Campos Elíseos: resquício verde na selva de pedra

Campos Elíseos: resquício verde na selva de pedra

Falta cuidado e valorização, mas a vocação histórica do Morro do São Bento para o lazer, a cultura e o esporte resiste

O antigo Morro do Cipó passou a ser chamado de Morro do São Bento na década de 1950, em função da inauguração do Mosteiro São Bento, em 20 de julho de 1948, e da denominação de Via São Bento, através da lei nº 672, de 7 de março de 1951, ao caminho que dava acesso às Sete Capelas, saindo do Bosque Fábio Barreto.

 

Formado em uma parte da antiga Chácara Olympia, onde eram realizadas festas para recreação da população no século XIX, o Parque Municipal Morro do São Bento foi formalmente constituído em 1995, compreendendo 250.880m² de área formada pelo Bosque (Zoológico, Jardim Japonês e áreas verdes); pelo Complexo Esportivo (conjunto poliesportivo Elba de Pádua Lima e Ginásio da Cava do Bosque) e pelo Complexo Cultural Antônio Palocci (Teatro Municipal e de Arena e Casa da Cultura), bem como as praças e as obras de arte existentes ali, tornam o Alto do Morro do São Bento um ponto diferenciado para Ribeirão Preto, bem ao lado do Campos Elíseos.

 

Visão e preservação


Homens de visão como Francisco Schimidt e Fábio Barreto, que viveram muito à frente de seu tempo, enxergaram o potencial do local e a necessidade de zelar por ele. Pareciam adivinhar que se tornaria um “resquício verde” em meio à “selva de pedra”. A primeira iniciativa oficial para preservação da mata foi feita pelo coronel e vereador Francisco Schimidt, que sugeriu a obtenção amigável ou desapropriação do local em 4 de março de 1899.

 

Finalmente, em 10 de agosto de 1907, o poder público municipal adquiriu por 30 contos de réis a Chácara Olympia, com 360.413m², localizada no Morro do Cipó, na margem direita do córrego Retiro, com frente para a atual rua Tamandaré. 


Quase 30 anos depois, entre 1936 e 1944, o ex-prefeito Fábio Barreto “abraçou a causa” e se empenhou em tornar o local uma área destinada à preservação da flora e fauna nacional. Implantou o Bosque Municipal em 1937, buscou doações de plantas e animais, e, em 1942, inaugurou o Parque Botânico, o Jardim Zoológico e o Museu Mineralógico. Seu sucessor, o prefeito José de Magalhães, continuou o trabalho, tornando o Bosque Municipal um expressivo centro de lazer da década de 1940. 


Atualmente, todo esse esmero anda esquecido pelo poder público. Fora a exuberância da natureza e o visível cuidado com as Sete Capelas, todo o restante do Parque Municipal Morro do São Bento pede pintura, limpeza, reforma, readequação e uma programação que dê novamente à população orgulho e prazer em estar ali.

 

Bosque Fábio Barreto


O Bosque Fábio Barreto ganhou esse nome através da Lei nº 61, de 22 de novembro de 1948, em homenagem ao seu idealizador. As atividades do Zoológico foram iniciadas em 1951, mas ele só recebeu reconhecimento oficial como Jardim Zoológico 72 anos depois da fundação e pode ser considerado um dos pioneiros da Educação Ambiental no país.

 

Ponto de lazer e cultura gratuito na cidade, o Bosque Zoológico Fábio Barreto recebeu mais de 250 mil visitantes em 2022, segundo a Prefeitura Municipal. É uma área pública de floresta nativa, onde vivem mais de 700 animais, de 180 espécies, entre aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios. O espaço abriga animais ameaçados de extinção, como arara-azul, ararajuba, suçuarana, lobo-guará, mutum-do-sudeste, urubu-rei, anta, tamanduá-bandeira, jaboti-tinga e tracajá, e concentra uma reserva de Mata Atlântica, com árvores centenárias, como perobas, jequitibás, ipês e jatobás.


A Prefeitura Municipal, sob a supervisão do paisagista japonês Mitsutery Naganune, construiu ali, em 1969, o Jardim Japonês que, quase 40 anos depois, em 2008, seria revitalizado e reinaugurado no aniversário da cidade, em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil. Construído por funcionários, o Mirante Coronel Alfredo Condeixa Filho constitui um espaço de 45 metros de altura e capacidade para 180 pessoas, em área de 200m², dentro do Jardim Japonês, que oferece uma bela vista da região central da cidade. O Bosque Fábio Barreto abre para visitação de quarta a sexta-feira, das 9h às 16h30 e está localizado na rua Liberdade s/nº, Campos Elíseos. Tel.: (16) 3636.2283.

