Desafios do novo prefeito: transporte público
Para especialistas, programa Ribeirão Mobilidade deu primeiros passos para melhoria do transporte coletivo, mas ficou para próxima gestão o desafio de cumprir suas principais metas
Dos cerca de 700 mil habitantes de Ribeirão Preto, segundo o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), pouco mais de 10% – 75 mil pessoas, segundo a RP Mobi – utilizam o serviço público de transporte coletivo urbano, atualmente prestado pela concessionária Consórcio PróUrbano. Sua frota atual, de 363 ônibus, serve 117 linhas, que disputam espaço no trânsito ribeirão-pretano com mais de 580 mil veículos privados, também segundo dados do IBGE.
Não é preciso ser um grande matemático para saber que essa quantidade de veículos por habitante congestiona o tráfego, dificultando a mobilidade urbana no município. É um dos motivos pelos quais a atual administração planejou o programa Ribeirão Mobilidade – em fase final de implantação na cidade. Atingir esse objetivo passa por tornar o transporte coletivo urbano mais eficiente, a ponto de atrair usuários dispostos a migrar do transporte privado, contribuindo para tirar veículos privados das ruas.
Para o consultor em Engenharia de Transportes e professor universitário Mateus Araújo e Silva, que já trabalhou na RP Mobi, o programa já trouxe bons resultados. Ele argumenta recorrendo a literatura técnica especializada, segundo a qual um serviço de transporte público coletivo por ônibus pode ser avaliado a partir de diversas métricas, entre elas acessibilidade, tarifa e conforto.
Ele acredita que o programa favorecerá a acessibilidade porque a implantação de corredores exclusivos visa a aumentar a velocidade operacional dos veículos (reduzindo o tempo de viagem) e o planejamento de oferta (com a diminuição do intervalo entre os ônibus) diminuir o tempo de espera dos usuários. Quanto à tarifa, lembra que tem se mantido estável, graças a subsídios diretos da Prefeitura, o que favorece o aumento da utilização do sistema. Por fim, avalia que a renovação da frota de ônibus tem garantido mais conforto ao usuário.
Para Mateus, é papel dos próximos gestores manter um monitoramento contínuo do serviço, que inclua levantamento de dados, diagnósticos e prognósticos. Ele destaca ainda como desafio tornar a tarifa mais acessível para as populações de menor poder aquisitivo.
Custo-benefício
Para Anderson Manzoli, engenheiro civil com mestrado e doutorado em transportes e pós-doutorado em Urbanismo, ficou para a próxima gestão o desafio de convencer pessoas a migrarem do transporte privado para o coletivo. Ele acredita que o Ribeirão Mobilidade deu um primeiro passo, com a melhoria da infraestrutura viária para o serviço e a criação de corredores exclusivos e preferenciais para ônibus, mas acha que falta planejar melhor sua cobertura, de forma a atender bem toda a cidade – inclusive áreas periféricas que dependem e precisam mais e foram historicamente mal atendidas –, além de otimizar frequência e pontualidade das linhas e tornar a tarifa competitiva em relação a outros modais.
“A tarifa ainda é pouquinho alta, e é necessário que o transporte público tenha uma boa relação custo-benefício para que as pessoas vejam vantagem em deixar o carro em casa para utilizar o serviço. A maioria das pessoas quer o serviço de deslocamento, não necessariamente o custo de um carro ou moto, que não implica só a conta do combustível, mas também de depreciação do veículo, revisões, além dos riscos de acidentes”, comenta.
Manzoli aconselha a realização de um estudo de Matriz Origem-Destino (ferramenta usada no planejamento da mobilidade urbana, que consiste em indicar a quantidade de pessoas que se deslocam de um lugar para outro, de acordo com vários fatores, como horário, modo de transporte e faixa de renda). “Quando você faz uma boa avaliação da situação, consegue colocar os ônibus onde eles realmente devem estar, nos momentos que devem estar”, afirma, lembrando que tudo isso contribui para a melhoria do custo-benefício do serviço, pois o usuário verá vantagem em pagar por um transporte eficiente.
Advogado especialista em trânsito, Adhemar Gomes Padrão Neto é mais pessimista sobre os resultados do programa. “O Ribeirão Mobilidade adaptou a cidade para o uso exclusivo de ônibus, ao invés de se valer de VLT ou VLR em corredores exclusivamente destinados e sem tirar o espaço dos demais veículos, como fez. Outra questão é que deveria investir também em bolsões de estacionamento ou edifícios-garagem para mitigar o espaço retirado e destinado ao transporte coletivo. Não o fez. E, no mesmo sentido, deveria investir em mão de obra de fiscalização”, aponta. Ele prevê, ainda, que a implantação de tecnologia por câmeras e controle dos deslocamentos baseado no itinerário/tempo dos ônibus será “outra decepção”, porque, “de fato, a demanda está baixa e tende a baixar ainda mais. Por isso o fluxo dos veículos – ou seja, o trânsito para todos – não pode seguir a ociosidade que já acontece nas linhas em funcionamento, sob pena de implantar a verdadeira ‘onda vermelha’ e não a verde”.
