Aurora Hotel, 118 anos

Aurora Hotel, 118 anos

Fundado por um imigrante português em 1908, o hotel mais antigo de Ribeirão Preto chega à quarta geração da mesma família à frente do negócio

Em 1908, Joaquim Marques fundou em Ribeirão Preto o atual Aurora Hotel. Mesmo diante de guerras mundiais, seis moedas diferentes e inúmeras enchentes – a pior delas em 1994 –, o hotel nunca fechou as portas. “Um feito que não tenho conhecimento de outro igual na história da hotelaria no Brasil”, enfatiza o atual diretor, Augusto Marques, quarta geração da família à frente do negócio.


Bisneto do fundador, Augusto é muito firme ao pontuar o que, para ele, representa a receita da longevidade: enfrentar os desafios de frente. Foi assim que, ao assumir a gestão do hotel, há uma década, conseguiu reverter um quadro de dívidas acumuladas que provavelmente levariam ao encerramento do negócio. “O cenário era devastador. Uma dívida fiscal considerável, salários atrasados, processos trabalhistas represados, operação abalada e infraestrutura abandonada”, recorda Augusto.


Sem apontar culpados, diz que um legado como esse — quase 120 anos de história — não se constrói apenas com acertos. Tampouco se deixa desaparecer como se nunca houvesse existido. “Não existe trajetória perfeita. Todas são permeadas de boas e más decisões, inclusive a minha”, afirma. 


Para dar passos mais assertivos, atualmente Augusto se apoia muito na gestão compartilhada de decisões. Saber ouvir e enfrentar os desafios, para ele, é a fórmula para agir e expandir o legado da família.

 

Uma pensão em frente à estação


Joaquim veio para o Brasil trabalhar na Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, mais especificamente na construção da ferrovia em Ribeirão Preto. Apaixonou-se logo pela região e identificou uma oportunidade a partir de uma necessidade. “Muitos portugueses recém-desembarcados não tinham onde ficar. Foi o que incentivou meu bisavô a abrir a Pensão Aurora Familiar, em um casarão em frente à antiga estação”, conta Augusto. 


Ainda hoje, no salão do café da manhã do hotel, os hóspedes podem ver de perto um grande baú de viagem, que repousa junto à porta principal. É a mala que Joaquim trouxe de Portugal. Um marco não apenas de um tempo que passou ou de um começo de uma história marcante, mas também de como o verdadeiro valor, muitas vezes, não está no que se possui, mas no que se constrói.


Duas décadas depois, o casarão improvisado deu lugar a um prédio próprio, batizado Hotel Aurora. Nas décadas seguintes vieram expansões silenciosas — um salão nos anos 1930, um andar nos 1940 e uma nova edificação  no final dos anos 1960, que rebatizou o negócio como Aurora Hotel. Tudo isso sempre sem fechar as portas. “Veja que gestão complexa temos aqui. Até no próprio prédio, eu tenho uma construção de 1908, um salão dos anos 1930, uma edificação dos anos 1940 e um andar dos anos 1960”, enumera Augusto. “Tenho que contar a história de vários momentos, não de um só.”

 

Nelson Rubens Marques: memórias de uma Ribeirão que não existe mais

 

Enfrentar os desafios


Primo do pai de Augusto, Nelson Rubens Marques, 80 anos, é quem apoia o atual diretor na gestão do Aurora. Para ele, é motivo de orgulho manter um hotel por 118 anos sem fechar nem trocar de dono. Nelson nasceu praticamente dentro do hotel, mas seguiu carreira de bancário, entrando na Caixa Econômica do Estado de São Paulo em 1965 e se aposentando em 1995. Ele só assumiu a administração do negócio de família, junto com Augusto, por volta dos 70 anos, quando o hotel já vinha de anos difíceis.


A transição de uma administração intuitiva para uma gestão profissionalizada, hoje apoiada também na estrutura de holding da família, não foi uma mudança da noite para o dia: foi um processo gradual de implantar rotinas, dividir responsabilidades e acompanhar indicadores. “Foi preciso enfrentar os desafios de frente. Não tinha meio-termo: ou era aquilo ou nada”, resume. O resultado, segundo Nélson, veio rápido.


