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Mestres da bola que fizeram a história do Leão

Memória é o que não falta no time Master do Comercial: de goleada no Corinthians, ao convívio com Pablo Escobar

“Oi, bom dia. Vim aqui receber um dinheiro que o Comercial me deve”. Depois de tanto tempo vendo um dos maiores clubes de futebol de Ribeirão Preto sendo maltratado, uma cena dessa não parece ser muito fantasiosa. Mas, pelo menos neste momento, isso não passou de uma brincadeira do ex-atacante Didi, que defendeu o Leão do Norte nos anos 1980, e que chegava ao Estádio Palma Travassos para mais um encontro com ex-jogadores.

Didi, centroavante de um dos times que mais marcaram os torcedores comercialinos, define a história de duas maneiras: “para o bem, e para o mal”. Ele defendeu as cores do clube em 1986, quando o Comercial foi rebaixado no Campeonato Paulista, mesmo depois de ter feito campanha de destaque no primeiro turno do estadual, com direito a goleadas nos grandes, como um 4 a 0 no Corinthians, em Ribeirão Preto, e um inimaginável 5 a 4 no São Paulo, em pleno Morumbi.

“Nunca um time do interior tinha dado uma goleada em um time grande na capital, ainda mais em um São Paulo com Careca, com Muller, Silas, Pita, Oscar, Darío Pereira. Quer dizer, era um timaço do São Paulo, e o Comercial goleou”, recorda o ex-jogador, que culpa o rebaixamento do time na ocasião à antipatia de outros clubes e da Federação Paulista de Futebol com o alvinegro.

Hoje dono de uma fábrica de cosméticos e figurinha carimbada nos jogos do Master do Comercial, Didi acredita que o clube está em boas mãos com Brenno Spinelli na presidência, e com Alexandre Ferreira no comando técnico. Para ele, a receita para o clube voltar a figurar entre os principais do Estado é ter influência nos bastidores do esporte, fora de campo, e mesclar atletas jovens e experientes, dentro de campo.

“Essa é a receita que não falha. Sempre os grandes times são assim. Fui campeão da Libertadores, Mundial, fui sete vezes campeão da Colômbia, no Uruguai, joguei na Espanha, na Itália, e todos os times sempre seguiram esta receita. Ela nunca falha. É só não mudar o futebol. A imprensa diz muita coisa, mas dentro de campo não mudou muito. Só ficou um pouco mais ágil, isso porque estão molhando o campo antes do jogo, mas é a mesma coisa”, salienta Didi, que, na Colômbia, defendeu o Atlético Nacional de Medelín, clube então presidido por Pablo Escobar, um dos traficantes de drogas mais famosos de todos os tempos, que voltou a ter destaque com a série Narcos, do Netflix, interpretado por Wagner Moura.

“Tínhamos o melhor time da Colômbia, embora em Cali, o clã Uchoa bancava o América de Cali, e isso em outras cidades, como Barranquilla, Bogotá. Então eles disputavam entre eles qual o melhor time, e iam buscar na América do Sul bons jogadores. Era uma seleção, então fomos sete vezes campeões. Às vezes você estava lá na concentração e via o barulho do helicóptero, e era ele, Pablo Escobar que descia no campo. Ele ia lá conversar com a gente”, revela.

Hoje, jogando aos fins de semana na equipe Master do Comercial, Didi diz que quando visita as cidades do interior com os companheiros percebe que recolhe os frutos que plantou ao longo da carreira, já que sempre aparece alguém para contar alguma passagem dele pelos campos.

“Um tempo atrás fomos jogar em uma cidade, e um senhor meio barrigudo, careca - que olhando eu diria que tinha quase a minha idade - chegou para mim e falou: ‘ou, você lembra de mim?’, eu disse ‘não’. ‘Eu entrava com você dentro de campo. Eu era garoto’. E o cara me agradecia. Hoje o cara já tem família, tem filho. Eu nunca ia lembrar disso. Eu entrava com vários mascotes. São esses detalhes que te enriquecem. A pessoa conta, e você vê o brilho nos olhos dessas pessoas. Se você não vai com o Master nessas cidades, você não teria esse contato. As pessoas não estariam próximas a você”, filosofa.

