Além da embalagem
“Logística reversa é um compromisso diário”, explica Flavia Borges de Oliveira Montans, do Grupo Cedro

Além da embalagem

Empresária do varejo de cosméticos explica como a sustentabilidade só funciona quando deixa de ser campanha e vira hábito, repetido todos os dias, balcão por balcão

A logística reversa ocupa um lugar de destaque na operação nas lojas administradas pela empresária Flavia Borges de Oliveira Montans, diretora do Grupo Cedro – responsável por operações da rede O Boticário na região de Ribeirão Preto. Ela defende que o hábito seja integrado à rotina, ao discurso das equipes e à relação com o consumidor. “A sustentabilidade deixou de ser uma ação pontual e passou a fazer parte do dia a dia das lojas”, resume Flavia, que administra 34 unidades, três Espaços do Revendedor e uma rede de cerca de 10 mil revendedores em 22 cidades da região.


A preocupação com o destino das embalagens ganhou contornos práticos a partir de 2006, quando O Boticário estruturou nacionalmente o programa Boti Recicla, focado no descarte correto pós-consumo. Desde então, a logística reversa deixou de ser exceção e passou a parte do relacionamento com o cliente. No Grupo Cedro, esse movimento se fortaleceu ao longo do tempo, com metas claras, acompanhamento constante e envolvimento direto das equipes.


A principal transformação, segundo Flavia, foi interna. Treinamentos contínuos, campanhas educativas, rankings de sustentabilidade e ações de incentivo ajudaram a consolidar uma cultura em que devolver embalagens não é favor ao meio ambiente, mas parte do fluxo natural da compra. “O processo operacional é simples. O desafio maior está na mudança de hábito do consumidor”, explica. Separar a embalagem, guardá-la e levá-la de volta à loja exige constância e educação.


Na prática, o consumidor pode levar embalagens vazias de cosméticos até as lojas do Boticário, inclusive de outras marcas. As equipes orientam, recebem o material e garantem que ele siga corretamente pelo fluxo do programa. Como estímulo, a cada três embalagens devolvidas, o cliente recebe desconto na compra de novos produtos. “O incentivo fortalece o hábito da devolução e consolida a logística reversa em toda a rede”, diz Flavia.


Depois de recolhidas, as embalagens são encaminhadas a cooperativas parceiras, onde passam por triagem e reciclagem. Para o varejo, manter esse sistema funcionando exige regularidade. “A logística reversa precisa estar integrada à rotina das lojas, ao atendimento e à cultura das equipes. Não pode depender de esforço extraordinário”, afirma a empresária.


Isso exigiu ajustes no dia a dia. As equipes passaram a incorporar o papel de orientação e, segundo Flávia, passam por treinamentos constantes, que garantem clareza sobre as regras do programa e fluidez na operação. Com o tempo, a prática se naturaliza e passa a ser percebida como valor agregado ao atendimento.


O retorno aparece na relação com o público. Segundo Flavia, o consumidor reconhece quando a sustentabilidade sai do discurso e se materializa em ações concretas. A logística reversa fortaleceu a confiança e criou uma percepção de compromisso real com o meio ambiente. “Quando a sustentabilidade vira parte do negócio, e não algo separado, ela passa a fazer sentido para todos”, diz.


Há custos envolvidos, como em qualquer estrutura organizada, mas o equilíbrio vem da simplicidade e da integração. A marca oferece diretrizes e suporte nacional; os franqueados executam localmente, com equipes treinadas e diálogo direto com o consumidor. É nesse nível da loja, da conversa no balcão, da embalagem devolvida que a política ambiental ganha escala e consistência. 

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