Entre Nélson e Augusto, um elo de confiança mútua se criou, mas a sucessão nem sempre foi simples. Entre gerações, a administração do Aurora Hotel passou de irmãos para primos, e o próprio contrato social — que misturava a propriedade do imóvel com a operação do negócio — travava decisões importantes por causa de desacordos familiares. Coube a Augusto separar juridicamente as duas coisas e criar uma estrutura de holding, hoje peça central do planejamento sucessório da família.


Para Augusto, um dos aprendizados mais importantes para empresas familiares é tratar a sucessão em vida, dividindo tarefas entre os herdeiros, em vez de deixar o tema para a geração seguinte resolver sozinha. “Planejar a sucessão ainda em vida poupa discussões e custos com inventário”, defende. Na avaliação dele, o contrato social também precisa de atenção redobrada: prever mediação e arbitragem para eventuais conflitos e deixar claras as regras caso um sócio ou herdeiro decida não continuar na sociedade — valor de retirada, condições de pagamento e quem poderá comprar as cotas.


Se a sucessão organizada é um pilar dessa continuidade, o outro é a equipe que sustenta o hotel no dia a dia. Recepção, governança, manutenção e cozinha formam, para Augusto, a espinha dorsal do Aurora.  Saber ouvir — a família e as lideranças —, aprender com os erros e seguir em frente, para ele, é o que mantém o Aurora Hotel de portas abertas há 118 anos.


Antes de assumir o hotel, Augusto havia construído sua trajetória profissional fora da hotelaria. A mudança exigiu que aprendesse o negócio na prática e desenvolvesse uma nova forma de liderar pessoas e processos — além de uma disposição natural para manter a história do Aurora Hotel viva. “Tive que vender carro, fazer empréstimo consignado e me endividar como pessoa física para poder investir, Ainda assim, o que eu conseguia reunir ficava aquém da necessidade real, mas foi um começo”, recorda. 


Dez anos depois, vivenciando um momento distinto, de investimentos, acredita que enfrentar os desafios valeu a pena. Nem todas as decisões deram certo. Nos primeiros anos à frente do negócio, sem vir da hotelaria, Augusto insistiu por um tempo em manter um modelo híbrido de negócio, entre hotel e hostel – um erro, reconhece hoje, porque o perfil do hóspede de Ribeirão Preto nunca foi de mochileiro. “A gente vai aprendendo sobre o negócio com o tempo. Às vezes aquilo que serve para um hotel não serve para o nosso”, diz.


Augusto costuma dizer que nenhuma graduação no Brasil forma, de fato, um empresário. O salto mais difícil, segundo ele, foi trocar a frente do balcão pela gestão de equipes e processos. Tanto para ele como para o ‘primo-tio’ Nélson, ambos vindos de funções públicas, um ponto comum de entendimento é a ausência de vaidade. “Dentro de uma empresa não existe ‘eu’. Não é ‘eu fiz’, mas sim ‘nós fizemos’. É dessa relação de confiança e unidade que nascem os bons resultados”, defende Nélson. Em uma frase, Augusto define: “Ter um bom sócio é melhor do que ganhar na loteria. Você pode ganhar na loteria e perder o dinheiro, mas com um bom sócio, você nunca perde.”

 

O hotel e a cidade


Hoje, o Aurora aparece em primeiro lugar entre os hotéis de Ribeirão Preto nas plataformas de reserva on-line, à frente até de redes maiores. Augusto atribui o resultado, sobretudo, à força da tradição e à disposição de conciliar um prédio centenário com os padrões de conforto que o hóspede de hoje espera encontrar. “Tudo o que é belo também envelhece e nem por isso deixa de ser belo”, resume, com uma frase que costuma repetir.


Nesses 118 anos, mudou também o perfil de quem passa pelas portas do hotel: dos imigrantes e viajantes da Mogiana às famílias, representantes comerciais e turistas que hoje reservam pelo celular, o Aurora atravessou a história acompanhando as diferentes formas de se hospedar em Ribeirão Preto.


Para o diretor, conciliar modernidade e tradição é o maior desafio de administrar um hotel centenário. Ele lembra que outros tradicionais da cidade, como o Hotel Brasil, o Hotel Modelo e o Palace Hotel (antigo Hotel Central), tinham quartos com banheiros compartilhados no corredor. Por não se atualizarem, praticamente desapareceram. 