 

Complexo Cultural Antônio Palocci



O Santuário das Sete Capelas constitui a base do Complexo Cultural — formado pela Casa da Cultura, Teatro de Arena, Teatro Municipal e Monumento Sagrado Coração de Jesus. Conta a história que, após supervisionar a construção do seminário no então Morro do Cipó (atual Morro do São Bento), o padre D. Casemiro Masetti entrou em uma pequena passagem da mata que levava a uma cava de pedra — que parecia uma imensa sala a céu aberto, com paredes de pedra cinzenta — e, ali, recebeu a mensagem de construir um templo dedicado à Nossa Senhora.

 

 

A imagem surgiu em sua mente e, pouco tempo depois, Elvira Palocci Teixeira decidiu financiar a construção. Assim nascia o Santuário que, atualmente, pode ser considerado um dos principais pontos turísticos de Ribeirão Preto.

 

Sete capelas


Inspirado nas Sete Igrejas de Roma, o sonho de D. Casemiro Masetti, do Santuário das Sete Capelas, começou a ser construído em 1947 e levou quase dez anos para ser concluído. Dispostas em semicírculo, as capelas edificadas na pedreira são voltadas para o Centro da cidade, formando um belo conjunto arquitetônico. A primeira capela foi inaugurada em março de 1948 e ganhou uma imagem de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Nossa Senhora das Graças), doada pelo então prefeito de Jardinópolis, Virgílio Costacurta, como símbolo da fraternidade entre as duas cidades.

 

 

 

Cinco meses depois, D. Casemiro decidiu construir a segunda capela, homenageando Bernardo Tolomei, santo que instituiu a ordem dos Monges Olivetanos, em 1348. Em 1951, foi inaugurada a capela de São Judas Tadeu. Em 1954, foi a vez da inauguração da capela em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, custeada por Maria Aparecida Meirelles. Também em 1954, foi inaugurada a capela de Santa Terezinha do Menino Jesus, oferecida por Zica Junqueira Gallo. Com a ideia de santuário concretizada, outras senhoras católicas assumiram as despesas de construção das demais capelas de São Judas Tadeu, inaugurada em 1951, e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e São Jorge, inaugurada em 1955.

 

Complexo esportivo


Mais conhecido como “Cava do Bosque”, o Complexo Esportivo reúne o Ginásio “Gavino Virdes” e o Poliesportivo “Elba de Pádua Lima-Tim”. Inaugurado no dia 13 de outubro de 1952, com a presença do então governador do Estado Lucas Nogueira Garcez, o Ginásio “Gavino Virdes” leva o nome do jornalista e vereador que muito batalhou pela sua construção — realizada durante o primeiro mandato do então prefeito Coronel Alfredo Condeixa Filho (1952/1955).

 

Com capacidade de 3.500 pessoas sentadas, quatro vestiários, sistema de som, placar eletrônico, além de tribuna de autoridades e tribuna de imprensa, o ginásio possui uma abóbada de madeira com 56m de diâmetro e 27m de altura — uma das mais arrojadas construções à época, quando Ribeirão Preto possuía 92 mil habitantes.

 


No ano de sua inauguração, Ribeirão Preto alcançou segundo lugar nos Jogos Abertos do Interior, sua melhor colocação até então, ficando atrás de Santos, e sendo campeã em diversas modalidades, em uma época em que os Jogos Abertos do Interior eram considerados a maior competição esportiva da América do Sul.

 

Em agosto de 1988, foi entregue a reforma e ampliação da Cava do Bosque, que passou a ser denominado como Complexo Esportivo “Elba de Pádua Lima-Tim”. Muitos eventos nacionais e internacionais, incluindo grandes shows com cantores brasileiros, aconteceram ali. Hoje, o espaço é utilizado para escolinhas esportivas, treinamento das equipes profissionais da cidade e pela população interessada na prática de esportes.

 


 

• Confira mais sobre os Campos Elíseos e outros bairros de Ribeirão Preto na editoria "Nosso bairro, nossa história".


Fotos: Revide

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