Pelas incursões do Master do Comercial – dirigida pelo ex-goleiro e ídolo comercialino Tomires - pelas cidadezinhas do interior, os jogadores se deparam com artimanhas do adversário para conseguirem derrotar os antigos jogadores do Leão do Norte, como a escalação de atletas bem mais jovens.

Tanto Didi quanto Beto Cano, técnico da equipe dos veteranos, contam que já viram em campo jogadores com 30 anos, enquanto o jogador mais novo do Comercial não tinha menos de 45 anos de idade.

“Às vezes vamos a uma cidade em que o time da casa, que não quer perder, coloca um ou dois moleques que destoam. Você pega um cara de 30 para correr com um de 45 ou 50 vai dar muita diferença. Mas no mano a mano, sem problema algum, encaramos qualquer um”, gaba-se Beto Cano, que foi atacante do clube no início dos anos 1980, e ‘culpa’ esses espertinhos pelas derrotas do Master.

Beto Cano diz que não tem muito problema na hora de montar os times, já que devido à idade dos jogadores, eles usam da experiência para passar pelos desafios. “São vários jogadores, cerca de 35, que se revezam. Então todos experientes, conhecem os caminhos do campo, dá para manter um bom nível, então quem entra em campo se destaca de qualquer jeito”, explica o técnico.

Futebol hoje

Quando se junta vários jogadores das antigas, o assunto não pode ser outro, que não o futebol. Mas, além de relembrarem as histórias do passado, o assunto é o futebol atual, que segundo eles não mudou muita coisa, apenas a nomenclatura.

Então ponta direita do Comercial nos anos 1980, Beto Cano acredita que a posição em que ele era especialista não foi extinta do futebol, apenas trocou de nome, virando apenas “atacante”. Ele definia a função de ponta com simplicidade. “Ir até o fundo e meter a bola na cabeça do centroavante”, afirma.

Já Didi diz que os centroavantes não sumiram do futebol, mas que apenas diminuíram de número. “Antigamente o centroavante era a referência. Hoje não falam muito de centroavante. No Barcelona você pode notar que o Luis Suárez fica mais enfiado. Sempre vai haver aquela peça naquela posição. O futebol é isso. Tem aquele que sabe mais defender, e aquele que sabe mais guardar”, defende o ex-jogador, que só acha que a imprensa parou de pegar no pé dos atacantes que perdem muitos gols.

“O Love, o Fred, Pato cansam de perder gol dentro da área, e ninguém fala nada. Só que hoje a bola é mais leve, a grama é um tapete. Na nossa época, na pequena área não tinha grama. Ali era duro pro atacante, porque a bola vinha e ela quicava, mas você tinha que dominar e fazer o gol. Hoje se dá muito para o jogador, e cobra menos”, reclama.

Outro que reclama da “proteção” aos jogadores hoje em dia é o ex-lateral e volante Jair Gonçalves, revelado pelo Leão no início dos anos 1970, mas que se destacou na Academia de Futebol do Palmeiras, campeão Paulista de 1974. Foi dele o passe para o gol que deixou o Corinthians mais um ano na fila.

Jair diz que não se pode mais chegar junto nos jogadores, e por isso alguns atletas como Neymar e Messi se destacam bem mais do que outros jogadores, porque ninguém consegue marcá-los, e o motivo é a conveniência dos juízes.

“Para parar o Neymar? Só na porrada. Mas o hoje qualquer lance mais forte a juizada já dá falta, não tem muito o que fazer”, aponta o ex-jogador.

O único que acredita que as funções mudaram dentro de campo foi o ex-goleiro Raul Pratalli. Segundo ele, em sua época, goleiro não podia sair jogando como o recém aposentado Rogério Ceni, até porque na época a regra para os goleiros utilizarem as mãos em qualquer situação era diferente.

Porém, a diferença mais marcante para o antigo arqueiro foi a criação de preparador de goleiros, que segundo ele ensina como o goleiro “deve cair, se posicionar em uma bola alta. Antigamente, o treino do goleiro não era nada específico, você dependia de pegar um atacante para treinar finalização, o que acabava não sendo sufiente”, completa Raul.

Foto: Leonardo Santos

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