No Aurora, esse desafio segue presente: incorporar internet de alta velocidade, sistemas de gestão, climatização e conforto acústico a uma edificação erguida em quatro épocas diferentes, sem descaracterizar o que ela tem de original. Instalar o wi-fi através das paredes grossas e maciças, por exemplo, exigiu bem mais pontos de acesso do que em uma construção nova, mas resultou em uma rede rápida, sempre com uma antena a poucos metros do hóspede. 


Para Augusto, não faz sentido esconder a idade do hotel: há limitações que uma edificação moderna não tem, mas também vantagens que só um prédio com essa história pode oferecer.


Vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) em São Paulo, Augusto conhece cada vez mais e melhor o setor e sonha em ver revitalizado o entorno do próprio hotel, a avenida Jerônimo Gonçalves — quarteirão que, no passado, já foi a região mais nobre da cidade. Hoje, a avenida concentra mais equipamentos públicos do que comércio privado e, para ele, muito pode ser feito para melhorar o entorno. “Queremos que a revitalização do nosso quarteirão sirva de exemplo para outros comerciantes”, diz.

 

Ecos da cidade


Enquanto projeta o próximo marco da família – os 120 anos do Aurora, em 2028, com mais preservação e modernização do prédio, qualificação da experiência do hóspede e fortalecimento da relação do hotel com o Centro de Ribeirão Preto –, Nelson ainda guarda memórias de uma Ribeirão Preto que já não existe. Lembrando das brincadeiras por entre os varais do hotel, onde as lavadeiras estendiam os lençóis, e dos passeios de charrete pela cidade junto com o pai, diz que o mais triste na mudança de cenário foi a demolição da antiga estação da Mogiana, em frente ao hotel. “Era uma estação bonita, grande. Ali perto era um largo enorme, calçado de paralelepípedo, com ponto de charrete”, recorda.


Parte integrante da história de Ribeirão Preto, o Aurora guarda recordações peculiares — como a carteira de identificação de hóspedes, que naquele tempo funcionava quase como documento oficial. Como as viagens eram mais longas (entre Ribeirão Preto e São Paulo, 12 horas), era comum as pessoas ficarem mais tempo hospedadas, e o Aurora expedia essa carteira com dados e foto. Numa época em que RG era raro, as pessoas se apresentavam simplesmente como hóspedes do Hotel Aurora.


Há também um antigo livro de registro, com nome e número de quarto de cada pessoa, que faz parte do acervo do hotel. Enquanto conversa, Augusto Marques mostra uma cadeira do salão nobre feita de madeira maciça. Ela leva ainda um adesivo de fábrica: Gerdau. Em exposição, uma central telefônica manual — um PBX não automático — narra a história de como era feita a comunicação entre quartos e externa antigamente.


É desse tipo de detalhe, escondido dentro do que parece atual, que Augusto Marques gosta de partir para contar a história de um negócio que nunca fechou as portas. No acervo, guarda também um sino de latão, que alguém passava batendo corredor afora, para avisar os hóspedes de que o café da manhã estava pronto, e um chaveiro original do hotel que ele procura há anos sem nunca encontrar igual. 


Todas essas recordações, Augusto pretende transformar em um Centro de Memória de Ribeirão Preto. “Tudo isso é história que a gente tenta não deixar se perder”, finaliza.

 

4 gerações


Ao longo de quase 120 anos, a gestão do Aurora Hotel atravessou quatro gerações da mesma família. Depois do fundador — o patriarca Joaquim Marques — passou por seus filhos; os irmãos Deolindo Marques e Elzeário Marques; pelos primos Joaquim Afonso Marques e Carlos Frederico Marques, netos do fundador, até os dias atuais com Nelson Marques, também neto de Joaquim, e Augusto Marques, um de seus bisnetos,  à frente do negócio, preservando uma rara continuidade familiar na hotelaria brasileira.

 

Raio - x da empresa

Ano da fundação
1908


Área de atuação
Hotelaria

Colaboradores ativos
25


O segredo da longevidade

“O maior aprendizado destes quase dez anos à frente do hotel é que negócio de família não sobrevive sozinho nem só de acertos. Pacificar a família e organizar, ainda em vida, a sucessão entre as próximas gerações são passos importantes. Toda geração erra e acerta — inclusive a minha — e negar os erros das gerações passadas só cria uma história de propaganda, não uma empresa que dura. Não existe segredo, é simples: não existe eu, existe nós.”


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