Construindo um sonho
De ajudante de montagem a empresário, Rodrigo Donizetti saiu da zona Norte de Ribeirão Preto para construir uma história de superação que hoje ganha forma na Flórida
Rodrigo Donizetti da Silva tem 48 anos e fala da própria vida com a serenidade de quem conhece o peso do trabalho duro. Nascido em Conquista (MG), mas criado em Ribeirão Preto — primeiro no Ipiranga, depois no Adelino Simioni —, aprendeu cedo a transformar madeira em destino. Casado há 22 anos com Érica e pai do Arthur, de 16, construiu cada capítulo da própria trajetória com as mãos, a curiosidade e uma persistência que se tornou guia.
A marcenaria surgiu quase por acaso. Um amigo da rua do pai apresentou a profissão, e o jovem Rodrigo viu ali uma possibilidade. Trabalhou por três anos na marcenaria Zucoloto e aos 17 já tinha uma formação profissional. Conseguiu vaga como ajudante de montagem e pedalava diariamente da zona Norte até a Sul para trabalhar. Foram cinco anos de bicicleta, suor e aprendizado.
Depois vieram outras empresas, até que, em 2001, assumiu a montagem por conta própria. Passou por marcas importantes do setor, como Sidlar e Delano. Nesta última, o responsável o chamou para perto: “quero você aqui comigo”, disse. Rodrigo virou gerente. Tomava conta de dez equipes, controlava processos, cuidava de instalação e produção de móveis planejados. “Chegamos a vender mais de R$ 1,5 milhão por mês”, recorda. Era o auge profissional e também o ponto de virada.
Enquanto ocupava posições de liderança, montava, aos poucos, seu próprio projeto paralelo: um pequeno salão cedido pelos sogros, seu Luiz e dona Luzia, onde iniciou a marcenaria ainda de forma discreta. O negócio cresceu, ele passou para um segundo salão — também cedido pelo sogro — e nunca chegou a pagar aluguel pelos espaços. Mas a alta pressão da função e um episódio de estresse agudo obrigaram Rodrigo a desacelerar. Saiu do cargo, reorganizou a vida e mergulhou de vez no que sempre gostou de fazer: produzir, criar, desenhar mobiliário.
Em 2011, nascia oficialmente a RDS Marcenaria. A partir dali, o salão simples foi ficando pequeno. Em 2012, mudou-se para o Cândido Portinari. Na pandemia, ao contrário de tantas histórias, o volume de trabalho aumentou. Chegou a atuar em um salão maior, dividido com um amigo, também marceneiro, em um período de intensa demanda por reforma e mobiliário residencial.
Mais impressionante que a lista de empregos e conquistas é o caminho que Rodrigo percorreu para chegar até elas: parou os estudos na quarta série do ensino fundamental, aprendeu tudo sozinho, observando, do corte de madeira aos desenhos técnicos; de processos industriais à lógica de softwares, como o Promob. “É curiosidade, paciência e insistência”, diz. Talvez exatamente por isso não hesite ao aconselhar os mais jovens: “uma hora você vai encontrar algo em que seja bom e vai prosperar. Mas tem que insistir e trabalhar”.

Rodrigo destaca a curiosidade e insistência para o sucesso, ao lado do filho, Arthur, e da esposa, Érica
Há dez meses, o marceneiro que começou de bicicleta atravessou fronteiras. Está na Flórida (EUA) acompanhando o filho, que está na high school, e a esposa, que estuda inglês, enquanto observa novos mercados para o futuro, aprendendo e testando possibilidades. Carrega agora um novo projeto na cabeça: abrir uma escola de marcenaria. Quer ensinar o que nunca teve oportunidade de aprender em um banco escolar. “De certo modo, quero devolver, em forma de conhecimento, tudo que a prática me deu”, conclui.