce e acreditamos que essa modernização que está prevista vai ser um grande passo para o Cetras.

 

O que os motiva, pessoalmente, a seguir neste trabalho?

Alexandre: Já vi de tudo, de animais chegarem moribundos e saírem voando, já vi também perdas dolorosas. Mas sigo porque acredito na missão. É mais que profissão, é vocação.

Otávio: Venho da pesquisa acadêmica e poderia ter seguido outro caminho. Mas escolhi estar aqui porque entendo que a fauna silvestre é espelho da nossa própria saúde. Cada animal salvo é um lembrete de que estamos todos conectados. Isso me move diariamente.

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