Uma travessia de amor e fé
A história de Antonio Germano Grili foi escrita com as mãos do trabalho, o pulso da dignidade e o coração moldado pela presença
No feriado de 9 de julho, Ribeirão Preto se despediu de um de seus antigos comerciantes — figura querida nas esquinas e nos afetos do bairro Campos Elíseos. Partiu Antonio Germano Grili, o “Seo Toninho”, como era conhecido por fregueses e amigos, que por décadas o viram cruzar as ruas com o passo firme de quem tem sempre algo a fazer.
Nascido em Sertãozinho, em 21 de fevereiro de 1943, era filho de Paride Grilli, imigrante italiano, e de Judith Gilberti, brasileira de raízes também italianas. Viveu ali os primeiros anos da infância, onde germinou o senso de responsabilidade. Aprendeu cedo o valor do trabalho e da presença que acolhe — na figura do pai, que, ao tornar-se viúvo, criou os nove filhos com firmeza e ternura. Ainda menino, mudou-se com a família para Ribeirão Preto. Moraram diante da Praça da Paróquia Santo Antônio de Pádua, onde mantinham um bar na esquina com a Avenida Saudade. Foi ali que ele começou a escutar a cidade com o coração atento.
Antonio Germano era um homem de muitas camadas. Formado Técnico em Contabilidade pelo Senac, preferiu deixar a exatidão dos números para dedicar-se às relações humanas. Em 1972, fundou com sua esposa a loja Aquarius — que mais tarde se tornaria Grilli Confecções. Aquele endereço era mais que um comércio: era ponto de encontro. Entre vendas de roupas, armarinhos, cadernos e brinquedos, ele compartilhava histórias, conselhos, ideias.
O comerciante trazia no sangue o espírito revolucionário de quem traça o próprio caminho. Gostava de gente. De ouvir, de servir. Era um conversador nato, apaixonado por música, cinema, literatura, com fortes convicções políticas. Tinha pensamento inquieto e curiosidade acesa. Observador do mundo, acompanhava os dilemas do tempo, os descompassos da sociedade.
Mesmo quando o corpo pedia pausa, ele resistia. Ia ao banco, ao supermercado, ao balcão da loja, como quem renova diariamente um pacto com a vida. Até o fim, foi o “Seo” Toninho para uns, o “Seo” Germano para outros. Mas, sempre um homem inteiro.
Na madrugada de 9 de julho, dia da Revolução Constitucionalista de 1932, partiu com a mesma essência que guiou cada passo de sua jornada. Mas não se despediu por completo. Ficou nos gestos. Nas memórias. Nos valores. Permanece na maneira firme, justa e generosa com que ensinou — mais com atitudes que com palavras.
Antonio Germano deixa a esposa, Maria Inez Alves da Silva Grili; os filhos Evandro Grili e Luciana Grili; a nora Alessandra Freire; o genro Valter Jossi Wagner; os netos Victor Freire Grili, Pedro Freire Grili e Nanda Grili Wagner; e o bisneto Antônio Cordeiro Grili — além de inúmeros amigos, vizinhos, fregueses e admiradores silenciosos.
Hoje, esse sertanezino que adotou Ribeirão como lar é lembrado com saudade terna. Como um homem que tinha pressa de viver. Seu legado não cabe apenas no sobrenome, nem só nas lembranças — está no modo como se caminha pelo mundo: com coragem e amor.
A herança contada pela família

“Eu sempre fui companheira do Germano em todas as suas lutas. Caminhamos juntos por 59 anos. Hoje, sigo com muita saudade e amor eterno. Sua partida me deixou uma tristeza sem fim, mas carrego muitas lembranças de sua presença forte, voz vibrante e olhar inspirador”.
Maria Inez Alves da Silva Grili, esposa
“O que eu sou hoje tem muito a ver com o que meu pai intuiu pra mim, mesmo que inconscientemente. Meu nome, escolhido por ele, veio inspirado de um grande jurista da época, o Dr. Evandro Lins e Silva. Ele se inspirou no jurista e a vida me levou a ser advogado.
Lá pelos meus 13 anos tomei uma bronca dele porque minha irmã já tocava piano e violão e eu não tocava nenhum instrumento. Resultado: virei músico e ele adorou isso. Como me apoiou nessa jornada da música!
Até quando ele já não estava mais aqui me deixou dicas preciosas. Ao ouvir meus filhos falarem do vovô Toninho, na cerimônia de cremação, ele me deu as melhores dicas de como ser avô do meu neto - que tem o mesmo nome que o dele.
Esse foi meu pai: um homem que amou do seu jeito, que nos inspirou do seu jeito e nos formou quem somos. Somos o seu legado, com muito amor e orgulho.”
Evandro Grili, filho
“Meus avós acertaram ao escolher o nome de meu pai. Antonio, do latim, carrega o sentido de valor inestimável — e, no grego, remete a quem se alimenta das flores. Germano significa irmão, fraterno. A combinação gerou um irmão valioso. E ele foi isso mesmo — um homem de força e empatia gigantes. Um trabalhador incansável, intuitivo e um pisciano sonhador.
Com meu pai, aprendi muito - sobre o valor do trabalho, a coragem de seguir mesmo quando a vida pesa. Com ele, compreendi que a vida pede intensidade. E que a esperança é uma prece que nunca se deve calar. E levo o que há de mais verdadeiro: o amor.
São tantos ensinamentos, tanta gratidão... A começar pela música — que ele me deu como herança e identidade. Ela mora no meu nome, na cantiga de ninar, no seu assovio afinado, na vitrola da infância. Dele também herdei o olhar atento: para a natureza, para o outro, para o coletivo.
Meu pai partiu. Mas deixou comigo incontáveis segundos de saudade. O cafezinho no pé da noite. A força sem fim. A inquietude de quem quer sempre fazer mais. O sonho. A fé. A presença”
Luciana Grili, filha
Antonio Germano (segundo da direita para a esquerda) com a família reunida
Fotos: arquivo de família