Entre os desafios, Adhemar cita, em primeiro lugar, definir qual postura política prevalecerá nas questões do transporte e do trânsito (só econômica ou econômica-social?). Em se optando pela econômica-social, ele acredita que será possível implantar na operação: controle da velocidade, estabelecendo uma média que permita mais tempo em deslocamento; aumentar fiscalização, feita por agentes e orientativa, deixando a punitiva só para casos extremos; rever a engenharia de tráfego, principalmente a eficiência de centenas de semáforos e pontos de travessias de pedestres (muitas hoje estão nos pontos de maior risco);e forjar maior eficiência administrativa sem aumentar impostos; e criar um novo plano de mobilidade com outro modal de transporte (agenda futura).
PROPOSTAS
André Trindade (União Brasil)
O Ribeirão Mobilidade, maior programa de mobilidade do Brasil, tem transformado a realidade do transporte coletivo urbano de Ribeirão Preto. Além dos novos corredores, a cidade passou a contar com a frota de ônibus renovada oferecendo à população veículos que incorporam muita qualidade, segurança e conforto, além de oferecer aos motoristas ferramentas mais modernas de trabalho. Além disso, para garantir um serviço melhor aos passageiros, recentemente inauguramos na cidade um Centro de Controle Operacional (CCO) para acompanhar em tempo real a operação dos ônibus. Neste ano, através do sistema de monitoramento por GPS do CCO, já foi detectado o índice de cumprimento de partidas acima de 97% e o de pontualidade de 86,72%. Vamos trabalhar cada vez mais para manter os índices positivos.
Ismar Menezes (Agir)
A melhoria do transporte coletivo em Ribeirão Preto requer uma abordagem multifacetada. Expandir os corredores de ônibus é essencial para aumentar a eficiência e pontualidade, enquanto a renovação da frota com veículos elétricos melhora a experiência dos usuários e reduz a poluição. O subsídio da Prefeitura deve ser usado para aumentar a frequência dos ônibus, melhorar a infraestrutura das paradas e oferecer um serviço mais confiável. A participação dos usuários, através de pesquisas e consultas públicas, é importante para identificar necessidades e áreas de melhoria. A integração com bicicletas e veículos compartilhados pode complementar o sistema de transporte público, promovendo maior adesão ao transporte coletivo.
Jorge Roque (PT)
O melhor caminho a ser adotado para melhorar o transporte coletivo no município é aumentar a frequência dos ônibus urbanos, assegurando a disponibilização de mais veículos para atender à população. Também é imprescindível condicionar a remuneração das empresas de ônibus ao cumprimento de um índice de qualidade do transporte, que vamos estabelecer, dialogando com os interessados diretos no tema e, sobretudo, com a sociedade.
Marco Aurélio (Novo)
Para melhorar o transporte público, precisamos adotar um conceito de cidades inteligentes. Isso também significa planejar de forma pragmática e trazer o trabalho e os serviços para mais perto dos trabalhadores, reduzindo a necessidade de longos deslocamentos. A expansão dos corredores de ônibus e a renovação da frota com veículos elétricos são passos que devem vir acompanhados de investimentos contínuos na manutenção e na eficiência do serviço. É essencial otimizar a gestão das rotas e garantir que os corredores sejam implantados com diálogo constante com comerciantes, entidades representativas de classe e a população, e não permitir que tais impactos negativos vividos atualmente sejam novamente repetidos. Combinando transporte eficiente com desenvolvimento urbano inteligente, podemos criar um sistema que realmente funcione para os usuários, negócios e para a sociedade como um todo.
Ricardo Silva (PSD)
Existe reclamação porque o nosso transporte público não leva as pessoas onde realmente elas precisam. O passageiro tem que pegar dois ou até três ônibus para chegar ao destino. Isso não se resolve com corredores de ônibus. Por outro lado, ainda encontramos ônibus extremamente lotados em algumas linhas e uma grande ociosidade em outras. Isso precisa ser revisto, ouvindo os usuários, que já apontaram que querem o retorno de alguns circulares extintos ou mesmo de horários que deixaram de existir. Os donos de bares e restaurantes, por exemplo, também falam que seus funcionários sofrem sem as linhas chamadas de “corujões”. Ou seja, a situação precisa ser resolvida ouvindo quem precisa do serviço, e não de dentro de um gabinete.
Arte: Revide